{"id":1712,"date":"2023-12-11T13:28:58","date_gmt":"2023-12-11T16:28:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1712"},"modified":"2023-12-11T13:36:27","modified_gmt":"2023-12-11T16:36:27","slug":"palavras-que-se-renovam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/palavras-que-se-renovam\/","title":{"rendered":"Palavras que se renovam"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 s\u00f3 reparar: ningu\u00e9m mais fala em p\u00f3s-verdade. O termo surgiu por volta de 2015, portanto h\u00e1 menos de uma d\u00e9cada, tomou conta do mundo como uma forma mais filos\u00f3fica para quem queria contar uma mentira bem cabeluda, e j\u00e1 caducou. O povo continua mentindo, mas quem apostou que a p\u00f3s-verdade iria pautar o comportamento geral deu com os burros n\u2019\u00e1gua, tamb\u00e9m express\u00e3o que caducou.<\/p>\n<p>Nada \u00e9 para sempre. As coisas est\u00e3o cada vez mais ef\u00eameras e a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o parece ser a voz de Paul McCartney, inoxid\u00e1vel, como ele demonstrou ao cantar rock por mais de duas horas e meia, com a empolga\u00e7\u00e3o de um garoto octogen\u00e1rio. E sem beber \u00e1gua, nem fazer xixi.<\/p>\n<p>Mas as palavras duram cada vez menos. Que ningu\u00e9m mais se surpreenda gritando homessa \u00e9 compreens\u00edvel, o termo usa polainas e pincen\u00ea desde o ber\u00e7o, nasceu velho. Tamb\u00e9m n\u00e3o se espera que algu\u00e9m use botica ao se referir a uma farm\u00e1cia, ou nosoc\u00f4mio no lugar de hospital.<\/p>\n<p>O jeito de falar muda, provocado por neologismos, estrangeirismos ou influ\u00eancias da moda, mas algumas palavras fazem falta ao nosso vocabul\u00e1rio: \u00e9 muito mais eficaz chamar um sujeito de sacripanta do que de mau-car\u00e1ter, melhor acusar de patego do que simpl\u00f3rio, se bem que pac\u00f3vio \u00e9 bom tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Alguns verbos ficaram ultrapassados pelo \u00f3bvio motivo que o ato que representam ficaram para tr\u00e1s. Caso de brunir, que \u00e9 engomar a ferro um tecido at\u00e9 torn\u00e1-lo lustroso, o que ningu\u00e9m mais faz. E h\u00e1 termos que, sabe-se l\u00e1 porque, mudaram de sentido. Pachorra, por exemplo, descrevia uma paci\u00eancia sem fim; passou a ser quase desaforo.<\/p>\n<p>Palavras foram esquecidas tamb\u00e9m pelo absurdo. Quem mais quer falar, como nos anos 1950, escaganifob\u00e9tico ao inv\u00e9s de estranho ou esquisito? Assim como \u00e9 melhor discutir do que porfiar, e se encolher de frio do que ficar entanguido.<\/p>\n<p>Outras foram condenadas pelo preconceito intr\u00ednseco: sostra, por exemplo, serve para definir uma mulher suja e pregui\u00e7osa, nunca um homem. E sostro n\u00e3o existe. O pior \u00e9 que h\u00e1 mais de um adjetivo para as sujas e pregui\u00e7osas: jontra. E cagalhota que, com cacofonia e tudo, denominava mulher (nunca um homem) baixa e de pesco\u00e7o curto.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, muitos outros termos foram agregados ao nosso cotidiano, como os oriundos da inform\u00e1tica (deletar, googlar), das g\u00edrias (debo\u00edsmo, que vem de \u201cde boa\u201d) e at\u00e9 da pandemia (telemedicina, home office). Palavras novas confundem a cabe\u00e7a de alguns, principalmente os sofoman\u00edacos \u2013 aqueles metidos a saber tudo.<\/p>\n<p>\u00c1lvio \u00e9 assim. O nome incomum parece inspirar nosso amigo a exercitar a palavra dif\u00edcil, ainda que empregada de forma errada. Vira e mexe ele recebe algu\u00e9m com a p\u00e9rola: \u201c\u00c9 um bala\u00fastre da nossa cidade\u201d. Ningu\u00e9m o corrige para dizer que bala\u00fastre \u00e9 uma coluna de cerca. Ou: \u201cL\u00e1 vem ele com seu ar mendacioso\u201d, crente que \u00e9 um elogio chamar algu\u00e9m de mentiroso.<\/p>\n<p>Cear\u00e1 ensinou a ele uma palavra nova \u2013 f\u00f3smeo \u2013, como sin\u00f4nimo de feliz. Se fosse ao dicion\u00e1rio, \u00c1lvio saberia que \u00e9 uma homenagem a ele pr\u00f3prio. \u00c9 o mesmo que confuso, incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Publicado no Correio Braziliense em 6 de dezembro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 s\u00f3 reparar: ningu\u00e9m mais fala em p\u00f3s-verdade. 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