{"id":1504,"date":"2023-05-31T12:53:45","date_gmt":"2023-05-31T15:53:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1504"},"modified":"2023-05-31T12:53:45","modified_gmt":"2023-05-31T15:53:45","slug":"a-ultima-conferida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-ultima-conferida\/","title":{"rendered":"A \u00faltima conferida"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPara o cemit\u00e9rio, s\u00f3 vou se for levado \u2013 e na horizontal\u201d, me diz um amigo, pragm\u00e1tico, depois de ter sido constrangido por outro camarada com o pior tipo de pergunta que se pode fazer, aquela que traz, antes da interroga\u00e7\u00e3o, uma afirma\u00e7\u00e3o. \u00c9 de perder o rebolado. \u201cN\u00e3o te vi no cemit\u00e9rio, a que horas voc\u00ea esteve l\u00e1?\u201d.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o se deu o trabalho de usar a frase anterior porque sentiu que seria pior, teria que se estender. Teria que dizer que n\u00e3o \u00e9 supersti\u00e7\u00e3o, mas porque n\u00e3o v\u00ea sentido nessas cerim\u00f4nias de despedida; mas era muita explica\u00e7\u00e3o, exigiria alguma filosofia e muita paci\u00eancia e ele preferiu se escorar em mim para mudar o rumo da prosa. Falamos de futebol.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o manda que a gente v\u00e1 dar uma conferida final naquele parente, amigo ou camarada que se foi, mas eu tamb\u00e9m evito. Gosto de lembrar das pessoas vivas e n\u00e3o me sinto \u00e0 vontade naquele quase convescote em que as pessoas falam de amenidades em torno de um corpo inerte, cercado por flores a espera de ser carregado para a cova.<\/p>\n<p>Lembro sempre a hist\u00f3ria de Ulysses Guimar\u00e3es, o Senhor Diretas, que nunca ia a enterros e acabou n\u00e3o indo nem ao pr\u00f3prio, j\u00e1 que o corpo dele nunca foi encontrado e, h\u00e1 30 anos, continua mergulhado no Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Um outro amigo \u00e9 t\u00e3o supersticioso que sequer fala a palavra cemit\u00e9rio. Como se fosse adiantar alguma coisa, prefere usar campo santo, necr\u00f3pole ou, mais frequentemente, at\u00e9 porque \u00e9 descendente de libaneses, almoc\u00e1bar, que obviamente \u00e9 uma palavra de origem \u00e1rabe. N\u00e3o sei se a sem\u00e2ntica resolve alguma coisa, mas para ele ameniza. E ficamos assim.<\/p>\n<p>Saber que n\u00e3o se vai mais encontrar um amigo ou mesmo um conhecido j\u00e1 \u00e9 dor suficiente. N\u00e3o \u00e9 preciso dividi-la com parentes e outros presentes. H\u00e1 quem alegue que s\u00f3 uma cerim\u00f4nia f\u00fanebre \u00e9 capaz de encerrar uma hist\u00f3ria de conviv\u00eancia e que seria a \u00faltima oportunidade de dar um adeus a um querido. S\u00f3 que o querido n\u00e3o est\u00e1 mais ali, s\u00f3 h\u00e1 um corpo.<\/p>\n<p>O homem enterra seus semelhantes desde 60 mil anos antes de Cristo, pelo menos. Inicialmente era um modo de esconder os corpos de animais predadores. Mais tarde, eg\u00edpcios mantinham conservados os corpos da gente importante e os romanos come\u00e7aram a cremar, mas s\u00f3 gente bem; os bandidos eram enterrados mesmo.<\/p>\n<p>At\u00e9 recentemente \u2013 1964 \u2013 a Igreja Cat\u00f3lica proibia a crema\u00e7\u00e3o de fi\u00e9is, mas os vikings faziam cerim\u00f4nias em que misturavam fogo e \u00e1gua para carbonizar guerreiros e nobres num barco, a caminho de Valhala.<\/p>\n<p>Os vel\u00f3rios s\u00f3 foram institu\u00eddos na idade m\u00e9dia para resolver o problema de enterrar gente viva \u2013 como as pessoas bebiam vinho e outros esp\u00edritos em ta\u00e7as de estanho, muitas vezes chegavam a um estado de narcolepsia que era confundido com morte. E decidiu-se esperar um pouco mais antes de botar terra em cima.<\/p>\n<p>Hoje, os vel\u00f3rios s\u00e3o solenidades para os vivos; um outro amigo, mais vivido, tem uma explica\u00e7\u00e3o mais direta sobre o fato de evitar cemit\u00e9rios: \u201cQuem n\u00e3o \u00e9 visto n\u00e3o \u00e9 lembrado\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 28 de maio de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPara o cemit\u00e9rio, s\u00f3 vou se for levado \u2013 e na horizontal\u201d, me diz um amigo, pragm\u00e1tico, depois de ter sido constrangido por outro camarada com o pior tipo de pergunta que se pode fazer, aquela que traz, antes da interroga\u00e7\u00e3o, uma afirma\u00e7\u00e3o. \u00c9 de perder o rebolado. \u201cN\u00e3o te vi no cemit\u00e9rio, a que horas voc\u00ea esteve l\u00e1?\u201d. 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