{"id":1604,"date":"2023-08-29T15:57:35","date_gmt":"2023-08-29T18:57:35","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1604"},"modified":"2023-08-29T15:57:35","modified_gmt":"2023-08-29T18:57:35","slug":"mentiras-sem-fantasia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/mentiras-sem-fantasia-2\/","title":{"rendered":"Mentiras sem fantasia"},"content":{"rendered":"<h4>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Um dos primeiros livros que me recordo de ganhar, ainda de cal\u00e7as curtas e trope\u00e7ando nas s\u00edlabas, era uma colet\u00e2nea de contos de fantasia. Entre seres mitol\u00f3gicos e g\u00eanios de garrafa, lembro claramente de um dos personagens dessas f\u00e1bulas: o bar\u00e3o de M\u00fcnchausen. E n\u00e3o apenas pelo nome que, ainda mais com trema, eu n\u00e3o conseguia pronunciar.<\/h4>\n<h4>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Era tido como o maior mentiroso do mundo. O que eu n\u00e3o sabia na \u00e9poca \u00e9 que o bar\u00e3o era um personagem real, aristocrata alem\u00e3o, que dizia ter vivido as mais absurdas aventuras em situa\u00e7\u00f5es em que a realidade se escorava em epis\u00f3dios flagrantemente fantasiosos \u2013 foi um precursor da tal realidade aumentada, hoje t\u00e3o comum no mundo virtual.<\/h4>\n<h4>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0O que me encantava n\u00e3o era a mentira, mas a engenhosidade do uso do imposs\u00edvel para concluir as narrativas, como na vez em que, preso num banco de areia movedi\u00e7a, afundando inapelavelmente, teve a ideia salvadora: puxou os pr\u00f3prios cabelos e venceu a gravidade. E como estava montado, i\u00e7ou tamb\u00e9m o cavalo.<\/h4>\n<h4>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O verdadeiro (\u00e9 sempre uma temeridade usar o adjetivo em rela\u00e7\u00e3o a ele) bar\u00e3o de M\u00fcnchausen se chamou Karl Friedrich, viveu de 1720 a 1797, lutou com as tropas russas contra os otomanos, mas revelou-se mesmo um grande contador de hist\u00f3rias. Os casos foram publicados pela primeira vez por Rudolph Erich Raspe, ainda com o bar\u00e3o vivo \u2013 nas livrarias brasileiras se acha uma bela edi\u00e7\u00e3o, com gravuras de Gustave Dor\u00e9.<\/h4>\n<h4>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O personagem das hist\u00f3rias era sempre o pr\u00f3prio bar\u00e3o. Foi ele quem voou com aux\u00edlio de patos, foi arremessado montado numa bala de canh\u00e3o, subiu at\u00e9 a Lua usando uma corda de apenas dois metros s\u00f3 para buscar a machadinha que ele pr\u00f3prio havia arremessado. As hist\u00f3rias s\u00e3o narradas com a gra\u00e7a do absurdo e transformaram o bar\u00e3o num rei da mentira \u2013 ou do exagero.<\/h4>\n<h4>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A disputa n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, principalmente na literatura: desde Pen\u00e9lope que, na Odiss\u00e9ia, tece uma intermin\u00e1vel colcha para enrolar seus pretendentes enquanto espera pela volta de Ulisses, ao Pin\u00f3quio, bonequinho de pau que ganhou vida para contar lorotas reunidas em livro, por Carlo Collodi, e nos filmes, por Disney.<\/h4>\n<h4>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cinema, personagens como Eve, de All About Eve (A Malvada), interpretada por Anne Baxter, o protagonista de O Grande Gatsby (Robert Redford) ou Brad Allen (Rock Hudson) em Confid\u00eancias \u00e0 Meia-Noite fizeram hist\u00f3ria. Na TV tivemos Don Draper (Jon Hamm), o publicit\u00e1rio de Mad Man, e Volpone (Nei Latorraca) da novela Um Sonho a Mais.<\/h4>\n<h4>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Na vida real os mentirosos n\u00e3o s\u00e3o menos inventivos. H\u00e1 o caso de Frank Abagnale, fals\u00e1rio que teve suas aventuras narradas no filme Prenda-me se for capaz e o brasileiro Marcelo Nascimento, golpista que chegou ao cinema em Vips \u2013 Hist\u00f3rias reais de um mentiroso.<\/h4>\n<h4>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Mas o bar\u00e3o de M\u00fcnchausen enfrenta uma concorr\u00eancia opressiva, desleal, entre os pol\u00edticos. Conhecidos por lorotas desde que a profiss\u00e3o come\u00e7ou na Gr\u00e9cia antiga, est\u00e3o se esmerando. No hemisf\u00e9rio norte, na \u00c1sia, no Brasil. A diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 fantasia nas desculpas esfarrapadas, amea\u00e7as vazias, justificativas v\u00e3s e acusa\u00e7\u00f5es \u00e0 granel. \u00c9 s\u00f3 um desfile de cinismo, desfa\u00e7atez e despudor \u2013 de todo lado.<\/h4>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 25 de agosto de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Um dos primeiros livros que me recordo de ganhar, ainda de cal\u00e7as curtas e trope\u00e7ando nas s\u00edlabas, era uma colet\u00e2nea de contos de fantasia. Entre seres mitol\u00f3gicos e g\u00eanios de garrafa, lembro claramente de um dos personagens dessas f\u00e1bulas: o bar\u00e3o de M\u00fcnchausen. 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