{"id":282,"date":"2018-02-27T11:15:01","date_gmt":"2018-02-27T14:15:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=282"},"modified":"2018-02-27T11:15:01","modified_gmt":"2018-02-27T14:15:01","slug":"a-pergunta-fatal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-pergunta-fatal\/","title":{"rendered":"CR\u00d4NICAS REVISTAS: A pergunta fatal"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7ar uma discuss\u00e3o sobre relacionamento com uma mulher \u00e9 como entrar num jogo perdendo de dois a zero. Dif\u00edcil empatar, mais dif\u00edcil ainda \u00e9 virar. Se ela conseguir fazer a pergunta fatal, ent\u00e3o, babau, enfie o rabo entre as pernas e v\u00e1 para um canto lamber as feridas. A pergunta capital, m\u00e3e de todas as derrotas masculinas \u00e9: voc\u00ea tem medo de qu\u00ea?<\/p>\n<p>Vem de repente, no espa\u00e7o deixado por uma singular v\u00edrgula, durante uma tentativa de racionalizar a conversa \u2013 sim, at\u00e9 porque tudo nasce de um sofisma; precisamos conversar. Enquanto o homem n\u00e3o entender que, no vocabul\u00e1rio feminino, \u201cprecisamos conversar\u201d \u00e9 o mesmo que \u201cquero falar e voc\u00ea vai me escutar\u201d, ele entra no embate derrotado. Miser\u00e1vel e inapelavelmente vencido, com tra\u00e7os fortes de humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O homem pode n\u00e3o estar com medo de nada, pode ser o mais valente dos seres, um destemido. Mas o ponto de interroga\u00e7\u00e3o parece vir com tanta certeza que a d\u00favida se transforma numa monol\u00edtica convic\u00e7\u00e3o: ela sabe de alguma coisa que eu n\u00e3o sei. O sujeito sabe que \u00e9 inocente, que n\u00e3o fez nada de errado \u2013 pelo menos n\u00e3o t\u00e3o errado assim \u2013 mas ainda assim recua. E a hesita\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua perdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O poder de argumenta\u00e7\u00e3o de uma mulher parece infind\u00e1vel, at\u00e9 porque \u00e9 um novelo. O fio \u00e9 conhecido, j\u00e1 foi todo mostrado, mas \u00e9 outra vez desenrolado como se tudo ali fosse novo; assuntos dados como resolvidos voltam com a for\u00e7a de um tit\u00e3, como revela\u00e7\u00f5es avassaladoras gravadas em pedra e os golpes s\u00e3o dados com a precis\u00e3o de esgrimista.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem medo de qu\u00ea? A pergunta sempre volta, refor\u00e7ando os golpes, mantendo o homem nas cordas, acuado. Toda mulher tem uma certeza na vida: alguma culpa ele tem, mesmo que ela n\u00e3o saiba, muito menos ele. E usam a carta para especular, para tentar descobrir algo que aumente o novelo. Ou s\u00f3 para constranger.<\/p>\n<p>A elas n\u00e3o interessa o nocaute, a capitula\u00e7\u00e3o final. As mulheres s\u00f3 querem ter raz\u00e3o. Usando a hom\u00e9rica insol\u00eancia de Iro, s\u00e3o elas que determinam o fim da discuss\u00e3o, mas sempre depois de exauridas as for\u00e7as do parceiro que aquiece, ainda atordoado.\u00a0 Tamb\u00e9m s\u00e3o elas que prop\u00f5em as inegoci\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es para a paz entre o casal.<\/p>\n<p>No final de tudo, a gente n\u00e3o sabe por que a discuss\u00e3o \u2013 desculpe, conversa \u2013 come\u00e7ou e nem ao que levou. Mas sabe que vai ter mais. Sempre tem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7ar uma discuss\u00e3o sobre relacionamento com uma mulher \u00e9 como entrar num jogo perdendo de dois a zero. Dif\u00edcil empatar, mais dif\u00edcil ainda \u00e9 virar. Se ela conseguir fazer a pergunta fatal, ent\u00e3o, babau, enfie o rabo entre as pernas e v\u00e1 para um canto lamber as feridas. 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