{"id":1561,"date":"2023-07-30T15:19:58","date_gmt":"2023-07-30T18:19:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1561"},"modified":"2023-07-30T15:19:58","modified_gmt":"2023-07-30T18:19:58","slug":"pandemia-de-infelicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/pandemia-de-infelicidade\/","title":{"rendered":"Pandemia de infelicidade"},"content":{"rendered":"<p>Quem frequenta redes sociais, especialmente as mais dedicadas a filmes e fotos, pode achar que est\u00e1 tudo bem. Mas aquelas fotos com largos sorrisos, v\u00eddeos com dancinhas, brindes e celebra\u00e7\u00f5es, frases espirituosas e otimistas podem estar escondendo melancolias.<\/p>\n<p>O mundo nunca foi t\u00e3o infeliz. E quem diz isso s\u00e3o os frequentadores deste planeta, o terceiro do nosso sistema solar, que mais do que nunca assume o epiteto b\u00edblico de vale de l\u00e1grimas, tamb\u00e9m presente \u2013 embora escape a muita gente \u2013 na ora\u00e7\u00e3o Salve Rainha.<\/p>\n<p>Levantamento feito pelo instituto Gallup em 142 pa\u00edses mediu o \u00edndice de Experi\u00eancia Negativa, que \u00e9 o nome bacaninha para definir, somadas, as sensa\u00e7\u00f5es de raiva, frustra\u00e7\u00e3o, tristeza, estresse e dor f\u00edsica das pessoas \u2013 infelicidade, enfim. O resultado \u00e9 ruim, mostra que o fen\u00f4meno \u00e9 global, uma pandemia.<\/p>\n<p>O \u00edndice \u00e9 medido a partir de cinco perguntas, todas referentes ao dia anterior: 1, sentiu-se descansado? 2, foi tratado com respeito? 3, riu ou sorriu? 4, aprendeu algo ou fez alguma coisa de interessante?, e 5, aproveitou o dia?<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 o pior desde que o levantamento come\u00e7ou a ser feito, em 2006, embora os infelizes se mantenham num mesmo patamar. Se servir de consolo, os latino americanos \u2013 ao lado dos habitantes do sudeste asi\u00e1tico \u2013 lideram as respostas positivas. Mas n\u00f3s, brasileiros, estamos menos felizes que mexicanos e paraguaios.<\/p>\n<p>Os antigos gregos traduziam felicidade de forma sucinta: boa sorte. Tales de Mileto, s\u00e1bio romano e sete s\u00e9culos antes de Cristo, desenvolveu a defini\u00e7\u00e3o \u2013 para ele, feliz \u00e9 \u201cquem tem corpo s\u00e3o e forte, boa sorte e alma bem formada\u201d. Plat\u00e3o disse que a felicidade nasce da ventura e da justi\u00e7a na alma.<\/p>\n<p>A filosofia parou de discutir a felicidade quando Kant deixou de lado a quest\u00e3o \u00e9tica e colocou o sentimento na seara do desejo e do prazer. Em compensa\u00e7\u00e3o, ser feliz passou ser um direito do homem, conforme foi escrito na Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m a \u00f3tica iluminista que se manifesta na certeza da Funda\u00e7\u00e3o Mundial da Felicidade \u2013 sim, h\u00e1 uma! \u2013 ao sustentar que \u00e9 poss\u00edvel treinar para ser feliz. E oferece princ\u00edpios: comer bem, dormir, rodear-se de gente positiva, n\u00e3o valorizar o passado, respirar, contemplar, meditar, conviver com a natureza.<\/p>\n<p>Bertrand Russel retomou a discuss\u00e3o com <em>A Conquista da Felicidade<\/em> e defende basicamente que ela depende de uma conviv\u00eancia harm\u00f4nica, algo como dizer que ningu\u00e9m \u00e9 feliz sozinho. Talvez por isso \u00e9 que est\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O ser humano tem uma tend\u00eancia para o drama que vem sendo amplificada na comunica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica. \u00c9 uma exposi\u00e7\u00e3o de car\u00eancia que ajuda a angariar empatia e simpatia, mas que acaba por afundar a todos neste c\u00edrculo de infelicidade.<\/p>\n<p>Fiz minha pr\u00f3pria enquete e perguntei ao Chico, que guarda carros na frente de um restaurante na Asa Norte. \u201cVoc\u00ea \u00e9 feliz?\u201d. A resposta veio r\u00e1pida: \u201cTem hora\u201d. Usei a t\u00e9cnica do Gallup: \u201cVoc\u00ea foi feliz ontem?\u201d A\u00ed o Chico elaborou um pouco mais: \u201cClaro. Se eu estou vivo hoje \u00e9 porque eu fui feliz ontem\u201d. Simples assim.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 30 de julho de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem frequenta redes sociais, especialmente as mais dedicadas a filmes e fotos, pode achar que est\u00e1 tudo bem. Mas aquelas fotos com largos sorrisos, v\u00eddeos com dancinhas, brindes e celebra\u00e7\u00f5es, frases espirituosas e otimistas podem estar escondendo melancolias. O mundo nunca foi t\u00e3o infeliz. 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