{"id":1688,"date":"2023-11-21T16:45:23","date_gmt":"2023-11-21T19:45:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1688"},"modified":"2023-11-21T16:45:23","modified_gmt":"2023-11-21T19:45:23","slug":"o-ultimo-seresteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-ultimo-seresteiro\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo seresteiro"},"content":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m pegar um viol\u00e3o, come\u00e7ar a tocar e cantar sob uma janela hoje em dia \u2013 por mais afinado e talentoso que seja \u2013 corre o risco de levar tiro. N\u00e3o apenas pela viol\u00eancia que grassa, mas principalmente pelo mau gosto musical que o Brasil cultivou do sert\u00e3o aos morros urbanos. Mas nem sempre foi assim; houve tempo em que seresteiros eram cultuados.<\/p>\n<p>E Bras\u00edlia foi criada sob o ritmo da seresta. Nos primeiros anos, o presidente Juscelino Kubistchek trouxe v\u00e1rios m\u00fasicos para animar as noites frias e cheias de estrela do Catetinho, um antidoto contra a calmaria que antecedia os fren\u00e9ticos dias de obras.<\/p>\n<p>Havia a bossa nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, convidados a criar a <em>Sinfonia da Alvorada<\/em> e que se inspiraram no regato do pal\u00e1cio de t\u00e1buas para compor <em>\u00c1gua de Beber<\/em>. Mas era a seresta que dava o tom.<\/p>\n<p>Estrelas do r\u00e1dio como Silvio Caldas e Dilermando Reis \u2013 este tamb\u00e9m professor de viol\u00e3o de JK e quem apelidou a constru\u00e7\u00e3o de Catetinho, alus\u00e3o do Pal\u00e1cio do Catete, sede do governo no Rio de Janeiro \u2013 embalaram muitas serestas e a tradi\u00e7\u00e3o se seguiu por anos na capital, com artistas se apresentando nas casas noturnas, aliviando as dores de amor ou embalando amores clandestinos.<\/p>\n<p>O tempo passou, a m\u00fasica mudou, artistas se transformaram em servidores p\u00fablicos, mas sempre houve quem mantivesse viva a chama dos primeiros dias. Josemir Barbosa foi talvez o \u00faltimo desses artistas de voz poderosa e interpreta\u00e7\u00e3o emocionada de can\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis. Ele morreu no \u00faltimo dia 6.<\/p>\n<p>Josemir cantou para JK quando atuava no Rio, mas fez um imenso s\u00e9quito de admiradores em Bras\u00edlia, especialmente no Glauco\u2019s, bar da 208 sul, esp\u00e9cie de bunker dos antigos cantores do r\u00e1dio. Veio a convite de Waleska, que ganhou de Vinicius de Moraes o t\u00edtulo de Rainha da Fossa, para cantar por duas noites. Se encantou pela cidade e nunca mais saiu.<\/p>\n<p>Fez temporadas nos restaurantes Mouraria, Antigamente e o do Bristol Hotel, onde cantava em \u201cdias de frequentador profissional\u201d, \u00e0s ter\u00e7as e quartas. O repert\u00f3rio era vasto, recolhendo can\u00e7\u00f5es registradas por Dick Farney, Nelson Gon\u00e7alves e Tito Madi, entre outros, como se fosse uma miss\u00e3o para manter vivos os standards da seresta. <em>Ch\u00e3o de Estrelas, Pensando em Ti, Negue, Meus Tempos de Crian\u00e7a<\/em> eram can\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias em suas apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pernambucano de Garanhuns, Josemir gravou v\u00e1rios discos, hoje raros, por exig\u00eancia dos f\u00e3s, que esgotavam as tiragens \u2013 apenas um deles, <em>Uma Noite na Fossa (1968)<\/em>, parceria com Waleska, pode ser ouvido nas plataformas de streaming. Segundo a insuspeita opini\u00e3o de Silvio Caldas e S\u00e9rgio Bittencourt (autor de <em>Modinha<\/em> e <em>Naquela<\/em> <em>Mesa<\/em>), Josemir Barbosa era \u201co \u00faltimo seresteiro do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Estavam certos. N\u00e3o se ouve mais vozes como essas, can\u00e7\u00f5es com letras sens\u00edveis e melodias que privilegiam a beleza que deu origem \u00e0 arte. S\u00e3o tempos de ruptura. Com a dec\u00eancia, com o belo, palavra, atitude. Para ouvir algu\u00e9m cantando Bo\u00eamio, de Ataulfo Alves (\u201ca boemia resume, no vinho, o amor e o ci\u00fame, perfume, desilus\u00e3o\u201d), s\u00f3 achando uma m\u00e1quina do tempo.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 17 de novembro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m pegar um viol\u00e3o, come\u00e7ar a tocar e cantar sob uma janela hoje em dia \u2013 por mais afinado e talentoso que seja \u2013 corre o risco de levar tiro. N\u00e3o apenas pela viol\u00eancia que grassa, mas principalmente pelo mau gosto musical que o Brasil cultivou do sert\u00e3o aos morros urbanos. 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