{"id":279,"date":"2018-02-26T16:28:15","date_gmt":"2018-02-26T19:28:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=279"},"modified":"2018-02-26T16:28:15","modified_gmt":"2018-02-26T19:28:15","slug":"279-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/279-2\/","title":{"rendered":"O adeus do professor"},"content":{"rendered":"<p>O violeiro Roberto Correa est\u00e1 se despedindo da doc\u00eancia na Escola de M\u00fasica, onde criou a cadeira de viola caipira. Vai se dedicar \u00e0 composi\u00e7\u00e3o e a novos espet\u00e1culos. O texto a seguir foi publicado originalmente no livro Caipira Extremoso, de 2006, parte da cole\u00e7\u00e3o Brasilienses, e \u00e9 uma tentativa de traduzir em palavras a m\u00fasica criada por Roberto Corr\u00eaa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Limite Infinito<\/p>\n<p>Antes de conhecer o violeiro, \u00e9 preciso conhecer a viola. \u00c9 instrumento de origem portuguesa, bem menor que o viol\u00e3o, com cintura mais acentuada e dez cordas de a\u00e7o ou revestidas de metal, agrupadas duas a duas \u2013 no terceiro par, alguns violeiros usam linha de pesca. Quase sempre a viola \u00e9 feita de maneira artesanal, com tampo de pinho, embora se use tamb\u00e9m a imburana de espinho, madeira cheirosa e resistente. O bra\u00e7o \u00e9 de cedro. A lateral, como a do viol\u00e3o, \u00e9 de pinho, flex\u00edvel.<\/p>\n<p>Viola caipira, viola sertaneja, viola de pinho, viola cabocla, viola de dez cordas, s\u00e3o alguns dos nomes que o instrumento recebeu no Brasil. As cordas tamb\u00e9m ganharam v\u00e1rios nomes, mas pode-se cham\u00e1-las assim: prima e contra-prima, requinta e contra-requinta, turina e contra-turina, toeira e contra-toeira, conotilho e contra-canotilho (de baixo para cima).<\/p>\n<p>A afina\u00e7\u00e3o mais comum \u00e9 o cebol\u00e3o, em mi \u2013 mi, si, sol sustenido, mi e si) \u2013 ou em r\u00e9 (r\u00e9, l\u00e1, f\u00e1 sustenido, r\u00e9 e l\u00e1). Teria sido ensinada por S\u00e3o Gon\u00e7alo, diz a cren\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=b6_jTiLWw28\">http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=b6_jTiLWw28<\/a><\/p>\n<p>Agora, o violeiro.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m \u00e9 violeiro porque quer. Reza a lenda que \u00e9 a viola quem escolhe o violeiro, escreve sua hist\u00f3ria e passa a proteg\u00ea-lo contra todo o mal. Roberto Corr\u00eaa j\u00e1 tinha sido apresentado aos mist\u00e9rios do viol\u00e3o por Jos\u00e9 da Concei\u00e7\u00e3o, na pequena Campina Verde, Minas Gerais, quando uma viola desviou seu caminho: num instante foi feito o primeiro pacto, que continua valendo at\u00e9 hoje, mesmo depois de ter passado por maus bocados, incluindo mist\u00e9rios que a ci\u00eancia dos homens \u2013 a mesma que Corr\u00eaa estudou na universidade \u2013 n\u00e3o pode explicar.<\/p>\n<p>Mais do que um violeiro, Roberto Corr\u00eaa assume a defesa acad\u00eamica do instrumento, mesclando o ponteado cortante com an\u00e1lises e estudos in\u00e9ditos do instrumento nascido h\u00e1 600 anos e trazido ao Brasil pelos portugueses. A obra de Corr\u00eaa tira a viola da posi\u00e7\u00e3o exclusivamente folcl\u00f3rica que o instrumento ocupava, abrindo um mundo de possibilidades para as dez cordas; a cada disco, show ou livro, o violeiro amplia os horizontes, tirando da viola a poeira e o car\u00e1ter de instrumento do passado e, por muitos, tido como limitado.<\/p>\n<p>Os timbres dobrados de cada nota s\u00e3o extra\u00eddos num formato diferente do que se ouve h\u00e1 s\u00e9culos, com a impress\u00e3o de esgotamento do instrumento; mesmo apresentado a diversos povos pelos desbravadores lusos, a viola praticamente s\u00f3 existe no Brasil. Roberto Corr\u00eaa tem a m\u00e3o direita fincada nas tradi\u00e7\u00f5es do ponteado tradicional, mas a esquerda aponta para o futuro, desenvolvendo uma t\u00e9cnica que respeita as origens do instrumento, enquanto avan\u00e7a para um futuro que n\u00e3o aceita limites.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o h\u00edbrida do violeiro parece ditar essa nova estrutura\u00e7\u00e3o musical, tra\u00e7ada com o cuidado t\u00edpico dos homens do interior. Devagar, Corr\u00eaa vem quebrando barreiras e impondo sua m\u00fasica, buscando estruturas que, curiosamente, v\u00eam de antes da cria\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria viola, como o recente mas profundo interesse pelos barrocos. Mas, de novo, o passado fica na sola, como se fosse apenas a base de uma nova arte.<\/p>\n<p>O caminho tem sido longo. Corr\u00eaa sabe que a viola s\u00f3 vai sobreviver se puder se mostrar contempor\u00e2nea, se n\u00e3o for apenas um instrumento de museu, como os exemplares que ele pr\u00f3prio deixou no Jap\u00e3o. Mas esta sobreviv\u00eancia depende tamb\u00e9m da hist\u00f3ria. Talvez a dicotomia explique sua prefer\u00eancia pelo tradicional cebol\u00e3o \u2013 em r\u00e9 maior \u2013 para afinar o instrumento, enquanto procura expandir as fronteiras do uso da viola, no desafio de criar uma nova escola a partir de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A prud\u00eancia n\u00e3o deve ser confundida com timidez. Ele n\u00e3o demonstra medo algum do futuro e sequer teve receio de mexer no instrumento para aperfei\u00e7o\u00e1-lo, resolvendo problemas de afina\u00e7\u00e3o e calibragem. Usou seus conhecimentos acad\u00eamicos de F\u00edsica e a experi\u00eancia dos luthiers Verg\u00edlio Arthur e Joaquim Santos, para alcan\u00e7ar os timbres exatos, resolvendo um secular problema de estabilidade.<\/p>\n<p>A vida de violeiro come\u00e7ou com o grupo folcl\u00f3rico Olhos D\u2019\u00c1gua, que nunca ultrapassou as fronteiras da Universidade de Bras\u00edlia. No mesmo per\u00edodo, financiado pelo CNPq e pelo Instituto Nacional do Folclore, come\u00e7ou a pesquisar o instrumento, descobrindo que o diploma de f\u00edsico serviria apenas para enfeitar a parede. O resultado foi o livro <em>Viola Caipira<\/em>, lan\u00e7ado em 1983, e o show <em>Parecen\u00e7a<\/em>, no Teatro Galp\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um m\u00fasico ainda preocupado com os alicerces, o Roberto Corr\u00eaa que se apresentou. Did\u00e1tico, ainda n\u00e3o ousava sair do manual. Mo\u00e7o respeitador das tradi\u00e7\u00f5es dos mestres do instrumento, foi imediatamente reconhecido com pioneiro de uma nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos. Logo estaria tocando no Projeto Pixinguinha, dividindo o palco com o Quinteto Violado, fazendo recital na Sala Funarte, do Rio de Janeiro, no IV Encontro de Pesquisadores da MPB, e participando de programas de televis\u00e3o \u2013 <em>Som Brasil<\/em>, de Rolando Boldrin, e <em>Viola Minha Viola<\/em>, de Inezita Barroso, entre outros.<\/p>\n<p>Os discos e livros deixam claro que a pretens\u00e3o de Roberto Corr\u00eaa n\u00e3o \u00e9 apenas resgatar para si a tradi\u00e7\u00e3o da viola ou entreter o ouvinte, mas deixar um legado. A cada nota, o violeiro procura mostra a vitalidade da viola caipira, do ponteado \u2013 mestre e aprendiz convivem na mesma pessoa na busca desse objetivo. Nessa busca, como ouvir\u00edamos depois, Corr\u00eaa lan\u00e7ou ideias e propostas bem mais radicais; mas com todo cuidado porque n\u00e3o se deve sacudir a \u00e1rvore do folclore com muita for\u00e7a.<\/p>\n<p>Em 1987, saiu o primeiro registro sonoro. Era s\u00f3 uma participa\u00e7\u00e3o no disco <em>Villa-Lobos<\/em>, tocando, claro, <em>O trenzinho do caipira<\/em>. Vieram outros aperitivos. Embora tecnicamente muito bom, Roberto Corr\u00eaa carecia de mostrar o que ele pr\u00f3prio j\u00e1 imaginava: ir al\u00e9m do que se fazia com o instrumento. Mas seguiu em frente, mostrando arte no disco <em>Cururu e outros cantos das festas religiosas \u2013 MT<\/em> e homenageando o poeta em <em>Carlos Drummond de Andrade<\/em> \u2013 embora tematicamente limitado, o violeiro j\u00e1 come\u00e7ava a alterar o rumo de sua hist\u00f3ria, fazendo a trilha sonora e arranjos para a declama\u00e7\u00e3o do ator Lima Duarte.<\/p>\n<p>Neste mesmo ano, o produtor J. C. Botezelli (Pel\u00e3o) convida Roberto Corr\u00eaa para gravar o primeiro disco brasileiro exclusivamente de viola. Viola Caipira \u2013 um pequeno concerto \u00e9 um belo disco, mas uma grava\u00e7\u00e3o tradicional, que se serve para mostrar que ele era um violeiro de m\u00e3o cheia, e que n\u00e3o apenas emulava velhos violeiros. Tamb\u00e9m esconde o criador que estava prestes a irromper.<\/p>\n<p>Foram gravadas 12 can\u00e7\u00f5es, temas que seriam repetidos no futuro, de maneira mais provocante. O dado curioso \u00e9 que o engenheiro de som desse disco foi o finado cantor Jess\u00e9, que tamb\u00e9m havia se firmado na carreira em Bras\u00edlia e era dono do est\u00fadio. \u00c9 neste \u00e9poca que Roberto Corr\u00eaa lan\u00e7a o livro <em>Viola de Cocho<\/em>, firmando-se definitivamente como pesquisador e se protegendo de eventuais cr\u00edticas \u00e0s mudan\u00e7as que vinha promovendo, por parte dos puristas.<\/p>\n<p>\u00c9 o que basta para leva-lo \u00e0 Alemanha para um projeto acad\u00eamico, onde grava um novo disco \u2013 e que disco! <em>Viola Caipira \u2013 Brazil<\/em> \u00e9 produto de um projeto da Unesco, primeiro volume da s\u00e9rie <em>Traditional Music of the World<\/em>, uma imprescind\u00edvel antologia da viola. S\u00e3o 22 faixas que servem para mostrar o potencial do instrumento em temas distintos.<\/p>\n<p>A mistura de ritmos \u00e9 proposital, para que o som do instrumento seja amplamente explorado; a abertura do disco \u00e9 arrasadora, com uma vers\u00e3o de <em>Chalana<\/em> em que o violeiro faz a ponte entre a tradi\u00e7\u00e3o e as novas possibilidade do instrumento, arrastando os acordes pelo bra\u00e7o e, em seguida, ponteando, num a demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, t\u00e9cnica e sensibilidade.<\/p>\n<p>A viagem de Corr\u00eaa continua em temas caros aos brasileiros \u2013 <em>Asa Branca, Tristeza do Jeca<\/em> \u2013, na erudi\u00e7\u00e3o de <em>O Trenzinho do caipira<\/em>, em m\u00fasica que ele pr\u00f3prio recolheu e em outra que criou, como a impag\u00e1vel <em>Su\u00edte das cobras<\/em>, dividida em quatro partes: jararaca, urutu, cascavel e caninana. Nenhum sinal da cobra coral que, segundo a lenda, deve ser enroscada nos dedos de um candidato a violeiro, fechando o pacto com o coisa-ruim.<\/p>\n<p>E o violeiro solta a voz \u2013 ainda que claudicante \u2013 nas faixas <em>Meio destrambelhada, Chora Viola, Tristeza do Jeca <\/em>e<em> Navalha na carne<\/em>. Mas isso era para ser explorado bem mais tarde.<\/p>\n<p>O que mais chama a aten\u00e7\u00e3o no disco de estreia \u00e9 a seguran\u00e7a de quem n\u00e3o tem medo de ousar e abrir horizontes. Numa cole\u00e7\u00e3o destinada ao folclore, ele vai al\u00e9m e procura mostrar que a tradi\u00e7\u00e3o pode evoluir, procurar novos caminhos. E foi o que ele continuou fazendo.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, lan\u00e7a do disco <em>Viola andarilha<\/em>, independente, que serve de base para uma s\u00e9rie de espet\u00e1culos, ainda na forma h\u00edbrida de explorar o amplo desconhecimento do instrumento da maioria do p\u00fablico criando uma esp\u00e9cie de curso rel\u00e2mpago. O disco nunca ganhou uma vers\u00e3o em CD; marcava o fim da primeira fase da carreira.<\/p>\n<p>Em seguida, uma aventura: a participa\u00e7\u00e3o em um inusitado disco de m\u00fasicos brasileiros em homenagem ao compositor italiano Nino Rota, no qual Corr\u00eaa aparece com uma ins\u00f3lita vers\u00e3o de <em>La dolce vita<\/em> \u2013 nada para entrar no curr\u00edculo, al\u00e9m da curiosidade.<\/p>\n<p>Em 1994, o violeiro mostra a evolu\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica. \u00c9 quando ele d\u00e1 um salto no tempo. <em>Ur\u00f3boro<\/em>, a serpente que devora o pr\u00f3prio rabo, d\u00e1 nome ao disco, ainda hoje sua obra mais ousada. Nesta grava\u00e7\u00e3o ele apresenta o som da viola de cocho, instrumento significativamente diferente da viola caipira, uma vez que al\u00e9m de esculpida num tronco de madeira inteiri\u00e7o- sar\u00e3 ou ximbuva, preferencialmente \u2013 \u00e9 escavada internamente para formar a caixa de resson\u00e2ncia, com um tampo que pode ou n\u00e3o ter um furo.<\/p>\n<p>Ur\u00f3boro n\u00e3o \u00e9 um disco puro de m\u00fasica caipira. As influ\u00eancias urbanas que Corr\u00eaa recebeu est\u00e3o bem evidentes no disco, embora a alma sertaneja seja o tom preponderante. Como qualquer adolescente de sua idade, o violeiro teve contato com o rock e outros g\u00eaneros importados \u2013 ele confessa que gostava de tocar m\u00fasicas do Black Sabbath, um dos grupos mai8s pesados da Inglaterra \u2013 no viol\u00e3o, antes de descobrir a viola. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o se vai encontrar o riff de <em>Paranoid<\/em>, ou coisa que o valha, neste disco. Ur\u00f3boro \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o de descobertas, com 21 pe\u00e7as pr\u00f3prias, formando o repert\u00f3rio b\u00e1sico de sua carreira de violeiro at\u00e9 ent\u00e3o. O violeiro ousou n\u00e3o fazer nenhuma refer\u00eancia ao repert\u00f3rio tradicional do instrumento \u2013 tudo \u00e9 novo, mesmo os temas que ele j\u00e1 havia apresentado.<\/p>\n<p>Alguns temas j\u00e1 haviam sido gravados no disco alem\u00e3o \u2013 caso de <em>Anti-viola<\/em> e da <em>Su\u00edte das Cobras<\/em> \u2013 que aqui ganha apensos aos nomes (Caninana do Papo Amarelo, Urucu Cruzeiro, Jararaca Chateadeira e Cascavel quatro Ventas) \u2013 mas mesmo esses ganham abordagens novas em folha. A grande maioria dos temas, no entanto, era in\u00e9dita.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Y7mofgqfbeg\">http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Y7mofgqfbeg<\/a><\/p>\n<p>Muitas m\u00fasicas se imp\u00f5em at\u00e9 hoje, como o impressionante rasqueado <em>Peleja de siriema com cobra<\/em>, que parte da emula\u00e7\u00e3o do canto do p\u00e1ssaro na viola e de uma estiliza\u00e7\u00e3o da postura da cobra, at\u00e9 o confronto. Ou ainda Desinfeliz, toada com que a estrutura de 12 compassos, semelhante ao blues dos negros norte-americanos, e que se desenvolve de forma surpreendentemente original. Com Ur\u00f3boro, Roberto Corr\u00eaa coloca a viola em novo patamar.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o viria dois anos depois na forma de disco <em>Cris\u00e1lida<\/em>, quando ele inverte a m\u00e3o. Usa apenas temas e can\u00e7\u00f5es muito conhecidas para mostrar os caminhos que a vila pode tomar. Traz de volta, por exemplo, <em>O Trenzinho do Caipira<\/em> (em duas vers\u00f5es, uma com orquestra) e explora habilmente temas criados especialmente para o instrumento , como a impag\u00e1vel <em>Pagode em Bras\u00edlia<\/em>, que fez a fama de Ti\u00e3o Carreiro nos anos 1960, e outras mais distantes, como a gauchesca <em>Prenda Minha<\/em> ou a buli\u00e7osa <em>Tico-tico no Fub\u00e1.<\/em><\/p>\n<p>O violeiro est\u00e1 ainda mais seguro nessas grava\u00e7\u00f5es, aliando t\u00e9cnica e ousadia. Ao desprezar temas pr\u00f3prios, dobra o desafio ao buscar o novo na fonte do passado. \u00c9 curioso como esta dicotomia se repete em toda a carreira. \u00c9 fabuloso o resultado que ele alcan\u00e7a ao ampliar a capacidade dos instrumentos, mesmo os mais primitivos, como a viola de cocho, que aparece com destaque no rasqueado <em>Siriema<\/em>, dividindo espa\u00e7o com uma rabeca de bambu.<\/p>\n<p>E \u00e9 not\u00e1vel a maneira como aborda duas can\u00e7\u00f5es de Ernesto Nazareth, que j\u00e1 foram desconstru\u00eddas e refeitas de muitas maneiras; desta vez, <em>Odeon<\/em> e <em>Brejeiro<\/em> se libertam das amarras impostas pelos chor\u00f5es, que praticamente se apoderaram desses dois tangos brasileiros.<\/p>\n<p><em>Cris\u00e1lida<\/em> \u00e9 a definitiva comprova\u00e7\u00e3o de que Roberto Corr\u00eaa est\u00e1 l\u00e9guas adiante de seus colegas. Enquanto a maioria procura apenas repetir o que vem sendo ouvido h\u00e1 d\u00e9cadas, numa canina obsess\u00e3o pela preserva\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes, Corr\u00eaa busca alternativas, d\u00e1 saltos, transforma a maneira de tocar velhas can\u00e7\u00f5es e mostra novas formas de composi\u00e7\u00e3o, propondo uma renova\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio b\u00e1sico da viola.<\/p>\n<p>Sabe-se que violeiro n\u00e3o suporta compara\u00e7\u00f5es. Corr\u00eaa, no entanto, nunca pareceu muito preocupado com isso. Preferiu buscar seu espa\u00e7o pela diferen\u00e7a. E conseguiu.<\/p>\n<p>Mas era preciso um interl\u00fadio nesta caminhada pela renova\u00e7\u00e3o e mais uma vez o produtor Pel\u00e3o parece. Muito antes moda viola, a paix\u00e3o de Corr\u00eaa pela m\u00fasica sertaneja come\u00e7ou quando ele, ainda em Campina Verde, ficava ao p\u00e9 do r\u00e1dio ouvindo Inezita Barroso cantar. E \u00e9 com ela que ele passa a trabalhar num ousado projeto: gravar uma s\u00e9rie de discos s\u00f3 com voz e viola, esp\u00e9cie de antologia da m\u00fasica interiorana de todo o pa\u00eds \u2013 \u00e9 assim que entram o ga\u00facho Lupic\u00ednio Rodrigues (<em>Felicidade<\/em>), o paraense Waldemar Henrique (<em>Tamba<\/em>&#8211;<em>Taj\u00e1<\/em>) e o pernambucano Gilvan Chaves (<em>Prece ao Vento<\/em>), embora a maioria das can\u00e7\u00f5es seja de S\u00e3o Paulo, Paran\u00e1 e Minas Gerais. Foram gravados dois discos, 28 faixas.<\/p>\n<p>Um projeto desses pode significar uma s\u00e9rie de limita\u00e7\u00f5es para um violeiro. Inezita Barroso faz parte da hist\u00f3ria da m\u00fasica caipira do Brasil, tem um respeit\u00e1vel curr\u00edculo de pesquisadora e arranjadora, al\u00e9m de ser uma das maiores autoridades na m\u00fasica popular interiorana. Mas se houve limita\u00e7\u00f5es para Roberto Corr\u00eaa, ele n\u00e3o deixa transparecer na grava\u00e7\u00e3o; ao contr\u00e1rio, ousa timbres, altera andamentos e brinca com o ponteado, ao mesmo tempo em que mostra rever\u00eancia. E, mais tarde, dedicaria uma m\u00fasica \u00e0 cantora, que seria utilizada como tema do programa de televis\u00e3o dela.<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca, houve outro apontamento significativo.<\/p>\n<p>Encontro de violeiro nem sempre \u00e9 pac\u00edfico. Normalmente, n\u00e3o se bicam. Os mineiros Roberto Corr\u00eaa (de Campina Verde) e Renato Andrade (de Abaet\u00e9) disputaram por muito tempo, e nem sempre silenciosamente, o posto de maior violeiro do pa\u00eds, embora cada um tenha escolhido um caminho bem diferente para sua arte. O falecido Andrade optou pelas salas de concerto para vestir as modas de fraque e cartola, embora optando pelo m\u00e9todo tradicional de abordagem, enquanto Corr\u00eaa mergulhou nas origens do instrumento para extrair uma nova forma de explora\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>O Centro Cultural Banco do Brasil poderia ter servido de ringue para a disputa mas, como mostra a grava\u00e7\u00e3o do\u00a0 espet\u00e1culo que reuniu os dois violeiros, em 1995, cada um de uma vez \u2013 nunca em dueto\/duelo, que mineiro n\u00e3o faz isso \u2013 quem ganha \u00e9 o ouvinte. \u00c9 flagrante a diferen\u00e7a entre as t\u00e9cnicas de cada um e, especialmente Corr\u00eaa, em noite inspirada, resultando num disco sensacional da s\u00e9rie instrumental do CCBB, com repert\u00f3rio bem conhecido e testado, como o onipresente <em>Pagode em Bras\u00edlia<\/em> e temas pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Feita a rever\u00eancia aos velhos sertanejos, o projeto seguinte \u00e9 bem mais ambicioso. E o resultado, grandioso. Acompanhado por um quinteto de cordas, Corr\u00eaa lan\u00e7a <em>No Sert\u00e3o<\/em>, um disco que \u2013 apesar da forma\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o pretende ser erudito, mas apenas mostrar a riqueza que, muitas vezes, fica escondida por tr\u00e1s das can\u00e7\u00f5es populares. O repert\u00f3rio se destaca pela originalidade, uma vez que ao inv\u00e9s de explorar mais uma vez o fil\u00e3o caipira, buscou-se m\u00fasicas criadas sob a inspira\u00e7\u00e3o das velhas modas. Assim, entre os autores, aparecem de Jo\u00e3o Pernambuco a Marcos Valle, de Pedro S\u00e1 Pereira a S\u00e1 &amp; Guarabyra.<\/p>\n<p>Os arranjos valorizam sobremaneira a tonalidade da viola, com o quinteto fazendo a moldura. E Roberto Correa se aproveita de cada mil\u00edmetro para realizar uma das melhores performances de sua carreira gravada. Na linha de mostrar a capacidade musical do instrumento, abre campo para a utiliza\u00e7\u00e3o da viola de maneira mais ampla.<\/p>\n<p>Seis anos depois de <em>Cris\u00e1lida,<\/em> ele retoma o fio da meada no que pode ser marcado como o in\u00edcio da fase madura da carreira. O disco <em>Extremosa-Rosa<\/em> \u00e9 o marco dessa mudan\u00e7a. O violeiro divide espa\u00e7o com o bom cantor de voz pequena, mas bem colocada, o uso de alguns temas anteriormente explorados serve para mostrar que as ra\u00edzes continuam firmes, mas procura-se algo mais, j\u00e1 que os temas ganham abordagens inteiramente novas.<\/p>\n<p><em>Bicho-de-p\u00e9<\/em> e <em>Futrica Infinita<\/em> est\u00e3o nessa categoria, que mostra o crescimento do artista. Outras ganham vers\u00f5es vocais, caso de <em>Chora Viola<\/em> e <em>Moda Destrambelhada<\/em> (com letra de Herm\u00ednio Bello de Carvalho). A tradi\u00e7\u00e3o tem sua \u00e2ncora em <em>Queluzinho<\/em>, singela homenagem \u00e0 escola de violeiros de Queluz de Minas, tocada num instrumento antigo e feito naquela regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Um ano depois, nesse trabalho em progresso, Corr\u00eaa lan\u00e7a <em>Esbrangente<\/em>, de certa forma, uma continua\u00e7\u00e3o do trabalho de matura\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de freio de arruma\u00e7\u00e3o. \u00c9 um jeito de ele, por sobre o ombro, espiar o que vinha fazendo at\u00e9 o momento. Ao lado dos companheiros de viola Badia Medeiros e Paulo Freire, produz uma grava\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel, verdadeiro encontro de m\u00fasicos que, embora de gera\u00e7\u00f5es diferentes, t\u00eam objetivos semelhantes.<\/p>\n<p>Mas este \u00e9 apenas um projeto, sem liga\u00e7\u00e3o com a meada que come\u00e7ou de verdade em Ur\u00f3boro. E a sina do violeiro ainda est\u00e1 longe do fim. Um milagre o fez sobreviver para chegar at\u00e9 aqui, mas o desafio ainda n\u00e3o foi vencido. S\u00f3 ele \u00e9 capaz de manter vivo o interesse pela viola, de tir\u00e1-la da lista de instrumentos em via de extin\u00e7\u00e3o, onde est\u00e3o parentes pr\u00f3ximos como a viola de gamba. Correa n\u00e3o tem pressa e sabe que, para isso, pode ser preciso um novo rompimento. Mas como dizem os mineiros, causo quando \u00e9 bom \u00e9 compriiiido&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O violeiro Roberto Correa est\u00e1 se despedindo da doc\u00eancia na Escola de M\u00fasica, onde criou a cadeira de viola caipira. Vai se dedicar \u00e0 composi\u00e7\u00e3o e a novos espet\u00e1culos. O texto a seguir foi publicado originalmente no livro Caipira Extremoso, de 2006, parte da cole\u00e7\u00e3o Brasilienses, e \u00e9 uma tentativa de traduzir em palavras a m\u00fasica criada por Roberto Corr\u00eaa. 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