{"id":1460,"date":"2023-04-09T14:52:48","date_gmt":"2023-04-09T17:52:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1460"},"modified":"2023-04-09T14:52:48","modified_gmt":"2023-04-09T17:52:48","slug":"parlapatices-sem-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/parlapatices-sem-fim\/","title":{"rendered":"Parlapatices sem fim"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m sabe quando os grunhidos dos homin\u00eddeos se transformaram em palavras,<br \/>\nmas seguramente foi um processo curioso a forma\u00e7\u00e3o dos voc\u00e1bulos, a nomina\u00e7\u00e3o de tudo<br \/>\nque nos cerca, a transforma\u00e7\u00e3o desse conjunto em idiomas e a expans\u00e3o da capacidade verbal\u00a0do homem feito, o homo sapiens.<br \/>\nCalcula-se que nas l\u00ednguas cultas como o portugu\u00eas s\u00e3o usadas cerca de tr\u00eas mil<br \/>\npalavras na comunica\u00e7\u00e3o cotidiana; uma fra\u00e7\u00e3o dos 400 mil verbetes dicionarizados pelo<br \/>\nHouaiss de 2001 ou das cerca de 600 mil, se computados os termos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos.<br \/>\nUma pessoa comum fala em torno de 200 palavras por minuto, o que d\u00e1 tr\u00eas por<br \/>\nsegundo. Em portugu\u00eas, o substantivo mais usado \u00e9 coisa. Pudera: serve para qualquer coisa (\u00eapa!). O adjetivo mais usado \u00e9 bom, seguido de grande. Ou seja, palavras otimistas.<br \/>\nMas o verbo mais usado \u00e9 ser. Bem ego\u00edsta.<br \/>\nO brasileiro tem mais do que o dobro de palavras para usar do que o italiano \u2013 mas a<br \/>\ngente precisa lembrar que o pessoal da bota tamb\u00e9m fala com as m\u00e3os. S\u00f3 que n\u00f3s perdemos feio para os coreanos, que t\u00eam mais de 1.100 voc\u00e1bulos para definir as coisas.<br \/>\nCurioso \u00e9 que o idioma criado para substituir todos os outros, o esperanto, se resolva<br \/>\ncom apenas 16.780 palavras.<br \/>\nCom essa profus\u00e3o de termos que foram sendo criados e definidos por mil\u00eanios, fica<br \/>\ndif\u00edcil entender porque reduzimos tanto a nossa capacidade de comunica\u00e7\u00e3o. J\u00e1 faz alguns<br \/>\nanos que vivemos o fen\u00f4meno da c\u00e2mera de eco, que \u00e9 aquela sensa\u00e7\u00e3o de que todo mundo<br \/>\nest\u00e1 falando a mesma coisa porque, ao contr\u00e1rio do que possa parecer, a dissemina\u00e7\u00e3o de<br \/>\ncanais de informa\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o tem conduzido todos ao mesmo brejo.<br \/>\n\u00c9 uma inunda\u00e7\u00e3o de dizeres (nem sempre s\u00e3o fatos) que conduzem o fio das certezas<br \/>\nmonol\u00edticas e bloqueiam a criatividade. \u00c9 por isso que a intelig\u00eancia artificial tem se destacado tanto no notici\u00e1rio: na m\u00e9dia, ela est\u00e1 ganhando da intelig\u00eancia dos seres humanos.<br \/>\nE vivemos uma era de apartamento (ou apartheid, v\u00e1 l\u00e1, o termo em ingl\u00eas \u00e9 mais<br \/>\npreciso) do bate-papo que avan\u00e7a at\u00e9 no democr\u00e1tico boteco, ambiente em que, antigamente, tudo se discutia. At\u00e9 gosto e religi\u00e3o, desmentindo o velho ad\u00e1gio.<br \/>\nBenjamin \u00e9 sujeito vivido. Aposentado h\u00e1 muitos anos, tem uma vida confort\u00e1vel,<br \/>\n\u00f3timo n\u00edvel educacional e cultural, mas hoje sofre de uma s\u00edndrome: acredita em tudo o que l\u00ea\u00a0na internet. N\u00e3o difere um site do outro, mas se informa principalmente pelo aplicativo de mensagens instant\u00e2neas, em notas curtas repassadas pelas mesmas pessoas.<br \/>\nDesenvolveu tamb\u00e9m uma autossufici\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o admite corre\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndiscordando abertamente de fatos hist\u00f3ricos ou cient\u00edficos, embora ainda acredite que a Terra \u00e9 redonda e que as vacinas s\u00e3o eficientes. Mas outro dia ele chegou ao bar com uma novidade\u00a0na ponta da l\u00edngua: o governo mandaria cunhar uma moeda ou emitir nota (a not\u00edcia carecia\u00a0de exatid\u00e3o) com a ef\u00edgie de Pablo Vittar.<\/p>\n<p>Convencido do contr\u00e1rio, com alguma dificuldade,<br \/>\ndisparou:<br \/>\n\u2013 \u201cBem que poderia ser verdade\u201d \u2013 disse, desolado, por n\u00e3o poder falar mal dos<br \/>\ndesafetos oficiais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 7 de abril de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m sabe quando os grunhidos dos homin\u00eddeos se transformaram em palavras, mas seguramente foi um processo curioso a forma\u00e7\u00e3o dos voc\u00e1bulos, a nomina\u00e7\u00e3o de tudo que nos cerca, a transforma\u00e7\u00e3o desse conjunto em idiomas e a expans\u00e3o da capacidade verbal\u00a0do homem feito, o homo sapiens. 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