{"id":141,"date":"2017-09-18T14:13:22","date_gmt":"2017-09-18T14:13:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=141"},"modified":"2017-09-18T14:13:22","modified_gmt":"2017-09-18T14:13:22","slug":"a-morte-da-cultura-aleatoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-morte-da-cultura-aleatoria\/","title":{"rendered":"CR\u00d4NICAS REVISTAS: A morte da cultura aleat\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>A linguagem digital est\u00e1 resumindo o mundo todo em apenas dois algarismos \u2013 zero e um, mais nada. At\u00e9 as letras s\u00e3o, agora, n\u00fameros. \u00c9 tudo bin\u00e1rio, preto no branco \u2013 tons de cinza s\u00f3 em livros para senhorinhas. E nesse um a zero, vem sendo destru\u00eddo o prazer da cultura aleat\u00f3ria, do saber ao acaso.<\/p>\n<p>A est\u00fapida objetividade digital nos priva de conhecimentos que aumentam a capacidade de racioc\u00ednio, que abrem janelas de verdade e ampliam argumentos. E talvez venha desses novos limites tanta falta de educa\u00e7\u00e3o. E as conversas fracionadas dos meios eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Exemplo: abr\u00edamos a enciclop\u00e9dia para buscar uma informa\u00e7\u00e3o e invariavelmente esbarr\u00e1vamos em outros verbetes pelo caminho. Acabou. As enciclop\u00e9dias digitais restringem a resposta \u00e0 escassa primeira d\u00favida. Um clique e aparece a informa\u00e7\u00e3o pedida; muito mais r\u00e1pida, pois n\u00e3o temos tempo a perder, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Ao digitar \u201cguerras napole\u00f4nicas\u201d, por exemplo, o curioso se depara simples e t\u00e3o somente com as campanhas do general\/imperador que desejou conquistar o mundo e acabou como inspira\u00e7\u00e3o de lun\u00e1ticos. Antes, ter\u00edamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o um generoso card\u00e1pio de guerras e estr\u00f3inas menos famosos, fatos que enriquecem a cultura geral.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica tacanha se aplica tamb\u00e9m ao pai dos burros, o velho dicion\u00e1rio. Antes de encontrar a defini\u00e7\u00e3o que busc\u00e1vamos apareciam muitas outras palavras que iam se revelando aos poucos, nos seduzindo pela grafia; hoje, vamos ao Houaiss do computador e ele nos entrega apenas e t\u00e3o somente a encomenda. E lamba os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>Os obtusos dir\u00e3o que a entrega est\u00e1 sendo feita. E normalmente os obtusos est\u00e3o certos, enquanto a vida segue limitada \u00e0s necessidades b\u00e1sicas. Voltamos a ser primitivos, saciados pela primeira informa\u00e7\u00e3o que chega. Afinal, comida \u00e9 pasto. \u00c9 a tal da vida pr\u00e1tica, muito mais funcional, veloz e objetiva; e muito mais chata.<\/p>\n<p>Enfim, o fato inapel\u00e1vel: a cultura aleat\u00f3ria est\u00e1 no fim.\u00a0E com ela vai-se a figura do vendedor de enciclop\u00e9dia. Sujeito sempre sorridente e bem penteado, que oferecia livros de casa em casa \u2013 era um tempo em que se podia abrir a porta de casa para atender a quem batia com educa\u00e7\u00e3o. Muito antes do olho m\u00e1gico, interfones e c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Andavam tamb\u00e9m nos locais de trabalho. Muitos brasilienses certamente se lembram de Mois\u00e9s, cearense bem falante que provavelmente havia lido bem poucos livros que oferecia com recomenda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Eram obras completas de Machado e Sheakespeare em papel b\u00edblia; colet\u00e2neas de poesia, enciclop\u00e9dias &#8211; Brit\u00e2nica, Barsa, Mirador &#8211; com dezenas de volumes. Uma tenta\u00e7\u00e3o para os bolsos rasos da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 mais Mois\u00e9s. Mais um tragado pelos bits.<\/p>\n<p>Em tempo: Luis Jorge jura que o nome do vendedor n\u00e3o \u00e9 Mois\u00e9s. E mais n\u00e3o diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A linguagem digital est\u00e1 resumindo o mundo todo em apenas dois algarismos \u2013 zero e um, mais nada. At\u00e9 as letras s\u00e3o, agora, n\u00fameros. \u00c9 tudo bin\u00e1rio, preto no branco \u2013 tons de cinza s\u00f3 em livros para senhorinhas. E nesse um a zero, vem sendo destru\u00eddo o prazer da cultura aleat\u00f3ria, do saber ao acaso. 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