{"id":1534,"date":"2023-07-03T12:15:13","date_gmt":"2023-07-03T15:15:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1534"},"modified":"2023-07-03T12:15:13","modified_gmt":"2023-07-03T15:15:13","slug":"assedio-poetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/assedio-poetico\/","title":{"rendered":"Ass\u00e9dio po\u00e9tico"},"content":{"rendered":"<p>Hoje em dia \u00e9 preciso estar atento para n\u00e3o ser acusado de ass\u00e9dio. Um assovio fora de hora pode ser confundido com uma cantada indecente, um olhar mais insinuante pode causar dor de cabe\u00e7a em cibalena, uma ordem no trabalho pode levar \u00e0 delegacia, quem sabe, ao xilindr\u00f3. S\u00e3o dias perigosos. Mas a alma rom\u00e2ntica vence qualquer barreira, at\u00e9 as legais.<\/p>\n<p>Waldir \u00e9 desses homens que experimentaram a vida; fez de tudo um pouco. Potiguar, traz o sal nas veias. Tem fama de valente \u2013 que, como se diz no Nordeste, n\u00e3o se desmente. Escreveu livros, se arrisca em bons e refinados contos, \u00e9 competente revisor de obras alheias; foi jogador de futebol, andou pela boemia carioca, mas acima de tudo \u00e9 um rom\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Viperinos dizem que j\u00e1 passou da flor da idade, mas certamente n\u00e3o perdeu o charme insinuante com as mo\u00e7as. Elegante e bem-humorado, conversa macio, tem sempre um assunto interessante na ponta da l\u00edngua e \u00e9 daqueles que faz da interlocutora a pessoa mais importante do planeta durante a conversa.<\/p>\n<p>N\u00e3o bebe nada al\u00e9m de um suco, mas vai ao bar quase todas as noites, depois de passar o dia flanando pela cidade, cortejando mocinhas (que mal h\u00e1?), distribuindo encanto.<\/p>\n<p>Ultimamente tem recebido a aten\u00e7\u00e3o de uma cuidadora. Um perigo, raciocinaram os amigos. A mo\u00e7a se desdobra nos paliativos, anteparos e dedica\u00e7\u00e3o, enquanto Waldir desenvolve argumentos, fazendo a mo\u00e7a cativa da boa e respeitosa l\u00e1bia. Mas n\u00e3o basta. A alma rom\u00e2ntica falou mais alto e ele, mesmo sob o risco de uma acusa\u00e7\u00e3o por ass\u00e9dio po\u00e9tico, escreveu:<\/p>\n<p><em>Levado nas \u00e1guas por sob a ponte<\/em><\/p>\n<p><em>Da vida de ontem da vida de agora<\/em><\/p>\n<p><em>O outono mais uma vez vai embora<\/em><\/p>\n<p><em>Dissipando brumas no horizonte,<\/em><\/p>\n<p><em>Reverberando raios do passado.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Amanda eu amei antes de conhec\u00ea-la<\/em><\/p>\n<p><em>Naquela noite de chuva impertinente<\/em><\/p>\n<p><em>O ch\u00e3o chafurdado o c\u00e9u sem estrela <\/em><\/p>\n<p><em>O futuro por tudo onipresente<\/em><\/p>\n<p><em>Nas rimas do poema original.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ao longo do longo itiner\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p><em>O poema j\u00e1 estava pronto,<\/em><\/p>\n<p><em>Faltava-lhe o nome <strong>Amor Outonal<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O poema foi mostrado pelo pr\u00f3prio Waldir aos amigos, uma esp\u00e9cie de confiss\u00e3o da contraven\u00e7\u00e3o. Houve prop\u00f3sito, mas ningu\u00e9m pode acus\u00e1-lo de dolo. S\u00e3o palavras de admira\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de agradecimento; insinuantes, mas sem vol\u00fapia; vibrantes, mas ainda assim ternas.<\/p>\n<p>Havia profissionais de muitas \u00e1reas no local, nenhum juiz de direito, sequer um delegado de pol\u00edcia. Ficamos sem saber se estava tipificado o ass\u00e9dio po\u00e9tico. As almas mais sens\u00edveis elogiaram, houve ressabiados, certamente com inveja da ousadia e da categoria do poema. Advogados acreditavam que, no m\u00ednimo, cabe defesa, incluindo infinitos recursos.<\/p>\n<p>Poetas devem ter licen\u00e7a para dizer o que querem, a quem quiserem. Mas vates n\u00e3o s\u00e3o santos. Castro Alves foi acusado de ser xexeiro, Dante Alighiere foi condenado e banido por corrup\u00e7\u00e3o, Greg\u00f3rio de Matos foi apontado como blasfemo, Pablo Neruda confessou ter estuprado uma mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas roubar cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 crime. E eu s\u00f3 sei que agora as mo\u00e7as e senhoras que frequentam o bar tamb\u00e9m querem cuidar do Waldir, na esperan\u00e7a de tamb\u00e9m ganharem um poema.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 25 de junho de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje em dia \u00e9 preciso estar atento para n\u00e3o ser acusado de ass\u00e9dio. Um assovio fora de hora pode ser confundido com uma cantada indecente, um olhar mais insinuante pode causar dor de cabe\u00e7a em cibalena, uma ordem no trabalho pode levar \u00e0 delegacia, quem sabe, ao xilindr\u00f3. S\u00e3o dias perigosos. 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