{"id":1716,"date":"2023-12-11T13:33:34","date_gmt":"2023-12-11T16:33:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1716"},"modified":"2023-12-11T13:33:34","modified_gmt":"2023-12-11T16:33:34","slug":"um-vento-engracado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-vento-engracado\/","title":{"rendered":"Um vento engra\u00e7ado"},"content":{"rendered":"<p>Muitas vezes ele sai em sil\u00eancio, mas ainda assim o pum faz barulho. A flatul\u00eancia \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o digestiva normal e democr\u00e1tica \u2013 reis e s\u00faditos soltam bufas \u2013 mas provoca a imagina\u00e7\u00e3o popular, quase sempre seguida de risos, desde tempos imemoriais. Porque ningu\u00e9m sabe, mas dos casos e piadas, vieram livros.<\/p>\n<p>O primeiro, <em>De Flatibus<\/em>, de 1582, escrito pelo m\u00e9dico Jean Fyens, seguido por <em>De Peditu<\/em>, do erudito alem\u00e3o Gaspard Dornau, de 1628, e pelo mais escatol\u00f3gico de todos, de 1751, <em>A Arte de Peidar<\/em>, atribu\u00eddo a Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaud.<\/p>\n<p>Antes que algu\u00e9m levante suspeitas fedorentas, quero dizer que n\u00e3o sou especialista em gases. Nem os nobres, muito menos os plebeus. Mas andando pelos corredores da Feira do Livro, plantada num estranho e feioso barraco na Esplanada nos Minist\u00e9rios, fui atra\u00eddo por um estande que expunha cord\u00e9is.<\/p>\n<p>E eis que no meio daquelas mi\u00fadas e mal impressas publica\u00e7\u00f5es havia praticamente uma sess\u00e3o dedicada aos traques: \u201cO ABC do Peido\u201d, \u201cO Peido que Acabou com um Casamento\u201d, \u201cO Que o Peido pode Fazer\u201d, \u201cO Prazer que o Peido D\u00e1\u201d, \u201cAntologia do Peido\u201d, \u201cAs Consequ\u00eancia do Peido\u201d, \u201cO Que o Peido Pode Fazer\u201d, e muito outros t\u00edtulos, de diversos autores e proced\u00eancias.<\/p>\n<p>Fico pensando que tipo de inspira\u00e7\u00e3o bate na cabe\u00e7a dos cordelistas para caprichar nas rimas e nos casos, mas certamente o p\u00fablico quer saber mais sobre o fute. Por qu\u00ea? Qual a gra\u00e7a de uma ventosidade, barulhenta ou n\u00e3o, que cheira mal e causa desconforto em quem produz e em quem recebe?<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo, o cronista Danilo Gomes me enviou um exemplar de <em>A Arte de Peidar<\/em>, que se apresenta assim: \u201cEnsaio te\u00f3rico-f\u00edsico e met\u00f3dico para o uso das pessoas constipadas, das pessoas graves e austeras, das senhoras melanc\u00f3licas e de todos que insistem em permanecer escravos do preconceito\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 um op\u00fasculo que faria sucesso se adotado para discuss\u00e3o na quinta s\u00e9rie do primeiro grau; tido como cl\u00e1ssico da literatura c\u00f4mica e pseudo-m\u00e9dica, o texto come\u00e7a mostrando as diferen\u00e7as entre pum e arroto \u2013 mas n\u00e3o explica porque um \u00e9 considerado t\u00e3o engra\u00e7ado enquanto o outro, tamb\u00e9m dif\u00edcil de segurar, \u00e9 tido como falta de educa\u00e7\u00e3o mesmo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a afirma\u00e7\u00e3o que s\u00e3o 62 os tipos de sons musicais que acompanham a lufada \u2013 incluindo o plenivocal-pleno, que seria o tom mais alto. No final, o autor relaciona tipos de ventosidades que seriam agrad\u00e1veis, uma sucess\u00e3o escatol\u00f3gica que nos leva aos cord\u00e9is nordestinos que elegem o cheiroso como tema e que tamb\u00e9m costuma mostrar as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio persiste. \u00c9 uma esp\u00e9cie universal de piada, que causa frouxos (epa!) de riso em quem solta e em quem est\u00e1 pr\u00f3ximo mas, afinal, qual \u00e9 a gra\u00e7a?<\/p>\n<p>Em 2008 tentaram acabar com a farra. Os jornais publicaram a not\u00edcia de que uma empresa da Calif\u00f3rnia estava lan\u00e7ando um filtro para neutralizar o odor da flatul\u00eancia a partir de carv\u00e3o ativado e que deveria ser instalado na cueca. Uma embalagem com cinco filtros custaria US$ 9,95, mais ou menos uns R$ 50,00.<\/p>\n<p>Eu prefiro dist\u00e2ncia. Preferi inclusive comprar outros cord\u00e9is, com temas de menor fedentina.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 8 de dezembro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes ele sai em sil\u00eancio, mas ainda assim o pum faz barulho. A flatul\u00eancia \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o digestiva normal e democr\u00e1tica \u2013 reis e s\u00faditos soltam bufas \u2013 mas provoca a imagina\u00e7\u00e3o popular, quase sempre seguida de risos, desde tempos imemoriais. Porque ningu\u00e9m sabe, mas dos casos e piadas, vieram livros. 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