{"id":276,"date":"2018-02-26T16:18:57","date_gmt":"2018-02-26T19:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=276"},"modified":"2018-02-26T16:18:57","modified_gmt":"2018-02-26T19:18:57","slug":"missivistas-em-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/missivistas-em-extincao\/","title":{"rendered":"Missivistas em extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Deu no jornal que o n\u00famero de correspond\u00eancias vai ser superado pelo volume de encomendas no servi\u00e7o dos Correios. Ningu\u00e9m pode dizer que a not\u00edcias surpreende, mas ainda assim \u00e9 mais uma marca triste dos tempos atuais, at\u00e9 porque correspond\u00eancia no jarg\u00e3o da empresa n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma carta, mas qualquer tipo de comunica\u00e7\u00e3o. As cartas \u2013 aquelas escritas em papel pautado ou at\u00e9 \u00e0 m\u00e1quina \u2013 perdem feio<\/p>\n<p>Os missivistas s\u00e3o esp\u00e9cime mais amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o do que o mico-le\u00e3o dourado; estes ainda sobrevir\u00e3o em cativeiro, habitat que n\u00e3o agradaria escrevinhadores. N\u00e3o vou longe no esfor\u00e7o de reportagem: em meu escaninho s\u00f3 tenho recebido carta de banco (nenhuma com boas not\u00edcias) e circulares impressos.<\/p>\n<p>Quando estudava longe de casa, recebia com ansiedade as cartas da m\u00e3e, todas lidas muitas e muitas vezes; s\u00f3 a estupidez juvenil \u2013 e talvez a volta para casa \u2013 justifica o fato de n\u00e3o t\u00ea-las mantido. Seriam aut\u00eanticos tesouros hoje, em que pese a p\u00e9ssima caligrafia da m\u00e3e. Tamb\u00e9m escrevi para muitos amigos e poucas namoradas, mas n\u00e3o consigo lembrar quando escrevi minha \u00faltima carta.<\/p>\n<p>Na reda\u00e7\u00e3o de uma emissora de TV, t\u00ednhamos um companheiro que era conhecido pela alcunha de divino missivista. Naquele tempo as not\u00edcias se recusavam a acontecer em alguns per\u00edodos do dia; era a fase da apura\u00e7\u00e3o, quando os rep\u00f3rteres estavam atr\u00e1s de todos os fatos para compor o que chamamos de mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Era nesse lusco-fusco editorial que o divino missivista atacava. Escrevia longas cartas, declara\u00e7\u00f5es contundentes de amor eterno para um grupo \u2013 n\u00e3o muito pequeno, pode-se dizer \u2013 de mo\u00e7as que ele guardava no imenso cora\u00e7\u00e3o. Eram cartas escritas na velha m\u00e1quina de escrever de tipos grandes, pr\u00f3prias para TV e r\u00e1dio, mas com sentimento parnasiano em cada letra de forma.<\/p>\n<p>No fim do dia, um esp\u00edrito-de-porco escarafunchava a lixeira do divino missivista em busca de rascunhos que eram levados ao bar do Mendes, depois do expediente, quando os colegas se ro\u00edam de inveja das conquistas que ele, cavalheiro, sempre se recusou a nomear \u2013 \u201co que aconteceu j\u00e1 foi bom demais\u201d, repetia.<\/p>\n<p>Mas ultimamente tenho sido atropelado na contram\u00e3o. Est\u00e3o chegando cartas. Danilo Gomes, recentemente empossado na Academia Brasiliense de Letras (e que ainda n\u00e3o pagou o chope de comemora\u00e7\u00e3o) \u00e9 um contumaz missivista \u2013 mais at\u00e9; seus envelopes pardos s\u00e3o como um kinder ovo para gente crescida. Al\u00e9m da carta, com novidades e coment\u00e1rios, ele sempre inclui escritos mais antigos, inclusive de outros correspondentes, dividindo seus alfarr\u00e1bios.<\/p>\n<p>Danilo gosta da mesa do bar, mas acredita piamente no poder das cartas. \u00c9 de uma gentileza \u00edmpar, embora tenha posi\u00e7\u00f5es firmes. Mant\u00e9m uma rede de correspond\u00eancias ampla e, descubro agora, tem fixa\u00e7\u00e3o pelo esp\u00edrito aventureiro, ainda que mercantil, dos tropeiros. A fa\u00edsca veio do av\u00f4 paterno, Carlos de Assis Gomes, tropeiro que se fez poeta.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho correspondido \u00e1 gentileza; ainda n\u00e3o consegui escrever uma carta que merecesse o luxo de um envelope \u2013 ainda mais porque moramos a poucos conjuntos de dist\u00e2ncia. Mas vou escrever, nem que seja para contrariar o fluxo no trabalho dos carteiros.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 25 de fevereiro de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deu no jornal que o n\u00famero de correspond\u00eancias vai ser superado pelo volume de encomendas no servi\u00e7o dos Correios. Ningu\u00e9m pode dizer que a not\u00edcias surpreende, mas ainda assim \u00e9 mais uma marca triste dos tempos atuais, at\u00e9 porque correspond\u00eancia no jarg\u00e3o da empresa n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma carta, mas qualquer tipo de comunica\u00e7\u00e3o. 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