{"id":1736,"date":"2024-02-02T13:19:41","date_gmt":"2024-02-02T16:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1736"},"modified":"2024-02-02T13:19:41","modified_gmt":"2024-02-02T16:19:41","slug":"a-graca-de-cada-um-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-graca-de-cada-um-2\/","title":{"rendered":"A gra\u00e7a de cada um"},"content":{"rendered":"<p>Rir \u00e9 o melhor rem\u00e9dio, diz o bord\u00e3o popular. Mas certamente isso n\u00e3o se aplica ao riso sard\u00f4nico, aquele de contra\u00e7\u00e3o espasm\u00f3dica dos m\u00fasculos, pr\u00f3prio dos doentes com t\u00e9tano. Ali\u00e1s, os antigos diziam que ele era causado por uma erva da Sardenha, da\u00ed o nome, onde os gladiadores morriam com uma express\u00e3o de sorriso no rosto.<\/p>\n<p>Uma boa risada depende de muitas coisas, inclusive da geografia. Da\u00ed a diferen\u00e7a entre o humorismo dos pa\u00edses. Os ingleses, por exemplo, talvez pelo clima soturno e as nuvens baixas, parecem rir de qualquer coisa. \u00c9 c\u00e9lebre o cartum publicado em Punch, quando um homem diz a outro: \u201cEi John, voc\u00ea est\u00e1 esfregando a torta de morangos na cabe\u00e7a&#8230;\u201d. E o outro retruca: \u201cE eu pensando que era salada de batatas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E o humor se imiscui mesmo nos dramas mais pesados, como ensinou Shakespeare em Hamlet, quando o coveiro responde quanto tempo um morto levava para apodrecer. \u201cNove, oito anos, menos&#8230; alguns come\u00e7am a apodrecer ainda vivos\u201d. Entre a ironia e o non sense, eles v\u00e3o se divertindo enquanto n\u00f3s ficamos pensando: \u201cQual \u00e9 a gra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>O que se sabe \u00e9 que o riso n\u00e3o depende do humor, embora este possa provocar risadas. Massillon, fil\u00f3sofo e grande frasista, sustentava que \u201co mundo \u00e9 mais perigoso quando ri de n\u00f3s do que quando nos maltrata\u201d.<\/p>\n<p>No Brasil, somos mais selvagens. E faz tempo. Renato Vivacqua, intelectual de rara sensibilidade, me deu de presente um livro de Afr\u00e2nio Peixoto \u2013 <em>Humour, Ensaio de Brevi\u00e1rio Nacional do Humorismo<\/em>, de 1947, que mostra bem a diferen\u00e7a. \u00c9 uma preciosa colet\u00e2nea de textos que exp\u00f5e o humor brasileiro na pena de diversos autores.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Peixoto d\u00e1 a t\u00f4nica, no pref\u00e1cio, passando uma descompostura em todos n\u00f3s: \u201cO \u201chumour\u201d \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o \u00e9tica ou moral, que desarma a energ\u00famenos, fan\u00e1ticos, e d\u00e1 conforma\u00e7\u00e3o de justa e divertida repres\u00e1lia, \u00e0s v\u00edtimas e aos coatos. Tiv\u00e9ssemos n\u00f3s o \u201csense of humour\u201d anglo-saxof\u00f4nico, n\u00e3o haveria essa pancadaria grandiloquente e v\u00e3, agressiva e destruidora, que anda solta por a\u00ed, entre hispanos e luso-americanos\u201d.<\/p>\n<p>Mas mostra alguma condescend\u00eancia em seu ensaio: \u201cA cultura vai, por\u00e9m, modificando a alma brasileira num aprendizado e emula\u00e7\u00e3o de exemplo, de onde, raro em raro, um fogo f\u00e1tuo de \u201chumour\u201d, ou rel\u00e2mpago de ironia, que rompem de entre os trov\u00f5es da nossa \u00eanfase, na pancadaria da nossa descompostura\u201d. Ou seja, est\u00e1vamos aprendendo com nossos defeitos.<\/p>\n<p>De 1947 para c\u00e1 muita coisa mudou, inclusive o humor; mas n\u00e3o nos tornamos mais delicados. Ao contr\u00e1rio, com a valoriza\u00e7\u00e3o da falta de educa\u00e7\u00e3o, vamos ficando mais brutos, apelativos. Mas nem todo mundo. Dia desses apareceu no bar um rapaz metido a engra\u00e7ado, uma esp\u00e9cie de especialista \u2013 sim, eles est\u00e3o em todas as \u00e1reas \u2013 em piadas infames.<\/p>\n<p>S\u00e3o pessoas que n\u00e3o precisam de plateia. Eles contam a piada, eles mesmo riem. E perguntou a um: \u201cPor que planta n\u00e3o fala?\u201d. Sem esperar por resposta, ia adiante: \u201cPorque \u00e9 mudinha\u201d. E morria de rir do chiste. \u201cSabe a f\u00f3rmula da \u00e1gua benta?\u201d&#8230; sil\u00eancio. \u201cAg\u00e1 Deus \u00d3\u201d, e se contorcia.<\/p>\n<p>Foi posto para fora da roda. O boteco n\u00e3o suporta mau humor que n\u00e3o seja o do propriet\u00e1rio. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o aguenta engra\u00e7adinhos.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 15 de dezembro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rir \u00e9 o melhor rem\u00e9dio, diz o bord\u00e3o popular. 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