{"id":1621,"date":"2023-09-11T16:05:30","date_gmt":"2023-09-11T19:05:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1621"},"modified":"2023-09-11T16:08:25","modified_gmt":"2023-09-11T19:08:25","slug":"entre-o-mito-e-o-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/entre-o-mito-e-o-homem\/","title":{"rendered":"Entre o mito e o homem"},"content":{"rendered":"<p>O escritor brit\u00e2nico George Orwell sabia muito sobre animais, mas muito mais sobre os homens. Usou de f\u00e1bula para falar de igualdade social e liberdade em <em>A Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos<\/em>, de fic\u00e7\u00e3o dist\u00f3pica para mostrar o autoritarismo oficial em <em>1984<\/em> e de viv\u00eancia pessoal para criar <em>Na Pior em Paris e Londres<\/em>, ainda hoje uma das mais radicais experi\u00eancias liter\u00e1rias.<\/p>\n<p>S\u00e3o relatos feitos entre 150 e 400 p\u00e1ginas, mas Orwell, sob o pseud\u00f4nimo de Eric Arthur Blair, reuniu todo o seu sarcasmo e sabedoria numa simples frase de um artigo: \u201ca hist\u00f3ria \u00e9 escrita pelos vencedores\u201d. Faltou dizer que os vencedores de hoje podem ser os derrotados de amanh\u00e3 e, da\u00ed, a hist\u00f3ria vai sendo reescrita.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 a hist\u00f3ria do Brasil, por s\u00e9culos contada a partir dos relatos oficiais de Francisco Adolfo de Varnhagen, o visconde de Porto Seguro, que em 1854 publicou o primeiro dos dois volumes de <em>Hist\u00f3ria Geral do Brazil<\/em>. S\u00e3o dois calhama\u00e7os de mais de 500 p\u00e1ginas cada, em que o esfor\u00e7o do autor para se manter imparcial sucumbe a cada p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Calcado em documentos oficiais, \u00e9 uma hist\u00f3ria contada a partir dos gabinetes e que reflete a vontade de quem mandava, al\u00e9m de preconceitos expostos em opini\u00f5es pessoais \u2013 notadamente de ra\u00e7a \u2013 que fazem da caudalosa obra uma ode sobre si mesma. Capistrano de Abreu foi preciso ao determinar a personalidade do Visconde: \u201csens\u00edvel ao vitup\u00e9rio como ao louvor\u201d \u2013 um orgulhoso.<\/p>\n<p>Da obra ainda se aproveitam trechos de documentos e cita\u00e7\u00f5es de personalidades, mas a hist\u00f3ria em si vem sendo toda reescrita, at\u00e9 por irreverentes \u2013 e pouco precisos \u2013 programas exibidos no YouTube.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Bras\u00edlia, acompanhada de perto por testemunhas que ainda est\u00e3o entre n\u00f3s tamb\u00e9m vem sofrendo revis\u00f5es peri\u00f3dicas. Mesmo com registros di\u00e1rios da epopeia da constru\u00e7\u00e3o da capital no meio do ermo \u00e9 eivada de lendas, muitas criadas pelo jornalismo rom\u00e2ntico que tinha a necessidade de criar her\u00f3is.<\/p>\n<p>Um desses homens foi Bernardo Say\u00e3o, engenheiro que teve a tarefa de transformar os desenhos criados nas pranchetas em realidade. Se contava que ele mesmo pegava no cabo do fac\u00e3o mateiro para abrir picadas no cerrado, chamava os pe\u00f5es pelo nome, era comparado a um H\u00e9rcules pela for\u00e7a e entusiasmo; um homem a quem era imposs\u00edvel dizer n\u00e3o.<\/p>\n<p>A morte de Say\u00e3o, vitimado por um galho ca\u00eddo de uma enorme \u00e1rvore, foi cercada de misticismo desde a primeira not\u00edcia. Ele n\u00e3o era invulner\u00e1vel? Quis o destino que o corpo de Say\u00e3o fosse o primeiro a ser sepultado no Campo da Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria desse homem, se n\u00e3o recontada, est\u00e1 sendo esmiu\u00e7ada em um livro diferente, sens\u00edvel e amoroso. <em>Caminhos, Afetos, Cidades<\/em> (edi\u00e7\u00e3o do autor) abra\u00e7a o primeiro mito criado por Bras\u00edlia a partir do relato de S\u00e9rgio de S\u00e1, neto do engenheiro, professor da UnB, jornalista.<\/p>\n<p>S\u00e1 n\u00e3o conheceu Say\u00e3o, morto 11 anos antes dele nascer, mas cresceu ouvindo hist\u00f3rias sobre o superav\u00f4. O personagem, as hist\u00f3rias, corroboradas por intensa pesquisa e m\u00e9todo fazem uma leitura cativante e envolvente, que elevam o homem sem matar o mito.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria que precisava ser (re)contada. N\u00e3o \u00e9 o caso de outras tentativas de (re)escrita.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 10 de setembro de 2023<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor brit\u00e2nico George Orwell sabia muito sobre animais, mas muito mais sobre os homens. Usou de f\u00e1bula para falar de igualdade social e liberdade em A Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos, de fic\u00e7\u00e3o dist\u00f3pica para mostrar o autoritarismo oficial em 1984 e de viv\u00eancia pessoal para criar Na Pior em Paris e Londres, ainda hoje uma das mais radicais experi\u00eancias liter\u00e1rias. 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