{"id":311,"date":"2018-04-08T16:02:08","date_gmt":"2018-04-08T19:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=311"},"modified":"2018-04-08T16:03:15","modified_gmt":"2018-04-08T19:03:15","slug":"o-preco-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-preco-da-liberdade\/","title":{"rendered":"O pre\u00e7o da liberdade"},"content":{"rendered":"<p><del>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Andava sumido, mas naquela noite ele apareceu satisfeito da vida. Exalava confian\u00e7a, olhava os companheiros de copo com aquela postura dos c\u00e9sares, vencedores; sem d\u00favida, havia triunfado em alguma das batalhas que todos travamos todos os dias, na busca daquela fagulha de felicidade que d\u00e1 sentido \u00e0 vida.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ningu\u00e9m perguntou nada. Nos mandamentos do boteco ningu\u00e9m pergunta nada; se o camarada quiser falar \u00e9 por conta e risco dele \u2013 ali, tudo pode virar prova (ou galhofa) contra o boquirroto. Mas, ao contr\u00e1rio da m\u00e1goa, que pode ser dirimida com um gole da bebida favorita, felicidade \u00e9 um tro\u00e7o que ningu\u00e9m segura. O susto n\u00e3o podia ser maior:<\/del><\/p>\n<p>&#8211; Comprei um paliteiro para mim.<\/p>\n<p>\u00c9 duro ver um companheiro variar. Antes mesmo do Philippe Pinel o mundo tenta decifrar os primeiros sintomas da loucura. Parecia coisa rec\u00e9m adquirida, at\u00e9 porque o paciente, ou melhor, o amigo sempre fora um sujeito formal, de opini\u00f5es firmes, mas sensatas, que ri comedidamente e n\u00e3o perde a linha. Meio chato, at\u00e9.<\/p>\n<p>O doutor Cacau, nosso psicanalista de plant\u00e3o, n\u00e3o estava na roda. Portanto, o camarada ficou com o diagn\u00f3stico nas m\u00e3os de leigos, conceito que herdamos do cristianismo para definir quem n\u00e3o havia recebido as ordens sagradas, mas que ali s\u00f3 servia mesmo para revelar a ignor\u00e2ncia geral, com muitos tons cru\u00e9is.<\/p>\n<p>\u201cPirou\u201d, me cochichou o Chico. De fato, o sorriso permanente era estranho entre as rugas dele, mas fiquei pensando se n\u00e3o seria desd\u00e9m \u2013 ou inveja mesmo \u2013 de todos n\u00f3s, depois de uma quarta-feira dura, com pouca satisfa\u00e7\u00e3o. Foi o pr\u00f3prio Chico o primeiro a explorar melhor a an\u00e1lise, com a delicadeza adquirida no sert\u00e3o sergipano.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 de ouro?\u201d. O camarada pareceu n\u00e3o compreender a pergunta, mas entendeu que era para explica. \u201cQuem aqui tem paliteiro em casa?\u201d, desafiou. A troca de olhares revelou o \u00f3bvio acachapante: ningu\u00e9m. \u00c9 um objeto proibido. E ningu\u00e9m tinha pensado nisso.<\/p>\n<p>\u201cUm paliteiro \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia do homem; mulher tem \u00f3dio de palito. At\u00e9 desses que v\u00eam ensacadinhos\u201d, disse, mostrando um exemplar tirado do galheteiro. Ele falava \u00e0 vera, s\u00e9rio e at\u00e9 contrariado por ningu\u00e9m mais dividir com ele os louros \u2013 ou melhor, as pequenas hastes pontudas de madeira \u2013 da vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>No m\u00ednimo, isso nos leva \u00a0a um mist\u00e9rio do mercado: entender o que faz o imut\u00e1vel rosto da Gina \u2013 na embalagem, se mulheres n\u00e3o perdoam homem que esgaravata os dentes. Mesmo se estiver \u00a0trancado no quarto, no escuro.<\/p>\n<p>Dentistas e mulheres detestam palitos, se recusam a entender que o prazer de tirar um fiapo do bolinho de bacalhau incrustado entre os dentes n\u00e3o tem nada a ver com higiene com fio dental. \u00c9 como dan\u00e7ar com a irm\u00e3; a a\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma, mas o resultado \u00e9 bem diferente.<\/p>\n<p>Nosso amigo exagera na import\u00e2ncia do paliteiro, mas para ele, que n\u00e3o pode pisar no ch\u00e3o da pr\u00f3pria casa de sapatos \u2013 h\u00e1 pantufas na porta, como no Museu Imperial de Petr\u00f3polis \u2013 \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o. Sente-se um D.\u00a0 Pedro I, desembainhando um palito e bradando pela liberdade.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 30 de mar\u00e7o de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Andava sumido, mas naquela noite ele apareceu satisfeito da vida. 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