{"id":1410,"date":"2023-03-07T10:55:06","date_gmt":"2023-03-07T13:55:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1410"},"modified":"2023-03-07T10:55:06","modified_gmt":"2023-03-07T13:55:06","slug":"o-futuro-chegou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-futuro-chegou\/","title":{"rendered":"O futuro chegou"},"content":{"rendered":"<p>Conheci muita gente artificialmente inteligente na vida. Gente com cultura adquirida nas estampas Eucalol, nos almanaques Capivarol e at\u00e9 nas figurinhas do chiclete Ping-Pong. Fingiam intelig\u00eancia quer era uma beleza, mas n\u00e3o assustavam. S\u00f3 que coisa inteligente assusta.<\/p>\n<p>Leitor de Isaac Asimov, Philip K. Dick e Arthur Clarke, entre muitos outros, n\u00e3o desconfiava que a ci\u00eancia que eles mostravam passaria de fic\u00e7\u00e3o para a realidade. Pelo menos n\u00e3o enquanto eu estivesse vivo.<\/p>\n<p>Vivemos dias em que at\u00e9 os sat\u00e9lites extraterrestres s\u00e3o fabricados na China. E em que pessoas ficam conversando com uma tal Siri que mora dentro do telefone e com a Alexia que vive numa caixinha de som \u2013 essa fascina\u00e7\u00e3o pelo feminino me encanta tanto quanto o nome dos furac\u00f5es. Dito isso, nada mais deveria nos surpreender.<\/p>\n<p>Eis que somos apresentados ao chat.OpenAI, que est\u00e1 em fase experimental. AI vem de Intelig\u00eancia Artificial, em ingl\u00eas, l\u00edngua que p\u00f5e os adjetivos \u00e0 frente dos substantivos. E num espa\u00e7o que aparece na tela aparece um quadro branco onde a gente \u00e9 desafiado para que ela (deve ser ela, vai saber) produza alguma coisa.<\/p>\n<p>Pergunta \u00e9 moleza. Pedi algo pouco mais trabalhoso, usando um tema maluco: \u201cescreva uma cr\u00f4nica de 300 palavras sobre um rob\u00f4 que conversa com um ser humano no botequim enquanto degusta um litro de \u00f3leo lubrificante. O ser humano bebe um Vermute com soda e come\u00e7a a falar sobre temas existencialistas, enquanto o rob\u00f4 fala das dificuldades que tem em conviver com m\u00e1quinas mais burras que ele\u201d.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina mandou brasa: \u201cO botequim estava cheio como sempre, com conversas animadas e risadas ecoando pelo ambiente. Mas, em uma das mesas, havia um encontro inusitado. Um ser humano estava sentado com um rob\u00f4, que parecia uma m\u00e1quina complexa, com luzes piscando e engrenagens girando silenciosamente. Eles estavam conversando, aparentemente, como velhos amigos\u201d. E foi em frente, mas sem atingir as 300 palavras.<\/p>\n<p>Dei uma bronca. E ainda escrevi que n\u00e3o havia gostado, renovando o pedido para mais uma cr\u00f4nica com o mesmo tema. E n\u00e3o \u00e9 que o OpenAI mudou? \u201cEra um botequim t\u00edpico, frequentado por pessoas em busca de uma boa bebida e uma conversa animada. Mas naquela noite, algo diferente aconteceu: um rob\u00f4 solit\u00e1rio tomou eu lugar no balc\u00e3o e pediu um litro de \u00f3leo lubrificante. Enquanto degustava sua bebida, o rob\u00f4 come\u00e7ou a conversar com o homem a seu lado. O homem, um fil\u00f3sofo amador, estava bebendo um Vermute com soda e logo iniciou uma discuss\u00e3o existencialista\u201d<\/p>\n<p>E seguiu: \u201cO rob\u00f4 escutava atentamente, mas logo come\u00e7ou a falar sobre suas pr\u00f3prias dificuldades. Ele se queixou das m\u00e1quinas mais antigas, que n\u00e3o conseguiam acompanh\u00e1-lo em sua intelig\u00eancia avan\u00e7ada. Disse que muitas vezes se sentia solit\u00e1rio, sem algu\u00e9m para conversar no mesmo n\u00edvel que ele\u201d. E a cr\u00f4nica seguiu em frente at\u00e9 completar as 300 palavras, me fazendo sentir obsoleto.<\/p>\n<p>Em seguida pedi para ele me contar uma piada de portugu\u00eas.\u00a0 Ele pediu desculpas (sim, educado!) e disse que n\u00e3o poderia contar piadas consideradas ofensivas ou que reforcem estere\u00f3tipos negativos. S\u00f3 me faltava essa: uma m\u00e1quina politicamente correta.<\/p>\n<p>\u2013 essa fascina\u00e7\u00e3o pelo feminino me encanta tanto quanto o nome dos furac\u00f5es. Dito isso, nada mais deveria nos surpreender.<\/p>\n<p>Eis que somos apresentados ao chat.OpenAI, que est\u00e1 em fase experimental. AI vem de Intelig\u00eancia Artificial, em ingl\u00eas, l\u00edngua que p\u00f5e os adjetivos \u00e0 frente dos substantivos. E num espa\u00e7o que aparece na tela aparece um quadro branco onde a gente \u00e9 desafiado para que ela (deve ser ela, vai saber) produza alguma coisa.<\/p>\n<p>Pergunta \u00e9 moleza. Pedi algo pouco mais trabalhoso, usando um tema maluco: \u201cescreva uma cr\u00f4nica de 300 palavras sobre um rob\u00f4 que conversa com um ser humano no botequim enquanto degusta um litro de \u00f3leo lubrificante. O ser humano bebe um Vermute com soda e come\u00e7a a falar sobre temas existencialistas, enquanto o rob\u00f4 fala das dificuldades que tem em conviver com m\u00e1quinas mais burras que ele\u201d.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina mandou brasa: \u201cO botequim estava cheio como sempre, com conversas animadas e risadas ecoando pelo ambiente. Mas, em uma das mesas, havia um encontro inusitado. Um ser humano estava sentado com um rob\u00f4, que parecia uma m\u00e1quina complexa, com luzes piscando e engrenagens girando silenciosamente. Eles estavam conversando, aparentemente, como velhos amigos\u201d. E foi em frente, mas sem atingir as 300 palavras.<\/p>\n<p>Dei uma bronca. E ainda escrevi que n\u00e3o havia gostado, renovando o pedido para mais uma cr\u00f4nica com o mesmo tema. E n\u00e3o \u00e9 que o OpenAI mudou? \u201cEra um botequim t\u00edpico, frequentado por pessoas em busca de uma boa bebida e uma conversa animada. Mas naquela noite, algo diferente aconteceu: um rob\u00f4 solit\u00e1rio tomou eu lugar no balc\u00e3o e pediu um litro de \u00f3leo lubrificante. Enquanto degustava sua bebida, o rob\u00f4 come\u00e7ou a conversar com o homem a seu lado. O homem, um fil\u00f3sofo amador, estava bebendo um Vermute com soda e logo iniciou uma discuss\u00e3o existencialista\u201d<\/p>\n<p>E seguiu: \u201cO rob\u00f4 escutava atentamente, mas logo come\u00e7ou a falar sobre suas pr\u00f3prias dificuldades. Ele se queixou das m\u00e1quinas mais antigas, que n\u00e3o conseguiam acompanh\u00e1-lo em sua intelig\u00eancia avan\u00e7ada. Disse que muitas vezes se sentia solit\u00e1rio, sem algu\u00e9m para conversar no mesmo n\u00edvel que ele\u201d. E a cr\u00f4nica seguiu em frente at\u00e9 completar as 300 palavras, me fazendo sentir obsoleto.<\/p>\n<p>Em seguida pedi para ele me contar uma piada de portugu\u00eas.\u00a0 Ele pediu desculpas (sim, educado!) e disse que n\u00e3o poderia contar piadas consideradas ofensivas ou que reforcem estere\u00f3tipos negativos. S\u00f3 me faltava essa: uma m\u00e1quina politicamente correta.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 26 de fevereiro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci muita gente artificialmente inteligente na vida. Gente com cultura adquirida nas estampas Eucalol, nos almanaques Capivarol e at\u00e9 nas figurinhas do chiclete Ping-Pong. Fingiam intelig\u00eancia quer era uma beleza, mas n\u00e3o assustavam. S\u00f3 que coisa inteligente assusta. Leitor de Isaac Asimov, Philip K. 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