{"id":1608,"date":"2023-08-29T16:01:56","date_gmt":"2023-08-29T19:01:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1608"},"modified":"2023-08-29T16:01:56","modified_gmt":"2023-08-29T19:01:56","slug":"pela-derrota-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/pela-derrota-do-tempo\/","title":{"rendered":"Pela derrota do tempo"},"content":{"rendered":"<p>A \u00fanica maneira segura de mexer com o passado \u00e9 o \u00e1lbum de fotos. Descobri alguns dias atr\u00e1s que, ao contr\u00e1rio do que acreditava, o passado muda, sim, e que o tempo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderoso quanto se pensa. Por acaso encontrei um amigo de inf\u00e2ncia; os dois, a pelo menos 1.500 quil\u00f4metros da cidade em que nos conhecemos.<\/p>\n<p>Foi um encontro \u00e0 moda antiga, fortuito, sem interven\u00e7\u00e3o de nenhuma rede social, na cal\u00e7ada em frente a um shopping, entre as asas do Plano Piloto. Destino ou serendipidade, v\u00ednhamos em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u2013 eu distra\u00eddo como sempre \u2013, quando ouvi meu nome.<\/p>\n<p>De in\u00edcio n\u00e3o o reconheci, mas ele come\u00e7ou a puxar a rede de neur\u00f4nios cheia de furos do meu c\u00e9rebro e reconstruiu lembran\u00e7as que estavam em algum canto cheio de teias de aranha. O comich\u00e3o provocado pelas mem\u00f3rias, no entanto, revelou que o meu passado \u2013 embora fosse o mesmo \u2013 n\u00e3o era igual ao dele.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos de um DeLorian, o carro do filme <em>De Volta ao Futuro<\/em>, para dar uma espiada nos dias idos, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma viagem estranha, cheia de cenas distorcidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a menor ideia de como funciona o hipocampo, mas no meu caso a sele\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 guardado no c\u00f3rtex e subc\u00f3rtex do c\u00e9rebro n\u00e3o obedece a uma l\u00f3gica que eu compreenda, porque lembro muito bem de coisas absolutamente irrelevantes enquanto outras \u2013 talvez mais importantes \u2013 ficam perdidas.<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria e tempo s\u00e3o antag\u00f4nicos. As lembran\u00e7as s\u00e3o selecionadas, claro; mais do que isso, distorcidas. Mas \u00e9 assim que sentimos as emo\u00e7\u00f5es, formamos o car\u00e1ter e temperamos a vida.<\/p>\n<p>Um encontro casual \u2013 separado por tantos anos \u2013 provoca sensa\u00e7\u00f5es que pareciam esquecidas; quase deu vontade de chamar meu amigo para bater um bafo de figurinha.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho v\u00ea-lo com rugas e cabelos brancos enquanto eu parecia estar ali de cal\u00e7\u00e3o e com uma atiradeira de galho de goiabeira nas m\u00e3os \u2013 o espelho nos trai diariamente mostrando uma imagem que n\u00e3o corresponde ao nosso esp\u00edrito; \u00e9 reconfortador descobrir que isso n\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o crescemos juntos; antes mesmo da adolesc\u00eancia eu e meu amigo j\u00e1 viv\u00edamos em cidades distantes. N\u00e3o trocamos cartas, telegramas, telefonemas \u2013 nenhuma dessas coisas que nem existem mais, mas a mem\u00f3ria n\u00e3o deixou que o tempo nos vencesse.<\/p>\n<p>E tudo o que a gente lembrava eram as brincadeiras, a escola, os bolos que a gente comia na casa de um ou do outro, todas as tardes. E dos outros amigos.<\/p>\n<p>De repente, a vida assume um novo significado, como se as d\u00e9cadas de intervalo n\u00e3o existissem, numa emp\u00edrica mas eficiente comprova\u00e7\u00e3o de que o conceito espa\u00e7o-tempo de Einstein \u00e9 incontest\u00e1vel, mesmo sem f\u00f3rmula.<\/p>\n<p>Amigos desafiam o tempo, esse deus invenc\u00edvel. Um por todos, todos por um, gritavam os mosqueteiros de Dumas. N\u00e3o importam os anos transcorridos, n\u00e3o importa o lapso que nos separa e que at\u00e9 se esfor\u00e7a para que a mem\u00f3ria os apague, a for\u00e7a da amizade \u00e9 maior.<\/p>\n<p>J\u00e1 marcamos um novo encontro. Acho que vou levar umas bolinhas de gude, umas carambolas. O nosso objetivo \u00e9 derrotar o tempo.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 27 de agosto de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00fanica maneira segura de mexer com o passado \u00e9 o \u00e1lbum de fotos. Descobri alguns dias atr\u00e1s que, ao contr\u00e1rio do que acreditava, o passado muda, sim, e que o tempo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderoso quanto se pensa. Por acaso encontrei um amigo de inf\u00e2ncia; os dois, a pelo menos 1.500 quil\u00f4metros da cidade em que nos conhecemos. 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