{"id":1618,"date":"2023-09-11T14:59:37","date_gmt":"2023-09-11T17:59:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1618"},"modified":"2023-09-11T14:59:37","modified_gmt":"2023-09-11T17:59:37","slug":"a-vida-como-ela-nao-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-vida-como-ela-nao-e\/","title":{"rendered":"A vida como ela (n\u00e3o) \u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Deu no jornal: o brasileiro est\u00e1 vivendo a vida real apenas tr\u00eas dias por semana. Como n\u00e3o sou estat\u00edstico nem nada, tomei a iniciativa de inverter o resultado de pesquisa feita por uma empresa de seguran\u00e7a digital \u2013 o dado originalmente divulgado \u00e9 que nossos compatriotas passam, em m\u00e9dia, 91 horas por semana conectados na internet.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: o futuro chegou e fomos transformados em nossos pr\u00f3prios avatares, bonequinhos vivendo uma vida on\u00edrica embora a paisagem seja de pesadelo \u2013 e o pior \u00e9 que nesse jogo a gente n\u00e3o sabe o que fazer para pular de fase.<\/p>\n<p>Mas a conta \u00e9 simples. Se a expectativa de vida do brasileiro \u00e9 hoje de quase 76 anos, nesse passo as pessoas est\u00e3o vivendo 41 anos ligadas em aparelhos. Mas como desligar o tubo? E este \u00e9 um problema brasileiro: em pa\u00edses mais desenvolvidos a m\u00e9dia de uso da internet cai pela metade. E n\u00e3o consta que eles sejam mais atrasados que n\u00f3s.<\/p>\n<p>O dado pode estarrecer, mas n\u00e3o \u00e9 surpresa para ningu\u00e9m da minoria que insiste em viver a vida como ela \u00e9, observando o que se passa ao lado e vendo casais jantando juntos de corpo presente e mente ausente, com uma garrafa de vinho \u00e0 mesa, mas sem conversar, vidrados na telinha dos celulares.<\/p>\n<p>Mesmo em encontros de amigos no bar, normalmente uma algazarra, h\u00e1 comensais que pouco participam da conversa porque, ironia, est\u00e3o conversando com outras pessoas, bem mais distantes, via telefone celular.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 do conhecimento geral, mas nos bares tamb\u00e9m temos especialistas para qualquer ocasi\u00e3o e, posto o assunto na mesa, logo houve uma manifesta\u00e7\u00e3o. Nesta tarde-noite foi o Luiz Gustavo, que se formou em psicologia, mas como passou no concurso para trabalhar num banco, nunca exerceu a profiss\u00e3o \u2013 s\u00f3 que n\u00e3o esqueceu as li\u00e7\u00f5es dos bancos escolares (\u00e9 o que pelo menos n\u00f3s, leigos, acreditamos).<\/p>\n<p>E foi ele quem ofereceu uma tese, meio improvisada, sem maior aprofundamento, para o fen\u00f4meno: o desejo de ser m\u00e9dico; ou melhor, ser Deus, o que \u00e9 quase a mesma coisa. O sujeito quer onipresen\u00e7a, onisci\u00eancia e outros \u2018oni\u2019, prefixo que exprime a no\u00e7\u00e3o de tudo, todos (todes tamb\u00e9m), numa necessidade de estar em todos \u2013 ou pelo menos em v\u00e1rios \u2013 lugares ao mesmo tempo, sem poder perder nada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m discutiu. Era uma te\u00f3rica que beirava a seriedade e n\u00e3o est\u00e1vamos ali para isso. Mas pode ser pior: o Brasil vive hoje uma crise de sa\u00fade mental. Cerca de 70 milh\u00f5es de pessoas sofrem com algum tipo de transtorno, 11% delas \u2013 quase oito milh\u00f5es \u2013 t\u00eam sintomas depressivos. \u00a0\u00c9 um pa\u00eds ansioso, oposto \u00e0 imagem vendida de felicidade.<\/p>\n<p>S\u00e3o dados oficiais, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria, que desmontam mais de 500 anos de hist\u00f3ria de que somos um povo despreocupado, sempre a espera do carnaval e de um feriado esticado. O brasileiro \u00e9 hoje um agoniado, cheio de rugas, que n\u00e3o enxerga um horizonte tranquilo.<\/p>\n<p>No bar tamb\u00e9m temos fil\u00f3sofos pr\u00e1ticos, algo como prot\u00e9ticos do comportamento humano. E foi o Mauri\u00e7\u00e3o quem vaticinou: isso \u00e9 coisa de quem n\u00e3o tem o que fazer. \u201cPreocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa de quem n\u00e3o tem ocupa\u00e7\u00e3o\u201d. Me limitei a pedir mais uma dose.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 8 de setembro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deu no jornal: o brasileiro est\u00e1 vivendo a vida real apenas tr\u00eas dias por semana. Como n\u00e3o sou estat\u00edstico nem nada, tomei a iniciativa de inverter o resultado de pesquisa feita por uma empresa de seguran\u00e7a digital \u2013 o dado originalmente divulgado \u00e9 que nossos compatriotas passam, em m\u00e9dia, 91 horas por semana conectados na internet. 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