{"id":1509,"date":"2023-06-21T11:59:19","date_gmt":"2023-06-21T14:59:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1509"},"modified":"2023-06-21T11:59:19","modified_gmt":"2023-06-21T14:59:19","slug":"poesia-embebida-em-alcool","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/poesia-embebida-em-alcool\/","title":{"rendered":"Poesia embebida em \u00e1lcool"},"content":{"rendered":"<p>O pintor irland\u00eas Francis Bacon dizia que sua mente s\u00f3 funcionava bem para criar quando ele estava de ressaca e, por isso, bebia. O poeta alem\u00e3o Charles Bukowski escrevia de garrafa na m\u00e3o: \u201c\u00c9 este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconte\u00e7a qualquer coisa.\u201d<\/p>\n<p>Sinclair Lewis, Eugene O\u2019Neill, Ernest Hemingway, John Steinbeck e William Faulkner tinham algo em comum al\u00e9m de terem ganho o pr\u00eamio Nobel de literatura: eram alco\u00f3licos. Vinicius de Moraes dizia que o u\u00edsque \u00e9 o cachorro engarrafado \u2013 o melhor amigo do homem.<\/p>\n<p>Talvez com tudo isso na cabe\u00e7a, o rapaz frequenta o bar sempre munido de uma caneta esferogr\u00e1fica, ocupando um banquinho no balc\u00e3o. N\u00e3o vai \u00e0s mesas. Diligente, foi o \u00fanico que reclamou quando o propriet\u00e1rio trocou a marca do guardanapo por um modelo brilhante, fino e escorregadio.<\/p>\n<p>H\u00e1 indicativos de que a bebida alco\u00f3lica estimula as fantasias do c\u00e9rebro. Estudo da Universidade de Illinois, Chicago, mostrou que o consumo moderado reduz inibi\u00e7\u00f5es e abre a janelinha criativa da cachola. Mas o nosso poeta vai um pouco al\u00e9m da conta, talvez se lembrando dos versos do franc\u00eas Charles Bauldelaire<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 necess\u00e1rio estar sempre b\u00eabado\/ Tudo se reduz a isso; eis o \u00fanico problema\/ para n\u00e3o sentirdes o fardo horr\u00edvel do Tempo que vos\/ abate e voz faz pender para a terra, \u00e9 preciso que vos embriagues\/ sem cessar\u201d, escreveu, no poema <em>Embriagai-vos<\/em>. Mas o poeta fez uma ressalva: \u201dDe vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor\u201d.<\/p>\n<p>Nosso companheiro prefere um conhaque de gengibre. S\u00f3 come\u00e7a a rabiscar os pap\u00e9is depois da segundo dose, sempre acompanhadas de cerveja, o que certamente controla a temperatura e o grau et\u00edlico. Da\u00ed em diante escreve. Para de tempos em tempos, firma o olhar na parede gasta e cheia de an\u00fancios como se procurasse palavra. E escreve.<\/p>\n<p>O \u00e1lcool \u00e9 tema de poesia desde priscas eras. Na <em>Il\u00edada<\/em>, de Homero, Ulisses embriaga Polifemo antes de sua vit\u00f3ria contra o gigante \u2013 e da\u00ed vem a express\u00e3o porre hom\u00e9rico. O beber\u00e3o Falstaf, \u00e9 personagem recorrente de Sheakespeare e Quincas Berro D\u2019\u00e1gua, de Machado, larga a vida certinha para virar o cachaceiro-mor da Bahia.<\/p>\n<p>A m\u00fasica tamb\u00e9m rende suas homenagens aos esp\u00edritos engarrafados. Raul Seixas se indignou com o etanol, em <em>Movido a \u00c1lcool<\/em>: \u201cDerramar cacha\u00e7a em autom\u00f3vel\/ \u00c9 a coisa mais sem gra\u00e7a que eu j\u00e1 ouvi falar\u201d. E filosofou: \u201cVeja, um poeta inspirado em Coca-Cola\/ Que poesia mais estranha ele iria expressar?\u201d.<\/p>\n<p>Maysa foi mais fundo em <em>Demais<\/em>: \u201cTodos acham que eu falo demais\/ E que eu ando bebendo demais\/ Que essa vida agitada n\u00e3o serve pra nada\/ Andar por a\u00ed, bar em bar, bar em bar\u201d.<\/p>\n<p>Depois da sess\u00e3o po\u00e9tica, nosso companheiro amassa os pap\u00e9is e soca no bolso de um invari\u00e1vel casado verde. Vez por outra se digna a nos mostrar um ou dois versos. Hemingway disse que todos os bons escritores bebem; n\u00f3s, no bar, sabemos que os maus escritores tamb\u00e9m bebem.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 2 de junho de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pintor irland\u00eas Francis Bacon dizia que sua mente s\u00f3 funcionava bem para criar quando ele estava de ressaca e, por isso, bebia. 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