{"id":1654,"date":"2023-10-23T14:11:41","date_gmt":"2023-10-23T17:11:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1654"},"modified":"2023-10-23T14:11:41","modified_gmt":"2023-10-23T17:11:41","slug":"pelos-cotovelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/pelos-cotovelos\/","title":{"rendered":"Pelos cotovelos"},"content":{"rendered":"<p>Nunca vi ningu\u00e9m chorando fazer \u201csnif, snif\u201d, tossindo com \u201ccof, cof\u201d ou dormindo e ressonando um \u201czzzz\u201d. E muito menos ouvi um \u201ccrash\u201d quando se imitava o ru\u00eddo de um acidente. Era tudo coisa de gibi, onomatopeias \u2013 algumas delas resultado da pregui\u00e7a dos tradutores \u2013 que aparecem em tirinhas e HQs.<\/p>\n<p>Mas conheci o \u201cI\u201d. N\u00e3o est\u00e1 errado; \u00e9 a pronuncia da terceira vogal mesmo. \u00c9 tamb\u00e9m o apelido do sujeito que n\u00e3o chama Iolando nem Ilson, poss\u00edvel corruptela de Wilson.<\/p>\n<p>O \u201dI\u201d dele, nos disse, vem do ingl\u00eas \u201ceasy\u201d, que pode ser f\u00e1cil, mas tamb\u00e9m tranquilo, calmo. \u00c9 um sujeito peculiar e quando fala, como nos quadrinhos, praticamente d\u00e1 para ver os bal\u00f5es saindo da boca.<\/p>\n<p>Toda frase \u00e9 interrompida por um efeito sonoro para aumentar a intensidade da a\u00e7\u00e3o ou suavizar uma afirma\u00e7\u00e3o \u2013 \u201ce a\u00ed \u2013 psshh \u2013 tudo ficou calmo\u201d, concluiu um caso felizmente curto. As onomatopeias s\u00e3o acompanhadas de gestos largos, como se estivesse no palco de teatro kabuki, naquela m\u00edmica exagerada.<\/p>\n<p>No in\u00edcio \u00e9 interessante, mas depois da segunda dose cansa. \u00c9 como ouvir uma novela no r\u00e1dio com sonoplasta ruim, que n\u00e3o acerta o ru\u00eddo correto e n\u00e3o prende a aten\u00e7\u00e3o como faz um bom contador de causos que, a partir de uma hist\u00f3ria min\u00fascula, desenvolve uma narrativa longa, recheada de humor e suspense.<\/p>\n<p>Mas os gestos chamavam a aten\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o eram usuais. A gente sabe que dependendo da cultura um gesto pode agradar ou provocar uma briga.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, o punho fechado com o indicador e o m\u00ednimo levantados \u00e9 cumprimento dos f\u00e3s do rock heavy metal por lembrar, dizem, a silhueta do tinhoso. Na It\u00e1lia \u00e9 ofensa grave \u2013 \u00e9 chamar o outro de chifrudo, e neste caso sem cheiro de enxofre.<\/p>\n<p>Quando os norte-americanos unem o polegar e o indicador e esticam os outros dedos querem dizer que est\u00e1 tudo bem, OK. No Brasil, o significado \u00e9 bem outro e impublic\u00e1vel, pelo menos num jornal de respeito. Para os japoneses \u00e9 s\u00edmbolo para dinheiro.<\/p>\n<p>Os brasileiros costumavam apertar o l\u00f3bulo para elogiar alguma coisa. Os mais expl\u00edcitos acrescentavam \u201cda pontinha da orelha\u201d, para deixar claro a sensa\u00e7\u00e3o de agrado. Na It\u00e1lia \u2013 o que h\u00e1 com esse pessoal da bota? \u2013 \u00e9 o mesmo que chamar o outro de homossexual.<\/p>\n<p>Mesmo gestos meio universalizados comportam exce\u00e7\u00f5es. Quando se movimenta a cabe\u00e7a de um lado para outro em quase todo mundo \u00e9 interpretado como negativa. Mas na Gr\u00e9cia e Bulg\u00e1ria \u00e9 para dizer sim.<\/p>\n<p>Mas o nosso personagem, \u201cI\u201d, n\u00e3o tinha preocupa\u00e7\u00e3o de ser mal interpretado e literalmente falava pelos cotovelos, honrando a origem latina da express\u00e3o, atribu\u00edda ao dramaturgo Quintus Horatius e que nasceu da observa\u00e7\u00e3o de pessoas que abrem os bra\u00e7os e cutucam os outros enquanto falam. E \u201cI\u201d cutucava, n\u00e3o apenas com o cotovelo, mas tamb\u00e9m com a ponta dos dedos, procurando atrair a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cear\u00e1, respons\u00e1vel pela introdu\u00e7\u00e3o do personagem na mesa do bar, anunciou que ia embora. Foi quando Mauri\u00e7\u00e3o abandonou a fleugma e disse: \u201cPode ir. Mas n\u00e3o esquece o pacote. Visshhhh! Pow! Puf!\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 13 de outubro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca vi ningu\u00e9m chorando fazer \u201csnif, snif\u201d, tossindo com \u201ccof, cof\u201d ou dormindo e ressonando um \u201czzzz\u201d. E muito menos ouvi um \u201ccrash\u201d quando se imitava o ru\u00eddo de um acidente. Era tudo coisa de gibi, onomatopeias \u2013 algumas delas resultado da pregui\u00e7a dos tradutores \u2013 que aparecem em tirinhas e HQs. Mas conheci o \u201cI\u201d. 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