{"id":287,"date":"2018-03-07T11:04:09","date_gmt":"2018-03-07T14:04:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=287"},"modified":"2018-03-07T11:04:09","modified_gmt":"2018-03-07T14:04:09","slug":"ha-meio-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/ha-meio-seculo\/","title":{"rendered":"H\u00e1 meio s\u00e9culo"},"content":{"rendered":"<p>Se fosse poss\u00edvel fazer um levantamento sobre as m\u00fasicas mais tocadas em acampamentos e rodinhas de viol\u00e3o, provavelmente <em>Andan\u00e7a<\/em> ficaria em primeiro lugar. \u201cVim, tanta areia andei\/ Da lua cheia eu sei\/ Uma saudade imensa&#8230;.\u201d \u2013 mesmo quem n\u00e3o sabe a letra canta, inventa, fecha os olhos e ataca o contracanto nessa hist\u00f3ria de amor errante.<\/p>\n<p>Meio toada, meio samba, <em>Andan\u00e7a<\/em> est\u00e1 fazendo 50 anos e deve ganhar um espet\u00e1culo para comemorar a data. Por mais que mere\u00e7a, a festa ficaria mais completa se outras can\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas naquele mesmo 1968, o ano que nunca acaba, fossem inclu\u00eddas; s\u00f3 para come\u00e7ar, a outra campe\u00e3 dos acampamentos, <em>Viola Enluarada<\/em>, \u00e9 da mesma safra.<\/p>\n<p>Mais engajada, \u00e9 um retrato dos movimentos libert\u00e1rios de ent\u00e3o \u2013 \u201cA voz que canta uma can\u00e7\u00e3o, se for preciso canta um hino\/ Louva a morte&#8230;\u201d. Tamb\u00e9m foi o ano de <em>Caminhando (Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de flores)<\/em>, can\u00e7\u00e3o proibida pela censura por subvers\u00e3o (palavr\u00e3o naqueles tempos) e um ataque frontal, usando apenas dois acordes, ao regime \u2013 \u201cEsperar n\u00e3o \u00e9 saber\/ Quem sabe faz a hora, n\u00e3o espera acontecer\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Andan\u00e7a - Danilo Caymmi e amigos\" width=\"1333\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uUxfz_wDc68?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mas nem tudo era contesta\u00e7\u00e3o. <em>Modinha<\/em> (\u201cOlho a rosa na janela\/ Sonho um sonho pequenino\u201d), a premonit\u00f3ria <em>Sabi\u00e1<\/em>, que narrava um ex\u00edlio antes deles efetivamente ocorrerem (\u201cVou voltar, sei que ainda vou voltar\u201d) e <em>As Can\u00e7\u00f5es que Voc\u00ea Fez pra Mim<\/em> (Tantas vezes eu enxuguei seu pranto\/ E agora eu choro s\u00f3, sem ter voc\u00ea aqui\u201d) mostravam que o lirismo mantinha sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi um ano de sambas cl\u00e1ssicos, como <em>Tive Sim<\/em> (Cartola), <em>Alvorada<\/em> (Cartola, Carlos Cacha\u00e7a e Herm\u00ednio Bello), <em>Pressentimento<\/em> (Elton Medeiros e Herm\u00ednio Bello), <em>Sei L\u00e1 Mangueira<\/em> e <em>Coisas do Mundo Minha Nega<\/em> (Paulinho da Viola). E de uma das \u00faltimas grandes marchinhas de carnaval, <em>At\u00e9 Quarta-Feira.<\/em><\/p>\n<p>1968 marcou o fim do programa Jovem Guarda na TV e a estreia de Divino Maravilhoso, consolidando o movimento tropicalista \u2013 as m\u00fasicas: <em>Baby, Tropic\u00e1lia, Geleia Geral, Sou Loco por Ti, Am\u00e9rica<\/em> e muitas outras.<\/p>\n<p>E foram lan\u00e7adas duas joias de Tom Jobim: <em>Wave (Vou te Contar)<\/em> e <em>Retrato em Branco e Preto<\/em> (com Chico Buarque). Houve ainda uma s\u00e9rie de can\u00e7\u00f5es descoladas: <em>S\u00e1 Marina, Vesti Azul, Nem Vem que N\u00e3o Tem,<\/em> todas mostrando a for\u00e7a de Wilson Simonal, o maior \u00eddolo do pa\u00eds na \u00e9poca, e at\u00e9 o <em>Samba do Crioulo Doido<\/em>, s\u00e1tira de S\u00e9rgio Porto aos sambas-de-enredo, misturando princesa com trem, JK com a realeza e Anchieta com a proclama\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o para por a\u00ed. Foi tamb\u00e9m o ano de <em>Lapinha<\/em> (Elis Regina), <em>Voc\u00ea Passa eu Acho Gra\u00e7a<\/em> (primeiro sucesso de Clara Nunes, improv\u00e1vel parceria de Ataulfo Alves e Carlos Imperial) e <em>Mudando de Conversa<\/em> (Doris Monteiro).<\/p>\n<p>Da\u00ed \u00e9 poss\u00edvel dar um corte de meio s\u00e9culo, at\u00e9 os dias de hoje, quando enfim o pa\u00eds do futuro mostraria toda sua grandeza. E nos deparamos como os concorrentes a melhor m\u00fasica da temporada, na promo\u00e7\u00e3o do refrigerante: Anitta, Pablo Vittar, Thiaguinho, Ludmilla, Luan Santana, Valesca, Projota e Simone e Simaria. E ainda n\u00e3o inventaram a m\u00e1quina para voltar no tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se fosse poss\u00edvel fazer um levantamento sobre as m\u00fasicas mais tocadas em acampamentos e rodinhas de viol\u00e3o, provavelmente Andan\u00e7a ficaria em primeiro lugar. \u201cVim, tanta areia andei\/ Da lua cheia eu sei\/ Uma saudade imensa&#8230;.\u201d \u2013 mesmo quem n\u00e3o sabe a letra canta, inventa, fecha os olhos e ataca o contracanto nessa hist\u00f3ria de amor errante. 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