{"id":222,"date":"2018-01-19T15:59:34","date_gmt":"2018-01-19T17:59:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=222"},"modified":"2018-01-19T15:59:34","modified_gmt":"2018-01-19T17:59:34","slug":"vive-la-france","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/vive-la-france\/","title":{"rendered":"Vive la France!"},"content":{"rendered":"<p>Dram\u00e1tico, soturno e vilanesco como um baixo-bar\u00edtono de \u00f3pera, nosso amigo inseriu o tema da conversa: a revolta feminina na festa de premia\u00e7\u00e3o do cinema. Atrizes de preto, piadinhas infames, execra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, discursos inflamados, o Globo de Ouro praticamente esqueceu os filmes para se concentrar no combate aos homens. E irritou nosso amigo.<\/p>\n<p>Como se estivesse incorporado por um Furlanetto no papel de Mefist\u00f3feles, ele despejava sua ira sat\u00e2nica contra as protestantes, porque acredita que o movimento p\u00f5e ideias na cabe\u00e7a da doce esposa de mais de 40 anos, que n\u00e3o quer mais que ele dirija. \u201cMe chamou de barbeiro\u201d, vociferou.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais d\u00favidas: o feminismo est\u00e1 de volta. Ainda n\u00e3o atearam fogo aos suti\u00e3s, como na revolta promovida pelo Women\u2019sLib em 1968, contra o concurso de Miss America, mas se daquela vez n\u00e3o houve chamas \u2013 foi uma fogueira conceitual, por assim dizer \u2013 agora a ebuli\u00e7\u00e3o arde.<\/p>\n<p>As acusa\u00e7\u00f5es aos bacanas seguem, mas o que preocupava no debate daquela mesa \u00e9 que a ira feminina est\u00e1 chegando ao andar de baixo \u2013 o nosso andar. \u201cMais um pouco vai ser preciso assinar um contrato de namoro, com cl\u00e1usulas do que pode e n\u00e3o pode\u201d, disse outro, n\u00e3o por acaso, advogado.<\/p>\n<p>A luta das mulheres por igualdade \u00e9 justa, mas h\u00e1 algum exagero. N\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o salarial ou mesmo contra viol\u00eancia e constrangimento; virou o avesso: agora s\u00e3o as mulheres que desqualificam os homens. \u201cA hora de voc\u00eas acabou\u201d, disse Ophra Winfrey, a Ana Maria Braga deles, sem deixar claro que se referia apenas aos agressores.<\/p>\n<p>Ainda bem que temos as francesas. Cem atrizes publicaram um manifesto bem mais inteligente nas p\u00e1ginas do jornal Le Monde. \u201cO estupro \u00e9 um crime, mas a paquera insistente ou sem sutileza n\u00e3o \u00e9 crime, nem o galanteio uma agress\u00e3o machista\u201d, sustentam. Nelson se rejubilou: a cantada est\u00e1 salva.<\/p>\n<p>As francesas tocaram no ponto: esse novo feminismo est\u00e1 tomando forma de \u00f3dio aos homens e \u00e0 sexualidade. Tem origem no puritanismo calvinista que ingleses levaram para os Estados Unidos h\u00e1 400 anos e que sobrevive at\u00e9 hoje sem evoluir um mil\u00edmetro.<\/p>\n<p>Ofensores devem sentir a for\u00e7a da Lei, mas as francesas lembram que n\u00e3o se pode punir \u201chomens cujo \u00fanico erro foi tentar tocar um joelho, tentar um beijo, falar de coisas \u00edntimas no trabalho ou enviar mensagens de conota\u00e7\u00e3o sexual a uma mulher que n\u00e3o sentia atra\u00e7\u00e3o rec\u00edproca\u201d.<\/p>\n<p>Cantadas podem ser salutares. Acho que j\u00e1 contei aqui a hist\u00f3ria de uma amiga que quando est\u00e1 com a autoestima no ch\u00e3o, se arruma e passa na frente de uma obra s\u00f3 para ouvir fiu-fiu e elogios brutos.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o Globo de Ouro perdeu a oportunidade de lembrar um filme lan\u00e7ado recentemente e que mostra que o feminismo \u00e9 uma luta por justi\u00e7a e n\u00e3o um justi\u00e7amento. \u00c9 <em>A Guerra dos Sexos<\/em> (Battle of the Sexes), que narra a luta de Billie Jean King para dar \u00e0s tenistas, o mesmo pr\u00eamio dado aos homens. Vou contar o final: ela ganha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dram\u00e1tico, soturno e vilanesco como um baixo-bar\u00edtono de \u00f3pera, nosso amigo inseriu o tema da conversa: a revolta feminina na festa de premia\u00e7\u00e3o do cinema. 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