{"id":1585,"date":"2023-08-14T16:41:14","date_gmt":"2023-08-14T19:41:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1585"},"modified":"2023-08-14T16:41:14","modified_gmt":"2023-08-14T19:41:14","slug":"espionagem-importada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/espionagem-importada\/","title":{"rendered":"Espionagem importada"},"content":{"rendered":"<p>Alfarrabistas s\u00e3o pessoas que sabem das coisas. Com a cabe\u00e7a enfiada em livros em tempo integral, eles acompanham as mudan\u00e7as de um modo mais lento, mas certamente mais seguro; tamb\u00e9m enxergam o passado com olhos curiosos de quem n\u00e3o se descuida do futuro. \u00c9 mexendo na papelada que Jorge Brito faz suas descobertas.<\/p>\n<p>Jorge ainda tem uma loja de compra e venda de livros usados \u2013 um sebo \u2013 na Asa Norte. J\u00e1 colocou as m\u00e3os em bibliotecas preciosas e ainda chora quando v\u00ea um livro avariado. Hoje, vive de pequenas descobertas e grandes tesouros, incluindo pe\u00e7as que revelam parte da vida nacional, cap\u00edtulos que ningu\u00e9m prestou aten\u00e7\u00e3o, mas nada irrelevantes.<\/p>\n<p>Sua mais recente incurs\u00e3o pelo misterioso mundo dos livros revela uma cole\u00e7\u00e3o curiosa: livros publicados pelo SNI que ensinam como os espi\u00f5es brasileiros da \u00e9poca da repress\u00e3o deviam se comportar \u2013 todos importados. S\u00e3o verdadeiros manuais, traduzidos, quase todos, pelo coronel \u00c1lvaro Galv\u00e3o, nome que Jorge j\u00e1 viu em outras publica\u00e7\u00f5es da Biblioteca do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>S\u00e3o publica\u00e7\u00f5es quase clandestinas, como conv\u00e9m a essa turma. A pr\u00f3pria diagrama\u00e7\u00e3o entrega o jogo, ao usar os tipos de uma m\u00e1quina de escrever ordin\u00e1ria para criar as p\u00e1ginas, como se fossem aqueles livrinhos rodados em mime\u00f3grafos e com cheiro de \u00e1lcool. Como se v\u00ea, s\u00e3o coisas ultrapassadas. Hoje seria quase um desafio encontrar uma m\u00e1quina de escrever; mais ainda um mime\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Antes do texto anunciado pelo t\u00edtulo dos op\u00fasculos, aparece uma advert\u00eancia. \u201cEsta publica\u00e7\u00e3o se destina ao uso interno do SISTEMA NACIONAL DE INFORMA\u00c7\u00d5ES e n\u00e3o constitui endosso oficial aos pontos de vista, opini\u00f5es ou fatos nela expressos\u201d. Ou seja: publicaram, pro\u00edbem divulgar, mas n\u00e3o quer dizer que concordam. T\u00edpica t\u00e1tica diversionista, como ensinam os livros de John Le Carr\u00e9, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Os livros obtidos por Jorge Brito t\u00eam t\u00edtulos curiosos: <em>O Verdadeiro Mundo do Espi\u00e3o, O Sistema de Agentes Duplos, Espi\u00f5es na Terra Prometida, KGB \u2013 O trabalho Sigilosos dos Agentes Secretos Sovi\u00e9ticos, A Arte das Informa\u00e7\u00f5es <\/em>e<em>&#8230; Sexpionagem<\/em>.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo, de David Lewis, sustenta que \u201cprostitui\u00e7\u00e3o e espionagem s\u00e3o duas das mais antigas profiss\u00f5es; figuram tamb\u00e9m entre as atividades mais secretas da humanidade, capazes de gerar profundas influ\u00eancias subrrept\u00edcias\u201d. E cita a b\u00edblica Dalila como a primeira espi\u00e3 sexual.<\/p>\n<p>Talvez essa bibliografia explique porque na maioria dos documentos do SNI liberado ao p\u00fablico as den\u00fancias come\u00e7avam com \u201cconsta que&#8230;\u201d \u2013 ou seja: eram fuxicos, n\u00e3o informa\u00e7\u00e3o. Os livros s\u00e3o de origem norte-americana e inglesa, narram fatos passado em outras terras, m\u00e9todos pouco ortodoxos para conseguir acesso a segredos e disfar\u00e7ados conselhos ao leitor.<\/p>\n<p>\u00c9 de se supor que eram distribu\u00eddos entre espi\u00f5es brasileiros, sen\u00e3o teriam sido incinerados (em cinco segundos) como as mensagens dos agentes da U.N.C.L.E. e muito menos teriam chegado \u00e0s m\u00e3os do nosso alfarrabista Jorge, este um aut\u00eantico 007.<\/p>\n<p>Pelo jeito, nossos espi\u00f5es secretos n\u00e3o s\u00e3o mais misteriosos que os agentes lusos que, diz a lenda, tiveram seus nomes publicados no Di\u00e1rio Oficial. A espionagem brasileira parece com as indiscri\u00e7\u00f5es das fofoqueiras de bairro, que ficam sabendo segredos de todos e quando n\u00e3o sabem inventam. Eles podiam ser cru\u00e9is, mas eram mais parecidos com candinhas.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 11 de agosto de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfarrabistas s\u00e3o pessoas que sabem das coisas. Com a cabe\u00e7a enfiada em livros em tempo integral, eles acompanham as mudan\u00e7as de um modo mais lento, mas certamente mais seguro; tamb\u00e9m enxergam o passado com olhos curiosos de quem n\u00e3o se descuida do futuro. \u00c9 mexendo na papelada que Jorge Brito faz suas descobertas. 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