{"id":1530,"date":"2023-07-03T12:05:50","date_gmt":"2023-07-03T15:05:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1530"},"modified":"2023-07-03T12:05:50","modified_gmt":"2023-07-03T15:05:50","slug":"a-verdade-em-fantasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-verdade-em-fantasia\/","title":{"rendered":"A verdade em fantasia"},"content":{"rendered":"<p>O problema das efem\u00e9rides \u00e9 que, no frigir dos ovos, elas n\u00e3o t\u00eam serventia. \u00c9 assim agora: faz 10 anos que o Correio Braziliense come\u00e7ou a publicar este caderno e, com ele, essas cr\u00f4nicas. Ou mais ou menos isso, s\u00f3 o Chiquinho do arquivo \u00e9 capaz de saber a data certa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de n\u00e3o dar muita pelota para datas e efem\u00e9rides, embora seja interessado leitor de almanaques, sou um desorganizado em tempo integral. Mas foi em junho de 2013 que comecei a escrever neste espa\u00e7o; sobre tudo. Ou principalmente sobre nada.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o mais de mil textos (outras cr\u00f4nicas s\u00e3o publicadas aos domingos). Cerca de 500 mil palavras!<\/p>\n<p>Forjado na objetividade retil\u00ednea da reportagem, j\u00e1 tinha me arriscado na seara dos artigos e at\u00e9 em editoriais. Mas cr\u00f4nica \u00e9 uma mistura bem brasileira, com um pouquinho de cada coisa, que permite at\u00e9 que o assunto at\u00e9 seja&#8230; o cronista, como este caso.<\/p>\n<p>Um rep\u00f3rter n\u00e3o pode ser comparado a um literato. Mas uma ou duas coisas sobre cr\u00f4nicas aprendi nesse tempo de labuta. A principal talvez seja que a reportagem \u00e9 correr atr\u00e1s da not\u00edcia; na cr\u00f4nica acontece o inverso: \u00e9 a not\u00edcia que encontra o autor do texto.<\/p>\n<p>Cr\u00f4nica vem do grego khronos, tempo. \u00c9 narrativa linear, cronol\u00f3gica e ver\u00eddica, sem muito aprofundamento ou interpreta\u00e7\u00e3o, que nem sempre respeita essas regras. Cabe um pouco da fantasia do romance, que d\u00e1 cores mais n\u00edtidas a determinadas passagens, da mesma forma que poetas fazem em alguns versos.<\/p>\n<p>Machado de Assis \u2013 ele pr\u00f3prio autor de cr\u00f4nicas \u2013 comparou cronistas a fofoqueiros. Disse que o g\u00eanero surgiu coet\u00e2neo com as duas primeiras vizinhas, que debicavam sucessos do dia. E pode se acrescentar: enquanto falavam de uma terceira vizinha. O que diria o chamado bruxo do Cosme Velho se conhecesse esses influenciadores da internet&#8230;<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica mudou. N\u00e3o est\u00e1 mais presa aos fatos do dia a dia, como nos prim\u00f3rdios; virou quase um vale tudo: \u00e9 real, mas permite licen\u00e7as, mistura jornalismo com literatura e raramente ultrapassa a fronteira delimitada pela data do jornal. \u00c9 um retratinho 3&#215;4 do momento, morre cedo e embrulha peixe. O cronista \u00e9 tamb\u00e9m um fingidor.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da reportagem, a cr\u00f4nica \u2013 assim como o artigo \u2013 permite o uso da primeira pessoa \u2013 e traz, portanto, uma vis\u00e3o intransfer\u00edvel de um fato. O cronista tem direito de enxergar uma girafa onde outras pessoas s\u00f3 veem um cachorro.<\/p>\n<p>\u00c9 enganosamente simples. A boa cr\u00f4nica parece ter sido escrita num \u00fanico f\u00f4lego, narrada como um \u2018causo\u2019; raramente \u00e9 assim. H\u00e1 um jogo de racioc\u00ednio, uma criteriosa escolha de temas, ainda que sejam ambientados num \u00fanico lugar. E \u00e9 preciso alguma sofistica\u00e7\u00e3o de linguagem, para que ela seja a mais simples poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica deve ser um o\u00e1sis na aridez do notici\u00e1rio; uma pausa \u2013 um gracejo ou um momento de reflex\u00e3o. Um cronista pode chegar ao c\u00famulo de usar os quase extintos pontos de exclama\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe quanto tempo as cr\u00f4nicas v\u00e3o sobreviver num mundo que se comunica de pio em pio, como se fosse um galinheiro. Mas at\u00e9 que um cometa volte a atropelar o planeta, vai ter coisa para contar.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 23 de junho de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O problema das efem\u00e9rides \u00e9 que, no frigir dos ovos, elas n\u00e3o t\u00eam serventia. \u00c9 assim agora: faz 10 anos que o Correio Braziliense come\u00e7ou a publicar este caderno e, com ele, essas cr\u00f4nicas. 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