{"id":309,"date":"2018-04-08T15:58:53","date_gmt":"2018-04-08T18:58:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=309"},"modified":"2018-04-08T16:04:35","modified_gmt":"2018-04-08T19:04:35","slug":"tragedia-sem-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/tragedia-sem-fim\/","title":{"rendered":"Trag\u00e9dia sem fim"},"content":{"rendered":"<p><del><br \/>\nPara Umberto Eco, foi um fen\u00f4meno de loucura. O mundo foi virado do avesso em 1968, a partir de uma explos\u00e3o em Paris, que reverberou por todo o mundo ocidental e que, ao completar 50 anos, ainda desafia quem tenta explicar o que aconteceu. Como, ali\u00e1s, previu o soci\u00f3logo Edgar Morin no calor dos acontecimentos.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em maio daquele ano, uma greve geral paralisou e incendiou a Fran\u00e7a com uma grande insurrei\u00e7\u00e3o popular que sacudiu velhas certezas, com alcance inclusive no comportamento social, com a libera\u00e7\u00e3o dos costumes, sexo e liberdades individuais.<\/del><\/p>\n<p>O Brasil vivia sob regime militar; havia passeatas e protestos por todo canto. Antes mesmo dos eventos de Paris, em mar\u00e7o, houve a primeira v\u00edtima. No Rio, um estudante morto pela PM virou s\u00edmbolo \u2013 o corpo de Edson Luis chegou a ser usado como instrumento para furar o bloqueio policial na frente da Assembleia.<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, a pol\u00edcia invadiu a UnB em busca de sete estudantes acusados de subvers\u00e3o, que era o termo usado para qualquer um que se opunha a qualquer coisa. J\u00e1 era agosto. Houve rea\u00e7\u00e3o e confronto, mas a maior v\u00edtima foi um estudante que nunca havia participado de movimentos estudantis. E, como o ano, o drama tamb\u00e9m n\u00e3o terminou.<\/p>\n<p>Waldemar Alves da Silva Filho tinha 27 anos; estava no terceiro ano do curso de engenharia mec\u00e2nica, que nunca conseguiria concluir. Diante da confus\u00e3o provocada pela invas\u00e3o dos soldados, ele foi ver o que estava acontecendo e chegou pr\u00f3ximo ao parapeito do Instituto Central de Ci\u00eancias. Levou um tiro disparado por um tenente.<\/p>\n<p>A bala ficou alojada no c\u00e9rebro. Foram nove dias de coma, muitos outros de interna\u00e7\u00e3o. At\u00e9 hoje Waldemar n\u00e3o recebeu qualquer repara\u00e7\u00e3o pela agress\u00e3o ou pelas sequelas, que permanecem \u2013 perdeu 60% da vis\u00e3o do olho esquerdo e passou a ter dificuldades de racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de muitos jornalistas, cartunistas, professores e outros \u2013 cerca de 10 mil pessoas \u2013 que se opuseram ao regime, todos agraciados com uma gorda indeniza\u00e7\u00e3o paga pela vi\u00fava. Calcula-se que essa repara\u00e7\u00e3o aos anistiados j\u00e1 custou R$ 13,5 bilh\u00f5es de dinheiro p\u00fablico; e n\u00e3o h\u00e1 cobran\u00e7a nem de imposto de renda sobre esses ganhos.<\/p>\n<p>Ainda internado, Waldemar recebeu a visita do ent\u00e3o presidente, Costa e Silva, que deu-lhe um abra\u00e7o e prometeu todo apoio do governo na volta \u00e0 universidade. Foi um pedido de desculpas, mas n\u00e3o adiantou nada: foi jubilado por n\u00e3o conseguir acompanhar o ritmo do curso. Indeniza\u00e7\u00e3o? N\u00e3o se falou disso.<\/p>\n<p>Waldemar \u00e9 irm\u00e3o do Mestre Adilson, refer\u00eancia da capoeira praticada no Distrito Federal e m\u00e9dico que, durante anos, sustentou uma campanha para que o Estado reconhecesse o direito a indeniza\u00e7\u00e3o para o irm\u00e3o. Nunca conseguiu nada e cansou.<\/p>\n<p>1968 foi o ano da passeata dos 100 mil, do primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o feito no Brasil, da promulga\u00e7\u00e3o do AI 5, da conquista do t\u00edtulo de Miss Universo com Martha Vasconcellos e da inaugura\u00e7\u00e3o do MASP. Mas para a fam\u00edlia Alves e amigos, marca apenas uma trag\u00e9dia que cruzou cinco d\u00e9cadas e n\u00e3o tem data para acabar.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 25 de mar\u00e7o de 2018<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Umberto Eco, foi um fen\u00f4meno de loucura. 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