{"id":1525,"date":"2023-06-26T10:23:25","date_gmt":"2023-06-26T13:23:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1525"},"modified":"2023-06-26T10:23:25","modified_gmt":"2023-06-26T13:23:25","slug":"mato-de-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/mato-de-ninguem\/","title":{"rendered":"Mato de ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>O ataque \u00e9 sorrateiro, de baixo para cima; os inimigos n\u00e3o voam nem pulam, mas t\u00eam uma resist\u00eancia extraordin\u00e1ria e se agarram com incr\u00edvel facilidade. \u00c9 uma incurs\u00e3o militar, como se estivessem invadindo uma praia na Normandia. Centenas? Milhares? Uma mir\u00edade, incont\u00e1veis como estrelas e doloridos como espinhos cravados.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso voltar no tempo da narrativa.<\/p>\n<p>Nosso amigo foi aliviar os sobressaltos pol\u00edticos da semana em um passeio pela orla do lago Parano\u00e1, mais precisamente na pen\u00ednsula norte. Livre das cercas residenciais por uma decis\u00e3o judicial, a \u00e1rea virou um matagal \u2013 os propriet\u00e1rios das casas que antes chegavam \u00e0 margem se desiludiram e deixaram o espa\u00e7o ao Deus-dar\u00e1. Defensor do verde, nosso amigo n\u00e3o se assustou.<\/p>\n<p>Ecologistas argumentam que 30 metros de margem \u2013 o chamado Terreno de Marinha, estranhamente aplicado no Parano\u00e1, que n\u00e3o sofre varia\u00e7\u00e3o de mar\u00e9 \u2013 \u00e9 \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ciliar para o espelho d\u2019\u00e1gua. Da\u00ed, a natureza toma conta e o matagal se mistura \u00e0s \u00e1rvores alien\u00edgenas \u2013 jabuticabeiras, pitangueiras e goiabeiras, entre outras \u2013 formando um bioma esdr\u00faxulo.<\/p>\n<p>Depois de alguns ver\u00f5es, o mato vicejou com for\u00e7a; a proximidade com a \u00e1gua faz com que o verde n\u00e3o sinta a temporada seca e o local, \u00e0 falta de foice, enxada e ancinho, ao contr\u00e1rio de virar um lugar para todos, como alegou o pol\u00edtico que tenta faturar com a a\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje, virou terra de ningu\u00e9m. Para ser mais exato, mato de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas o nosso amigo n\u00e3o \u00e9 de se render \u00e0s adversidades. Acostumado ao enfrentamento, pegou o filho e o cachorro em casa, vestiu bermudas e partiu para conhecer a t\u00e3o falada orla livre. A primeira imagem foi a de um bando de capivaras \u2013 eram pelo menos 20 animais \u2013 tomando sol at\u00e9 que o c\u00e3o correu latindo e os roedores mergulharam todos.<\/p>\n<p>Distra\u00eddo, nosso personagem enfiou o p\u00e9 direito num ninho de carrapatos que lhe tomaram a perna com a velocidade de uma fa\u00edsca. Por sorte, conseguiu pegar o filho no colo. Os mi\u00fados carrapatos-estrela, sabe-se, podem ficar meses sem se alimentar, esperando por uma capivara ou por um incauto com pernas de fora para matar a fome.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia muito o que fazer al\u00e9m de voltar pelo mesmo caminho j\u00e1 que as outras sa\u00eddas est\u00e3o fechadas pelo matagal. Deu tempo de xingar o amigo que insistira tanto para que ele fosse caminhar pelo local, o pol\u00edtico respons\u00e1vel pela mataria que tomou o lugar de quintais bem tratados, os ecologistas de araque que atacam quem prop\u00f5e controlar o n\u00famero de capivaras, ainda que um lago artificial n\u00e3o seja habitat natural de nada.<\/p>\n<p>Quando o Parano\u00e1 foi formado certamente desalojou ou afogou tatus peba, talvez um catitu ou queixada que os oper\u00e1rios da Vila Amaury deixaram escapar do churrasco. Mas n\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de capivara na aridez do cerrado. Com a prolifera\u00e7\u00e3o das capivaras, aumentaram os carrapatos; se ainda n\u00e3o transmitem a febre maculosa, j\u00e1 come\u00e7am a matar. Nosso amigo e o filho sobreviveram ao ataque, mas o pobre beagle n\u00e3o teve a mesma sorte. Est\u00e1, como diz\u00edamos para as crian\u00e7as, no c\u00e9u dos cachorros.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 25 de junho de 2023<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ataque \u00e9 sorrateiro, de baixo para cima; os inimigos n\u00e3o voam nem pulam, mas t\u00eam uma resist\u00eancia extraordin\u00e1ria e se agarram com incr\u00edvel facilidade. \u00c9 uma incurs\u00e3o militar, como se estivessem invadindo uma praia na Normandia. Centenas? Milhares? Uma mir\u00edade, incont\u00e1veis como estrelas e doloridos como espinhos cravados. \u00c9 preciso voltar no tempo da narrativa. 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