{"id":1615,"date":"2023-09-11T14:47:33","date_gmt":"2023-09-11T17:47:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1615"},"modified":"2023-09-11T14:47:33","modified_gmt":"2023-09-11T17:47:33","slug":"na-ponta-dos-dedos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/na-ponta-dos-dedos\/","title":{"rendered":"Na ponta dos dedos"},"content":{"rendered":"<p>A mocinha estava visivelmente desconfort\u00e1vel no restaurante. Olhava para os lados, encurvava os ombros, abaixava a cabe\u00e7a e encolhia as m\u00e3os, como quem fosse dar um soco, mas com os punhos virados para dentro. Recusou uma mesa mais central e fomos todos para um canto, meio escondidos por pilastras.<\/p>\n<p>Era uma reuni\u00e3o de trabalho, um almo\u00e7o sem \u00e1lcool, com pratos executivos que seriam pouco apreciados, porque com assunto s\u00e9rio na mesa n\u00e3o h\u00e1 culin\u00e1ria que resista. No batente, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o prazer. Mas claramente havia alguma coisa perturbando a mo\u00e7a, que continuava inquieta, at\u00e9 que um mais afoito perguntou: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 bem? Parece incomodada&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A mo\u00e7a corou \u2013 ainda n\u00e3o chegou aos 40 anos, mas \u00e9 daquelas pessoas que ainda se constrangem \u2013 e depois de alguns segundos de hesita\u00e7\u00e3o respondeu que eram as unhas. S\u00f3 havia outra mulher na mesa; a \u00fanica que conseguiu entender a extens\u00e3o do problema. E as duas concordaram que o assunto era grave.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a das m\u00e3os encolhidas revelou sua ang\u00fastia: estava trabalhando tanto que h\u00e1 duas semanas n\u00e3o ia \u00e0 manicure; e o esmalte come\u00e7ou a quebrar nas pontas. Falou com tanto sentimento que nos arrependemos de t\u00ea-la chamado para aquele almo\u00e7o-reuni\u00e3o, embora os homens n\u00e3o tenham intelig\u00eancia e sensibilidade suficientes para dar import\u00e2ncia ao motivo da apreens\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos homens que fazem as unhas regularmente; alguns v\u00e3o apenas para tirar a cut\u00edcula, outros precisam aparar as pontas para evitar que encravem e at\u00e9 quem passe uma base que deixa as pontas dos dedos luzindo como \u00e1rvores de natal fora de \u00e9poca.<\/p>\n<p>Para os homens, a unha tem um sentido mais pragm\u00e1tico: violonistas costumam deixar as \u00fangulas de uma das m\u00e3os para melhorar o dedilhado, jogadores de sinuca deixam a unha do dedo mindinho maior que as outras (e n\u00e3o tenho a menor ideia do porqu\u00ea) e golpistas deixam os gadanhos dos polegares maiores para camuflar a bolinha no jogo de esconde, de onde tirar dinheiro dos ot\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas as mulheres t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o mais l\u00fadica com as unhas. T\u00e3o estreita que s\u00f3 elas sabem a diferen\u00e7a entre uma cor e outra, at\u00e9 porque nunca se soube que \u2018chinelo de pano\u2019 estava no arco-\u00edris ou na paleta de alguma aquarelista, mas aparece no r\u00f3tulo de esmalte como caracter\u00edstica. Tem tamb\u00e9m o \u2018Minnie lacinho de po\u00e1\u2019, que certamente faz men\u00e7\u00e3o \u00e0 rata namorada do Mickey, o \u2018beijo\u2019, \u2018chita bonita\u2019, recado e \u2018meiga e decidida\u2019 \u2013 nenhuma dessas \u201ccores\u201d est\u00e1 no arco-\u00edris.<\/p>\n<p>Azar de quem foi criado na limita\u00e7\u00e3o dos l\u00e1pis para colorir, ainda que fossem aqueles estojos caprichados da Faber-Castell de 24 cores \u2013 e olha que hoje h\u00e1 cole\u00e7\u00f5es com 120 tonalidades. Mas certamente n\u00e3o h\u00e1 ali um l\u00e1pis da cor \u2018Minnie sou toda ouvidos\u2019, \u2018vendaval\u2019 ou \u2018guerreira pregui\u00e7osa\u2019, todas presentes nas melhores manicures.<\/p>\n<p>Ai dos obtusos f\u00edsicos e gr\u00e1ficos que acreditam que o mundo \u00e9 formado por apenas tr\u00eas cores \u2013 amarelo, azul e magenta \u2013 e suas misturas. Certamente precisam prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3os femininas, onde as cores se multiplicam e, talvez por isso, causem tanta dor de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 3 de setembro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mocinha estava visivelmente desconfort\u00e1vel no restaurante. Olhava para os lados, encurvava os ombros, abaixava a cabe\u00e7a e encolhia as m\u00e3os, como quem fosse dar um soco, mas com os punhos virados para dentro. Recusou uma mesa mais central e fomos todos para um canto, meio escondidos por pilastras. 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