{"id":1432,"date":"2023-03-14T10:38:43","date_gmt":"2023-03-14T13:38:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1432"},"modified":"2023-03-14T10:38:43","modified_gmt":"2023-03-14T13:38:43","slug":"sabedoria-em-uma-frase","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/sabedoria-em-uma-frase\/","title":{"rendered":"Sabedoria em uma frase"},"content":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria vai sendo embotada com o tempo \u2013 o disco r\u00edgido est\u00e1 cheio, dizem \u2013 mas tenho quase que certeza que o nome dele era Samuel. Gerente da leiteria (note-se que \u00e9 de um tempo em que havia leiterias) e, com o sotaque luso ainda muito forte, fazia for\u00e7a para n\u00e3o ser confundido com o portugu\u00eas da piada. Gostava de prov\u00e9rbios.<\/p>\n<p>(Sim, j\u00e1 frequentei uma leiteira, que ficava na frente da maior banca de jornais da cidade, de propriedade de um italiano, que chamavam de Nino (ou Nico&#8230;) e que, ao contr\u00e1rio do luso, n\u00e3o fazia quest\u00e3o nenhuma de se passar por inteligente. Ou educado. Era um carcamano mal-encarado como os que a gente via nos filmes.)<\/p>\n<p>Samuel adorava conversar com a estudantada. E passava cultura em forma de prov\u00e9rbios, aforismos, ad\u00e1gios, apotegmas, anexins, par\u00eamias, ditos \u2013 o que seja \u2013, que t\u00eam a capacidade de resumir uma hist\u00f3ria inteira numa \u00fanica frase.<\/p>\n<p>Erasmo de Rotterdam e Arist\u00f3teles anotavam as frases colhidas do populacho. E nem \u00e9 preciso buscar este tipo de sabedoria das p\u00e1ginas da B\u00edblia; basta conversar com um matuto esperto que ele tem sempre o que dizer, em qualquer situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQualquer um tira o saci da garrafa; quero ver quem p\u00f5e\u201d, \u201cNa cidade do saci, uma cal\u00e7a veste dois\u201d, \u201cSapo n\u00e3o pula por boniteza, mas por necessidade\u201d, \u201cN\u00e3o tinha com o que se apoquentar, comprou um leit\u00e3o\u201d, s\u00e3o alguns dos meus favoritos, entre os matutos.<\/p>\n<p>H\u00e1 prov\u00e9rbios que s\u00e3o t\u00e3o repetidos que n\u00e3o t\u00eam mais gra\u00e7a: \u201cO barato sai caro\u201d, \u201cN\u00e3o se chora o leite derramado\u201d, \u201cO bom filho a casa torna\u201d, \u201cOs \u00faltimos ser\u00e3o os primeiros\u201d. N\u00e3o carregam mais sabedoria; \u00f3bvios, gastos pelo tempo.<\/p>\n<p>Prov\u00e9rbios n\u00e3o podem ser ditos com entona\u00e7\u00e3o normal, exigem alguma solenidade, uma voz mais empostada e uma cara de coruja sabida. Sen\u00e3o correm o risco de se perderem na tradu\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo que seja em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>O Samuel da leiteria explorava prov\u00e9rbios lusos, alguns t\u00e3o marcantes que sobreviveram na cachola. \u201cVisita sempre d\u00e1 prazer. Sen\u00e3o quando chegam, pelo menos quando partem\u201d, dizia. Outro muito repetido, ainda carente de tradu\u00e7\u00e3o para mim, era \u201cmal de muitos, consolo \u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Outros: \u201cQuando Deus quer, \u00e1gua fria \u00e9 rem\u00e9dio\u201d; \u201cbem mal ceia quem come de m\u00e3o alheia\u201d, \u201cn\u00e3o gozes com o mal do teu vizinho, porque o teu vem a caminho\u201d.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 tamb\u00e9m repetia prov\u00e9rbios como mantras: \u201cQuando um burro fala, o outro abaixa a orelha\u201d, era um de seus favoritos. Ou \u201cpara quem n\u00e3o quer, tem muito\u201d, \u201cmais vale um gosto do que seis vint\u00e9ns\u201d e \u201cmanda quem pode e obedece quem tem ju\u00edzo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 que ningu\u00e9m mais quer saber de livros, quem sabe os prov\u00e9rbios incutam alguma ci\u00eancia no mundo? D\u00e1 menos trabalho. E nesses tempos de beliger\u00e2ncia intermin\u00e1vel \u2013 interna e externa \u2013, em que o respeito tem valido muito pouco, mesmo que n\u00e3o seja em ad\u00e1gios, \u00e9 preciso resgatar alguma sabedoria, ainda que seja preciso pegar frases emprestadas, como a de Benjamin Franklin: \u201cNunca houve uma guerra boa, nem uma paz ruim\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 12 de mar\u00e7o de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria vai sendo embotada com o tempo \u2013 o disco r\u00edgido est\u00e1 cheio, dizem \u2013 mas tenho quase que certeza que o nome dele era Samuel. Gerente da leiteria (note-se que \u00e9 de um tempo em que havia leiterias) e, com o sotaque luso ainda muito forte, fazia for\u00e7a para n\u00e3o ser confundido com o portugu\u00eas da piada. 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