{"id":1648,"date":"2023-10-13T14:56:02","date_gmt":"2023-10-13T17:56:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1648"},"modified":"2023-10-13T14:56:02","modified_gmt":"2023-10-13T17:56:02","slug":"entre-chatos-e-lunaticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/entre-chatos-e-lunaticos\/","title":{"rendered":"Entre chatos e lun\u00e1ticos"},"content":{"rendered":"<p>Era um falso louco como Hamlet, mas estava mais para buf\u00e3o do que para pr\u00edncipe. Andava pelos bares da cidade recitando poemas \u00e9picos inteiros, caprichando na entona\u00e7\u00e3o e a plenos pulm\u00f5es. Preferia ir ao velho Beirute onde os frequentadores reagiam, normalmente com apupos \u2013 sim, era um tempo em que se apupava ao vivo e n\u00e3o escondido em rede social \u2013 desde a entrada em cena.<\/p>\n<p>\u201c<em>&#8216;Stamos em pleno mar&#8230; Doudo no espa\u00e7o, brinca o luar \u2014 dourada borboleta<\/em>\u201d \u2013 gritava ele, caprichando nas inflex\u00f5es para ressaltar o car\u00e1ter parnasiano e dar ritmo ao poema. Ainda assim dava pena de Castro Alves, que se esmerara para dar sentido, cad\u00eancia e emo\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras. Impressionante era a mem\u00f3ria do pretenso aedo.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia era coalhada de gente assim. Pessoas a procura de uma identidade, em busca de reconhecimento, tentando se encaixar em alguma alcateia, embora n\u00e3o fossem mais que carneiros. Deslocados, chatos, sem no\u00e7\u00e3o, tinham pouco a oferecer, mas se expunham. N\u00e3o eram lun\u00e1ticos, mas queriam ser reconhecidos como tais.<\/p>\n<p>Andam sumidos; volta e meia um candidato aparece, mais discretamente. Dias atr\u00e1s, encontrei um deles \u2013 ali\u00e1s, s\u00e3o eles que nos encontram. Tentava se passar por maluco beleza, mas seguindo a teoria de meu av\u00f4 Jo\u00e3o, s\u00f3 acredito que o sujeito \u00e9 doido quando rasga dinheiro. Este, ao contr\u00e1rio, tentava coletar algum para tomar uma cerveja \u2013 e a\u00ed eu cometi um erro: paguei-lhe uma Antarctica.<\/p>\n<p>Tenho esse problema. Gosto de esticar assunto com completos desconhecidos em botequins. No interior \u00e9 mais barato: com vinte e cinco centavos de pinga no copo, encontra-se muito mais que amigos.Viram escudeiros e, se preciso, morrem por voc\u00ea \u2013 ainda mais se houver outras doses. E desfiam uma quantidade enorme de causos, um mais mentiroso que o outro. H\u00e1 h\u00e1 os que cantam, declamam, entret\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas quem eu encontrei n\u00e3o era um personagem interessante. Era s\u00f3 um chato. Tentou me convencer que tinha poderes sobrenaturais, quase um Paulo Coelho, que no in\u00edcio da carreira de cascateiro dizia fazer chover. Depois, parece, desaprendeu.<\/p>\n<p>Enfim, o meu chato disse ter viajado o mundo para encontrar palavras m\u00e1gicas que levam \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o pessoal, \u00e0 felicidade absoluta. Eu comentei que seria muito \u00fatil para esse pessoal que subiu rampas sem rede de prote\u00e7\u00e3o, mas ele n\u00e3o gostou do chiste. Na qualidade de chato, insistiu; a busca n\u00e3o terminou, faria uma nova viagem, uma caminhada ainda mais longa. O resto n\u00e3o ouvi, at\u00e9 porque achei que a cerveja estava saindo muito cara.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que est\u00e1 dif\u00edcil esbarrar com chatos interessantes, como os dos velhos tempos; eram rom\u00e2nticos, n\u00e3o buscavam nada al\u00e9m de uma companhia e um pouco de aten\u00e7\u00e3o, despejando perdigotos na orelha dos incautos \u2013 a veem\u00eancia faz com que falem cuspindo e agarrando a v\u00edtima pelas mangas.<\/p>\n<p>Nesta hora, a melhor sa\u00edda \u00e9 o telefone celular. Basta pux\u00e1-lo do bolso, apertar um bot\u00e3o imagin\u00e1rio, pedir licen\u00e7a e dizer: &#8211; al\u00f4? Todo chato recua. E \u00e9 a\u00ed que, saindo de fininho, falando com ningu\u00e9m, voc\u00ea sai da cena e encontra a pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o. A conta fica pendurada.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 8 de outubro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um falso louco como Hamlet, mas estava mais para buf\u00e3o do que para pr\u00edncipe. Andava pelos bares da cidade recitando poemas \u00e9picos inteiros, caprichando na entona\u00e7\u00e3o e a plenos pulm\u00f5es. 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