{"id":1413,"date":"2023-03-07T11:07:52","date_gmt":"2023-03-07T14:07:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1413"},"modified":"2023-03-07T11:07:52","modified_gmt":"2023-03-07T14:07:52","slug":"um-sarau-para-joao-tome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-sarau-para-joao-tome\/","title":{"rendered":"Um sarau para Jo\u00e3o Tom\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Antes havia o piado da seriema, um dos poucos sons a quebrar o sil\u00eancio do ermo onde seria erguida a nova capital. No final de 1956 chegaram os homens: inicialmente, 256 trabalhadores; em janeiro de 1957 j\u00e1 eram 2.500 e em julho se contavam 12.283 candangos. A\u00ed j\u00e1 era poss\u00edvel ouvir uma viola ou uma sanfona, o servi\u00e7o de alto-falante; mas s\u00f3 com as transmiss\u00f5es da R\u00e1dio Nacional, dois antes da inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, \u00e9 que a m\u00fasica entrou de vez na vida da cidade.<\/p>\n<p>E entrou com for\u00e7a. Talentos foram garimpados em todos os cantos para formar o cast da emissora que, al\u00e9m de transmitir para todo o Brasil o andamento das obras, distraia os trabalhadores com recados, jogos de futebol, a missa de domingo, corridas de cavalo e, claro, m\u00fasica. Ao vivo.<\/p>\n<p>Um dos m\u00fasicos contratados foi Jo\u00e3o Tom\u00e9, que veio de Uberaba, Minas Gerais, e onde se destacava como instrumentista e compositor. Nunca mais deixou a cidade. Morreu em 1971 e deixou uma marca que vem sendo redescoberta a cada dia, gra\u00e7as ao trabalho dos filhos, que nunca deixaram que ele fosse esquecido.<\/p>\n<p>A vida e a obra de Jo\u00e3o Tom\u00e9 est\u00e3o sendo escrutinadas em um document\u00e1rio, um desafio herc\u00faleo e que busca mostrar a m\u00fasica que ele deixou. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. S\u00e3o cerca de 800 can\u00e7\u00f5es, principalmente choros e valsas \u2013 todas registradas em partitura, muitas gravadas por diversos artistas, num esfor\u00e7o de preserva\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria exemplar, conduzido principalmente pelas filhas Dolores e Alcione.<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s foi realizado um concerto repleto de m\u00fasicos, convidados a executar can\u00e7\u00f5es de Tom\u00e9. Quem esteve na Quituart, no Lago Norte, viu um espet\u00e1culo emocionante, uma celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 beleza feita a partir de um desfile de valsas e choros que foram registrados em som e imagem para o document\u00e1rio \u2013 que obviamente trar\u00e1 entrevistas com algumas pessoas que conviveram com o m\u00fasico mais de perto ou foram influenciados por ele.<\/p>\n<p>Um dos destaques foi o cavaquinho de M\u00e1rcio Marinho que encerrou a noite tocando dois choros. Mas a fam\u00edlia tamb\u00e9m tocou, vieram m\u00fasicos de Uberaba, gente que n\u00e3o conheceu o compositor \u2013 e nem havia nascido quando ele morreu \u2013 e uma plateia participativa. Tom\u00e9 merecia uma celebra\u00e7\u00e3o assim.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Tom\u00e9 participou da cria\u00e7\u00e3o da Escola de M\u00fasica, do Clube do Choro, tocava na noite e foi respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de muitos m\u00fasicos. Cego de nascen\u00e7a, impressionava os amigos com a facilidade que demonstrava para criar can\u00e7\u00f5es \u2013 dedicou algumas \u00e0 mulher, aos filhos, aos amigos, e produzia em escala industrial. S\u00e3o quase sempre temas curtos, estruturados e com melodias concatenadas, tudo ao gosto da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Outros chor\u00f5es e compositores dos anos mais \u00e1ridos de Bras\u00edlia mereceriam uma homenagem como esta. Gente que deixou sua marca, mas que o tempo implac\u00e1vel apaga. Se a cidade \u00e9 hoje um polo de instrumentistas \u00e9 gra\u00e7as a a\u00e7\u00e3o de pioneiros como Jo\u00e3o Tom\u00e9, que abriram todas as portas, das escolas arejadas aos inferninhos esfuma\u00e7ados, para que Bras\u00edlia tivesse uma m\u00fasica para chamar de sua. Que o filme fique pronto logo.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 24 de fevereiro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes havia o piado da seriema, um dos poucos sons a quebrar o sil\u00eancio do ermo onde seria erguida a nova capital. No final de 1956 chegaram os homens: inicialmente, 256 trabalhadores; em janeiro de 1957 j\u00e1 eram 2.500 e em julho se contavam 12.283 candangos. 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