{"id":1632,"date":"2023-09-26T15:32:56","date_gmt":"2023-09-26T18:32:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1632"},"modified":"2023-09-26T15:32:56","modified_gmt":"2023-09-26T18:32:56","slug":"pinga-para-poucos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/pinga-para-poucos\/","title":{"rendered":"Pinga para poucos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi-se o tempo que chamar algu\u00e9m de cachaceiro era ofensa. Com o pre\u00e7o cobrado pela \u2018marvada\u2019 atualmente, \u00e9 preciso vestir roupa de ir na missa e andar com um seguran\u00e7a ao lado para provar da calibrina. N\u00e3o \u00e9 para qualquer bolso \u2013 e o pingu\u00e7o ganhou status de connoisseur.<\/p>\n<p>Um amigo viu uma garrafa de Weber Haus na prateleira atr\u00e1s do balc\u00e3o e ousou pedir uma dose; o cheiro ocupou as narinas, o sabor despertou as papilas, o l\u00edquido desceu maciamente pelo es\u00f4fago at\u00e9 abrigar-se no est\u00f4mago. Depois de alguns segundos foi liberado um vapor morno que fez o caminho de volta.<\/p>\n<p>Seria uma bebida a prova de ressaca n\u00e3o fosse o pre\u00e7o pago pela dose: R$ 90,00. Quase custou um ataque card\u00edaco ao meu amigo, que j\u00e1 comprou garrafa de u\u00edsque escoc\u00eas por menos. E olha que essas v\u00eam de bem mais longe.<\/p>\n<p>Ainda s\u00e3o muitas as chamadas cacha\u00e7as populares, engasga-gatos, produzidas sem maiores cuidados, sem distin\u00e7\u00e3o na hora do corte da cabe\u00e7a e do rabo. Essas ainda s\u00e3o vendidas, como se dizia, \u201ca dinheiro de pinga\u201d, bagatela. Mas deveriam ser motivo de revolta popular.<\/p>\n<p>O Brasil, ali\u00e1s, j\u00e1 brigou pelo direito de produzir e beber o chamado suor-de-cana. Foi em 1659, quando os portugueses \u2013 preocupados com a queda do com\u00e9rcio da bagaceira, destilado feito do baga\u00e7o pisado da uva \u2013 mandaram destruir os alambiques.<\/p>\n<p>E deu-se a Revolta da Cacha\u00e7a, epis\u00f3dio que deveria, mas n\u00e3o \u00e9, ser estudado nos bancos escolares, ao lado da Sabinada, Farroupilhas, Balaiada, Canudos e outros levantes populares, provavelmente por causa do preconceito. Onde j\u00e1 se viu um pa\u00eds brigar por causa de pinga?<\/p>\n<p>Mas o neg\u00f3cio foi s\u00e9rio, houve pris\u00f5es e at\u00e9 o enforcamento de Jer\u00f4nimo Barbalho, que iniciou o movimento entre os senhores de engenho, revoltado com as taxas impostas pela coroa.<\/p>\n<p>A venda e consumo de cacha\u00e7a no Brasil ficou proibida at\u00e9 1695, mas, desde esse tempo, dava-se um jeitinho. Quem queria, bebia, at\u00e9 porque o maior contrabandista do produto era o pr\u00f3prio governador do Rio, Jo\u00e3o da Silva e Souza.<\/p>\n<p>Hoje existe uma esp\u00e9cie de gentrifica\u00e7\u00e3o da pinga. Cabe esclarecer que gentrifica\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele fen\u00f4meno urbano que vai empurrando as fam\u00edlias mais humildes cada vez mais para longe por causa da valoriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis de determinada regi\u00e3o. Com a cacha\u00e7a, quem n\u00e3o tem dinheiro se satisfaz com um sabor menos requintado, algumas vezes perigoso, mas o porre \u00e9 igual.<\/p>\n<p>Est\u00e1 tudo diferente. Se antes a cacha\u00e7a era acompanhada de chori\u00e7o e torresmo, agora est\u00e1 sendo degustada at\u00e9 com queijos finos \u2013 talvez para compensar o investimento de at\u00e9 R$ 3 mil numa \u00fanica garrafa.<\/p>\n<p>A Havana, celebrada como a melhor aguardente por anos \u2013 mesmo quando foi obrigada a adotar o nome do fundador An\u00edsio Santiago \u2013 continua sendo vendida em vasilhame de cerveja (600 ml) mas n\u00e3o sai por menos de R$ 650,00. Mas hoje ela tem muitos concorrentes, pelo menos em pre\u00e7o.<\/p>\n<p>At\u00e9 pinga feita em Bras\u00edlia cobra o pre\u00e7o. A Remedim, do Lago Norte, custa entre R$ 60,00 e R$ 150,00, dependendo da alambicada e armazenamento. Mas na hora do aperto tem sempre uma 51, a R$ 15,00. Melhor que uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 22 de setembro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Foi-se o tempo que chamar algu\u00e9m de cachaceiro era ofensa. 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