{"id":1446,"date":"2023-03-24T12:25:17","date_gmt":"2023-03-24T15:25:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1446"},"modified":"2023-03-24T12:25:17","modified_gmt":"2023-03-24T15:25:17","slug":"mentiras-sem-fantasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/mentiras-sem-fantasia\/","title":{"rendered":"Mentiras sem fantasia"},"content":{"rendered":"<p>Um dos primeiros livros que me recordo de ganhar, ainda de cal\u00e7as curtas e trope\u00e7ando nas s\u00edlabas, foi uma colet\u00e2nea de contos de fantasia. Entre seres mitol\u00f3gicos e g\u00eanios de garrafa, um dos personagens mais marcantes dessas f\u00e1bulas era o Bar\u00e3o de M\u00fcnchausen. E n\u00e3o apenas por causa do nome que, ainda mais com trema, eu n\u00e3o conseguia pronunciar.<\/p>\n<p>O Bar\u00e3o era um mit\u00f4mano, um mentiroso contumaz. E na ilustra\u00e7\u00e3o principal aparecia, com um uniforme colorido, sentado numa bala de canh\u00e3o disparada em dire\u00e7\u00e3o a um castelo.<\/p>\n<p>O que eu n\u00e3o sabia na \u00e9poca \u00e9 que o bar\u00e3o foi uma pessoa real, aristocrata alem\u00e3o, que se colocava como protagonista das aventuras mais absurdas, em situa\u00e7\u00f5es em que a realidade se escorava em epis\u00f3dios flagrantemente fantasiosos \u2013 foi o precursor da tal realidade aumentada, hoje t\u00e3o comum nos mundos virtual e real.<\/p>\n<p>O que me encantava n\u00e3o era a mentira, mas a engenhosidade do uso do imposs\u00edvel para concluir as narrativas, como na vez em que, preso num banco de areia movedi\u00e7a, ele afundava inapelavelmente, quando teve a ideia salvadora: safou-se puxando os pr\u00f3prios cabelos. E como ele estava montado, i\u00e7ou o cavalo junto.<\/p>\n<p>O verdadeiro (uma temeridade usar o adjetivo em rela\u00e7\u00e3o a ele) Bar\u00e3o de M\u00fcnchausen se chamava Karl Friedrich, viveu de 1720 a 1797, lutou com as tropas russas contra os otomanos, mas ganhou fama como grande contador de hist\u00f3rias. Os casos foram publicados pela primeira vez por Rudolph Erich Raspe, ainda com o bar\u00e3o vivo \u2013 h\u00e1 uma bela edi\u00e7\u00e3o, com gravuras de Gustave Dor\u00e9.<\/p>\n<p>O protagonista das hist\u00f3rias era sempre o bar\u00e3o. Foi ele quem voou com aux\u00edlio de patos, foi arremessado montando uma bala de canh\u00e3o, subiu at\u00e9 a Lua usando uma corda de apenas dois metros s\u00f3 para buscar a machadinha que ele pr\u00f3prio havia arremessado. As hist\u00f3rias s\u00e3o narradas com a gra\u00e7a do absurdo e transformaram o bar\u00e3o do mentiroso mais conhecido do mundo.<\/p>\n<p>A disputa n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, principalmente na literatura: desde Pen\u00e9lope que, na <em>Odisseia<\/em>, tece uma intermin\u00e1vel colcha para enrolar os pretendentes enquanto espera pela volta de Ulisses, ao Pin\u00f3quio, bonequinho de pau que ganhou vida para contar lorotas no livro por Carlo Collodi.<\/p>\n<p>No cinema, personagens como Eve, de <em>All About Eve<\/em> (A Malvada), interpretada por Anne Baxter, o protagonista de <em>O Grande Gatsby<\/em> (Robert Redford) ou Brad Allen (Rock Hudson) em <em>Confid\u00eancias \u00e0 Meia-Noite<\/em> fizeram hist\u00f3ria. Na TV tivemos Don Draper (Jon Hamm), o publicit\u00e1rio de Mad Man, e Volpone (Nei Latorraca) da novela <em>Um Sonho a Mais.<\/em><\/p>\n<p>Na vida real os mentirosos n\u00e3o s\u00e3o menos inventivos. H\u00e1 o caso de Frank Abagnale, fals\u00e1rio que teve suas aventuras narradas no filme <em>Prenda-me se for capaz<\/em>, o brasileiro Marcelo Nascimento, outro golpista que chegou ao cinema em <em>Vips \u2013 Hist\u00f3rias reais de um mentiroso<\/em>.<\/p>\n<p>E ainda temos a pol\u00edtica brasileira, prodiga em meias verdades, mentiras inteiras e enrola\u00e7\u00f5es, com nega\u00e7\u00f5es que v\u00eam de todos os lados. Mas nada disso d\u00e1 boa literatura ou filmes. E nem tem a gra\u00e7a do velho bar\u00e3o alem\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 24 de mar\u00e7o de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos primeiros livros que me recordo de ganhar, ainda de cal\u00e7as curtas e trope\u00e7ando nas s\u00edlabas, foi uma colet\u00e2nea de contos de fantasia. Entre seres mitol\u00f3gicos e g\u00eanios de garrafa, um dos personagens mais marcantes dessas f\u00e1bulas era o Bar\u00e3o de M\u00fcnchausen. 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