{"id":1522,"date":"2023-06-26T10:20:05","date_gmt":"2023-06-26T13:20:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1522"},"modified":"2023-06-26T10:20:05","modified_gmt":"2023-06-26T13:20:05","slug":"no-caminho-da-roca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/no-caminho-da-roca\/","title":{"rendered":"No caminho da ro\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Bal\u00e3o n\u00e3o pode mais e isso a gente compreende, at\u00e9 porque nessa \u00e9poca de seca, basta triscar duas bolas de gude que o mato pega fogo. Mas bandeirinha de papel de seda colorido n\u00e3o pode faltar em festa junina, uma tradi\u00e7\u00e3o milenar apropriada pela igreja Cat\u00f3lica de culturas pag\u00e3s que saudavam a chegada do ver\u00e3o do hemisf\u00e9rio norte.<\/p>\n<p>No mais, tudo anda muito diferente. Tem festa junina por toda a cidade, mas algumas s\u00f3 merecem esse nome porque acontecem em junho. A maioria delas aboliu at\u00e9 a fogueira, que sempre foi a marca principal dos arraiais, e essenciais no friozinho das noites brasilienses.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o pode mais soltar fogos. Tem uma lei que pro\u00edbe roj\u00e3o e foguete com barulho para n\u00e3o afetar os sens\u00edveis ouvidos dos cachorros, deixando espa\u00e7o s\u00f3 para aquela profus\u00e3o de cores no c\u00e9u. Compreendo a agonia canina, mas que \u00e9 uma coisa muito da sem-gra\u00e7a \u00e9. \u00c9 a sensa\u00e7\u00e3o de ver cinema mudo hoje. Sem Chaplin e Keaton.<\/p>\n<p>Traque ainda \u00e9 permitido, mas buscap\u00e9 nem sei se fabrica mais porque se algum deles encontrar a canela de um incauto vai ter processo na Justi\u00e7a e choror\u00f4. E cabe\u00e7a-de-negro deve ter sido cancelada, sen\u00e3o pela periculosidade, pelo nome que hoje pode ser considerado politicamente incorreto, embora n\u00e3o se saiba que ra\u00e7a n\u00e3o explode.<\/p>\n<p>Quadrilha ainda tem, mas mudou tamb\u00e9m. Ao inv\u00e9s dos anarri\u00eas, alavant\u00fas e nepadequ\u00e1s, dos gritos de \u2018olha a cobra\u2019 e \u2018olha a chuva\u2019, o neg\u00f3cio virou um bal\u00e9. Os grupos s\u00e3o ensaiados \u00e0 exaust\u00e3o, com piruetas e coreografias sofisticadas, bem distantes daquela desajeitada bagun\u00e7a das velhas quadrilhas, onde entrava quem queria, bastando uma camisa quadriculada, uns remendos na cal\u00e7a e um bigode pintado com rolha queimada. E um chap\u00e9u de palha desfiado.<\/p>\n<p>Tudo tem que mudar. Mesmo tradi\u00e7\u00f5es que atravessam s\u00e9culos s\u00e3o adaptadas, como aconteceu nas comidinhas juninas. O primeiro estranho nesse ninho foi o cachorro quente, inven\u00e7\u00e3o de um alem\u00e3o imigrado para os Estados Unidos que ainda trouxe o ketchup junto e virou at\u00e9 marchinha de carnaval (\u201cVai toda gente ao quarteir\u00e3o\/ Pois h\u00e1 lingui\u00e7a em profus\u00e3o\/ Pra comer com p\u00e3o\u201d, Lamartine Babo e Ary Barroso, 1928). Agora tem de tudo: de churrasquinho a pinh\u00e3o assado, de empadinha a pepino azedo.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 outra. Os arrasta-p\u00e9, vaner\u00f5es e xotes deram lugar \u00e0 mix\u00f3rdia sertaneja e a indig\u00eancia do funk; a sanfona foi substitu\u00edda pelo teclado eletr\u00f4nico, zabumba pelo contrabaixo el\u00e9trico e o tri\u00e2ngulo, coitado, foi tristemente abandonado. O andamento acelerado transforma tudo numa massa que apressa o passo do balanc\u00ea \u2013 ou\u00e7a <em>Sebastiana<\/em>, com Luan Estilizado, para entender; ou, pior, <em>Mete um Block Nele<\/em>, de Jo\u00e3o Gomes.<\/p>\n<p>Pescaria na barraquinha ainda tem, mas pau de sebo ficou no passado, junto com a corrida de saco, cabra cega e carreira de ovo na colher. Tudo isso pode ser saudosismo, at\u00e9 porque as pessoas parecem se divertir tanto quanto antes. Mas que ningu\u00e9m duvide: receber uma mensagem pelo zap n\u00e3o chega perto da emo\u00e7\u00e3o de ser destinat\u00e1rio de um correio elegante pelo alto falante.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 23 de junho de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bal\u00e3o n\u00e3o pode mais e isso a gente compreende, at\u00e9 porque nessa \u00e9poca de seca, basta triscar duas bolas de gude que o mato pega fogo. Mas bandeirinha de papel de seda colorido n\u00e3o pode faltar em festa junina, uma tradi\u00e7\u00e3o milenar apropriada pela igreja Cat\u00f3lica de culturas pag\u00e3s que saudavam a chegada do ver\u00e3o do hemisf\u00e9rio norte. 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