{"id":1516,"date":"2023-06-21T12:21:38","date_gmt":"2023-06-21T15:21:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1516"},"modified":"2023-06-21T12:21:38","modified_gmt":"2023-06-21T15:21:38","slug":"alegria-na-musica-triste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/alegria-na-musica-triste\/","title":{"rendered":"Alegria na m\u00fasica triste"},"content":{"rendered":"<p>Amigo estrangeiro, forjado na rebeldia do punk rock, nunca conseguiu entender a tradi\u00e7\u00e3o brasileira de se reunir para tocar e cantar m\u00fasicas tristes. Fica impressionado com a melancolia das letras dos sambas que ouve nas rodas, com a festa formada diante de temas depressivos e at\u00e9 com a acedia das melodias dos chorinhos.<\/p>\n<p>Mal sabe ele que m\u00fasica triste \u00e9 um lenimento para&#8230; a tristeza. \u00c9 que, quando ouvimos m\u00fasica triste, o c\u00e9rebro produz prolactina, horm\u00f4nio que reduz a ang\u00fastia. Ou seja, Amado Batista pode fazer bem \u00e0 sa\u00fade, ainda que doa em ouvidos mais sens\u00edveis.<\/p>\n<p>Pesquisa feita com 772 alem\u00e3es mostrou que can\u00e7\u00f5es tristonhas n\u00e3o apenas animam uma cabe\u00e7a inchada, mas tamb\u00e9m ajudam a lidar melhor com as emo\u00e7\u00f5es a partir das sensa\u00e7\u00f5es de nostalgia, paz, ternura e admira\u00e7\u00e3o provocadas.<\/p>\n<p>Cotovelos sobre a mesa, \u00e0 meia luz, a desilus\u00e3o pode ser amainada pela voz de Jamel\u00e3o: \u201c\u00cata dor de cotovelo dos diabos, que saudade, que vontade de morrer\u201d. Se n\u00e3o sair curado, n\u00e3o tem mais jeito.<\/p>\n<p>Tudo parece ser uma quest\u00e3o de empatia. A desgra\u00e7a do personagem da m\u00fasica serve de consolo para o sofredor da vida real, que encontra um parceiro, ainda que virtual, que o compreenda. Ainda mais se conseguir cantar junto de um cantor como Silvinho: \u201cEssa noite, eu queria que o mundo acabasse, e para o inferno o Senhor me mandasse, para pegar todos os pecados meus. Esta noite eu queria morrer.\u201d<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 um sentimento que s\u00f3 alcan\u00e7a os bregas, at\u00e9 porque gente chique tamb\u00e9m sofre; a diferen\u00e7a \u00e9 que muda a garrafa sobre a mesa \u2013 sai Drury\u2019s, entra Johnny Walker Ultimate. O gelo e as l\u00e1grimas s\u00e3o id\u00eanticos. No alto falante, Maria Creuza debulha versos de Vin\u00edcius: \u201cEu sem voc\u00ea n\u00e3o tenho porque, porque sem voc\u00ea n\u00e3o sei nem chorar\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo com m\u00fasica sem palavras, a sensa\u00e7\u00e3o de conforto aparece. Um tema como a <em>Valsa Triste<\/em>, de Sibelius, que provoca altos e baixos a partir de frases musicais que alternam humores, pode ajudar na hora da fossa. A pesquisa alem\u00e3 mostra que a conex\u00e3o emocional entre ouvinte e m\u00fasica \u00e9 criada mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 condu\u00e7\u00e3o por meio de palavras. Ou seja, o n\u00f3 no peito \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>Outra pesquisa, desta vez norte-americana, escolheu a m\u00fasica mais triste de todos os tempos. Ganhou <em>Everybody Hurts<\/em>, da banda R.E.M. \u201cTodo mundo sofre\u201d, canta Michael Stipe: \u201cQuando o dia \u00e9 longo e a noite \u00e9 s\u00f3 sua, quando voc\u00ea tem certeza de que j\u00e1 se cansou dessa vida; bem, aguente firme\u201d.<\/p>\n<p>Em segundo lugar na tristeza ficou uma can\u00e7\u00e3o de Prince, mais conhecida na voz de Sinead O\u2019Connor, <em>Nothing Compares 2 You<\/em>: \u201cTem sido t\u00e3o solit\u00e1rio sem voc\u00ea aqui, como um p\u00e1ssaro sem can\u00e7\u00e3o, nada pode impedir a queda dessas l\u00e1grimas solit\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>Qual seria a m\u00fasica brasileira mais triste? Uma enquete recente colocou <em>Vento no Litoral<\/em>, da Legi\u00e3o Urbana, na frente. Mas isso s\u00f3 vale para quem nunca ouviu <em>Meu Mundo \u00e9 um Moinho<\/em>, de Cartola, ou <em>Peda\u00e7o de Mim<\/em>, de Chico Buarque.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 9 de junho de 2023<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amigo estrangeiro, forjado na rebeldia do punk rock, nunca conseguiu entender a tradi\u00e7\u00e3o brasileira de se reunir para tocar e cantar m\u00fasicas tristes. Fica impressionado com a melancolia das letras dos sambas que ouve nas rodas, com a festa formada diante de temas depressivos e at\u00e9 com a acedia das melodias dos chorinhos. 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