{"id":1480,"date":"2023-05-03T12:57:45","date_gmt":"2023-05-03T15:57:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1480"},"modified":"2023-05-03T12:57:45","modified_gmt":"2023-05-03T15:57:45","slug":"mudando-palavras-e-so","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/mudando-palavras-e-so\/","title":{"rendered":"Mudando palavras. E s\u00f3"},"content":{"rendered":"<p>Me parece que tudo come\u00e7ou quando foi proibido fumar no cinema. N\u00e3o na plateia, o que \u00e9 compreens\u00edvel numa sala fechada, mas na tela mesmo. Era a primeira manifesta\u00e7\u00e3o politicamente correta e que deu nisso que temos hoje: um monte de cota a cumprir, um bocado de coisa que n\u00e3o pode ser dita nem a adultos e a cren\u00e7a de que todos somos influenci\u00e1veis por qualquer bobagem.<\/p>\n<p>No caso do fumo, a press\u00e3o que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade fez sobre os est\u00fadios de Hollywood \u00e9 compreens\u00edvel. A ind\u00fastria do tabaco pagava para que as estrelas do cinema transformassem o ato de fumar em virilidade, casos de Clark Gable, Spencer Tracy e Cary Grant, ou sedu\u00e7\u00e3o, na fuma\u00e7a exalada pelas bocas de Joan Crawford e at\u00e9 Bette Davis, que nem era essa beleza toda.<\/p>\n<p>Ainda nos prim\u00f3rdios do cinema, Al Johnson, astro do primeiro filme falado, dizia que Lucky Strike era \u201co cigarro dos atores\u201d. Praticamente todos os grandes atores fumavam em cena; alguns filmes como Casablanca praticamente sopravam fuma\u00e7a na cara da audi\u00eancia.<\/p>\n<p>Os tais especialistas acreditam que esses filmes antigos continuam incentivando as pessoas a fumar, mas como ainda n\u00e3o fizeram a brilhantina voltar \u00e0 moda, podemos duvidar. Ainda n\u00e3o apareceu nenhum gaiato querendo cortar as cenas com baforadas de James Bond e Humphrey Bogart, mas \u00e9 bom n\u00e3o duvidar desses revisionistas.<\/p>\n<p>Se no cinema o espi\u00e3o de Sua Majestade est\u00e1 inc\u00f3lume, nos livros o neg\u00f3cio \u00e9 diferente. Bond n\u00e3o \u00e9 exatamente um personagem bom car\u00e1ter, afinal faz qualquer coisa para cumprir suas miss\u00f5es. Mas a partir deste m\u00eas ele vai falar com mais educa\u00e7\u00e3o, preocupando-se em n\u00e3o ofender ningu\u00e9m. Os livros est\u00e3o sendo reescritos.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o cassaram sua licen\u00e7a para matar e ele, parece, continua empertigadamente heterossexual, mas n\u00e3o chama mais um afrodescendente de \u201cniger\u201d \u2013 e nem vai dizer que eles bebem demais, como numa passagem de <em>Viva e Deixe Morrer<\/em>. Num inferninho, Ian Fleming escreveu: \u201cBond podia ouvir o p\u00fablico ofegando e grunhindo como porcos no cocho\u201d. O trecho vai ser exclu\u00eddo, provavelmente por ofender bacorinhos.<\/p>\n<p>Vil\u00f5es \u2013 mesmo os piores \u2013 ser\u00e3o tratados apenas como g\u00e2ngsters, o que na cabe\u00e7a dos adaptadores vai reduzir a maldade intr\u00ednseca ao Dr. No. Na literatura infantil a revis\u00e3o \u00e9 ainda mais radical; em <em>O Fant\u00e1stico Sr. Raposo<\/em>, livro de Dahl Roald, Bunce, o an\u00e3o barrigudo, n\u00e3o tem mais nanismo nem a protuber\u00e2ncia abdominal. \u00c9 s\u00f3 Bunce; a crian\u00e7a que o imagine como quiser.<\/p>\n<p>No Brasil, a malcriada e boquirrota Em\u00edlia, de Monteiro Lobato, \u00e9 a principal v\u00edtima do revisionismo. Sem papas na l\u00edngua, a boneca de pano conta o plano das on\u00e7as para devorar os moradores do Sitio do Picap\u00e1u Amarelo: \u201cN\u00e3o vai escapar ningu\u00e9m. Nem Tia Anast\u00e1cia que tem a carne preta\u201d. N\u00e3o basta colocar uma nota explicativa do contexto em que a obra foi escrita?<\/p>\n<p>O cartunista \u2013 e criador do Menino Maluquinho \u2013 Ziraldo desenhou Lobato abra\u00e7ado a uma mulher negra. \u201cQue m* \u00e9 essa?\u201d, perguntava. At\u00e9 hoje ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, Ziraldo \u00e9 autor de um famoso p\u00f4ster antitabagista no qual, atr\u00e1s de uma loira emperiquitada, estava escrito: Fumar \u00e9 cafona.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 30 de abril de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Me parece que tudo come\u00e7ou quando foi proibido fumar no cinema. N\u00e3o na plateia, o que \u00e9 compreens\u00edvel numa sala fechada, mas na tela mesmo. 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