{"id":1470,"date":"2023-04-28T13:26:56","date_gmt":"2023-04-28T16:26:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1470"},"modified":"2023-04-28T13:26:56","modified_gmt":"2023-04-28T16:26:56","slug":"um-musical-para-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-musical-para-brasilia\/","title":{"rendered":"Um musical para Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>Nos primeiros tempos, haviam o piado da seriema e o uivo do vento entre as t\u00e1buas das primeiras constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. Era a m\u00fasica que se ouvia no ermo. Mas Bras\u00edlia estava destinada a ser saudada com muita melodia naqueles primeiros e \u00e9picos anos.<\/p>\n<p>Cinco anos antes da inaugura\u00e7\u00e3o veio a primeira homenagem, a guar\u00e2nia <em>Bras\u00edlia<\/em>, registrada pelo goiano Trio da Amizade. Da\u00ed em diante, m\u00fasicas saudaram ou criticaram a mudan\u00e7a da capital e Bras\u00edlia nascia embalada por todos os g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Ainda em 1956, Linda Batista gravou <em>Nova Capital<\/em> (\u201cLeva tudo pra l\u00e1, seu presidente\/Mas deixe aqui nosso carnaval\u201d) e no final do ano seria lan\u00e7ado o ufanista <em>Canto da Nova Capital<\/em>, de Dilermando Reis e Bastos Tigre (\u201cSer\u00e1s\/ No Planalto Central\/ Refulgente fanal\/ De riqueza e de paz\u201d).<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as primeiras das 37 can\u00e7\u00f5es que o livreiro Jorge Brito reuniu \u2013 com a ajuda de outras pessoas \u2013 e que sonhou reunir num musical, em mais um projeto que a pandemia engoliu. Mas sonhos n\u00e3o morrem nem envelhecem.<\/p>\n<p>Essas can\u00e7\u00f5es foram extra\u00eddas de grava\u00e7\u00f5es feitas entre 1955 e 1960, incluindo algumas n\u00e3o lan\u00e7adas e o indefect\u00edvel <em>Peixe Vivo,<\/em> com o Grupo de Seresta de Diamantina, disco que teve parte de sua tiragem destru\u00edda a mando de um poderoso da \u00e9poca (1968), porque contou com a participa\u00e7\u00e3o de JK na grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia uma clara disputa entre opositores e apoiadores da nova capital. Se o paraense Billy Blanco reclamava em <em>N\u00e3o Vou Pra Bras\u00edlia<\/em> (\u201cNem eu nem minha fam\u00edlia\/ Mesmo que seja\/ Pra ficar cheio da grana\u201d), Cid Magalh\u00e3es, pseud\u00f4nimo do futuro desembargador Milton Sebasti\u00e3o Barbosa, exultava em <em>Bras\u00edlia, Cidade C\u00e9u<\/em> (\u201cTu \u00e9s o verdadeiro cora\u00e7\u00e3o do meu pa\u00eds\/ Bras\u00edlia, capital Feliz\u201d).<\/p>\n<p>O chorinho <em>Dan\u00e7ando em Bras\u00edlia<\/em> foi a primeira homenagem do cavaquinhista Waldir Azevedo \u00e0 nova capital, ainda em 1959; premonit\u00f3ria, j\u00e1 que ele se mudaria para a cidade em 1971 (foi aqui, cortando grama, que ele perdeu um dedo da m\u00e3o esquerda, implantado por cirurgia, num caso que rendeu um de seus mais belos choros, <em>Minhas M\u00e3os, Meu Cavaquinho<\/em>).<\/p>\n<p>Dilermando Reis, um dos maiores violonistas que o Brasil j\u00e1 ouviu, fez um disco inteiro em homenagem a nova capital,<em> Melodias da Alvorada<\/em> (1960). Conta a lenda que Dilermando bem que tentou ensinar algumas notas musicais para o presidente Kubistchek, mas os instrumentos dele eram os p\u00e9s, que deslizavam pelos sal\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesses primeiros anos a arquitetura de Niemeyer j\u00e1 deixava o mundo de boca aberta, mas o c\u00e9u imenso come\u00e7ava a virar poesia. O primeiro registro foi em <em>Sob o C\u00e9u de Bras\u00edlia<\/em>, em que Jos\u00e9 Fortuna, usando a melodia de Dilermando Reis, vaticinou: \u201cTuas noites s\u00e3o lindas e no c\u00e9u de anil\/ Formado de estrelas o cruzeiro brilha\/ \u00c9 o divino Criador aben\u00e7oando\/As noites deliciosas de Bras\u00edlia\u201d. A m\u00fasica foi gravada por Francisco Petr\u00f4nio.<\/p>\n<p>A g\u00eanese musical de Bras\u00edlia vai de <em>Adeus Mangueira<\/em>, com o Trio de Ouro (Juscelino me chamou\/ Eu vou morrer de saudade, mas vou\u201d) a <em>Me Leva seu Presidente<\/em>, com Jorge Veiga (\u201cVou me embora e n\u00e3o levo\/ Saudade da Guanabara\u201d) e segue adiante. Vale at\u00e9 mais do que um musical.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 21 de abril de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos primeiros tempos, haviam o piado da seriema e o uivo do vento entre as t\u00e1buas das primeiras constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. Era a m\u00fasica que se ouvia no ermo. Mas Bras\u00edlia estava destinada a ser saudada com muita melodia naqueles primeiros e \u00e9picos anos. 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