{"id":320,"date":"2018-04-08T16:15:18","date_gmt":"2018-04-08T19:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=320"},"modified":"2018-04-08T16:15:18","modified_gmt":"2018-04-08T19:15:18","slug":"de-ditado-em-ditado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/de-ditado-em-ditado\/","title":{"rendered":"De ditado em ditado"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; A santo que n\u00e3o conhe\u00e7o, n\u00e3o rezo nem ofere\u00e7o.<\/p>\n<p>No interior do Nordeste, a sabedoria acompanha a mem\u00f3ria do povo desde cedo; em qualquer lugar \u00e9 poss\u00edvel encontrar algu\u00e9m que, mesmo sem ter freq\u00fcentado escola por muito tempo, tem alguma coisa a ensinar, uma palavra sensata, frases que traduzem uma hist\u00f3ria inteira.<\/p>\n<p>Foi assim no bar, onde a tev\u00ea est\u00e1 sempre ligada em jogos de futebol \u2013 qualquer um, at\u00e9 campeonato turco \u2013 e a mesa de sinuca de ficha parece abandonada, com feltro gasto. A voz forte tinha vindo do balc\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou exatamente paremi\u00f3logo, mas o tema interessa. Prov\u00e9rbios, ditos, ad\u00e1gios e m\u00e1ximas fascinam pela concis\u00e3o, pela intelig\u00eancia e pela sabedoria embutidas numa \u00fanica express\u00e3o. Normalmente s\u00e3o frases autoexplicativas, diretas, que n\u00e3o pedem aprofundamento, embora haja exemplos elaborados.<\/p>\n<p>O homem de voz gutural parecia gostar de falar por meio de prov\u00e9rbios. Vez ou outra, no meio do assunto, enfiava um ditado: \u201cN\u00e3o h\u00e1 domingo sem missa, nem segunda sem pregui\u00e7a\u201d, disse, quando falava que a vida na cidade continuava igual como sempre.<\/p>\n<p>Tenho um amigo goiano que gosta de repetir os ensinamentos dos roceiros, para ele mais valiosos do que comp\u00eandios de filosofia. \u201c\u00c1gua que eu n\u00e3o bebo, eu sujo\u201d, costuma repetir sempre que v\u00ea uma mesquinharia. Outra que ele aprendeu enquanto lidava com \u00e1vidos personagens da pol\u00edtica: \u201co saco de querer n\u00e3o enche\u201d.<\/p>\n<p>Mas naquele ambiente simples, narrados no mesmo tom em que Charlton Heston ouviu os dez mandamentos quando viveu o Mois\u00e9s de Cecil B. de Mille, os apotegmas pareciam ainda mais significativos. \u201cPara derrubar uma \u00e1rvore na metade do tempo \u00e9 preciso passar o dobro do tempo amolando o machado\u201d, disse ele a prop\u00f3sito de um assunto qualquer.<\/p>\n<p>Resolvi anotar alguns: \u201cAmizade remendada \u00e9 como caf\u00e9 requentado\u201d, \u201ccaem as rosas, mas ficam os espinhos\u201d, \u201cboi ladr\u00e3o n\u00e3o amanhece em ro\u00e7a\u201d, \u201cn\u00e3o se faz bom pano de algod\u00e3o velho\u201d. Para todo assunto ele sacava um ditado que funcionava como uma ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu era novato ali; apareci para tomar cerveja e filar uns minutos de futebol. Os demais o conheciam de praticamente todo dia. \u201cCoice de \u00e9gua n\u00e3o machuca cavalo\u201d, disse, depois de concluir uma piada sobre marido e mulher. Mas \u201cmulher com cabelo nas ventas, nem o diabo ag\u00fcenta\u201d, lembrou, caindo na risada.<\/p>\n<p>O assunto virou para a economia. O ver\u00e3o n\u00e3o foi o prometido, choveu demais e para quem vive do turismo foi ruim. S\u00f3 quem tinha plantado uma ro\u00e7a comemorava. O milho pegou sol demais, mas o feij\u00e3o vai vingar bonito nos pr\u00f3ximos dias. Ele sacou uma quadra de cordel: \u201cSe o Pa\u00eds fica mais rico\/ O povo \u00e9 quem padece\/ Pois l\u00e1 em cima sobe mais\/ E aqui de baixo mais desce\/ Do que vale mais dinheiro\/ Se o Brasil \u00e9 dos primeiros\/ Onde a desigualdade cresce\u201d.<\/p>\n<p>Ele levantou-se, come\u00e7ou as despedidas, mas o ne\u00f3fito queria ouvir mais. Perguntei se ele voltaria ao bar no dia seguinte. Claro que a resposta veio na forma de ditado: \u201cCuidado, quem mexe com galinha acaba comendo farelo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 6 de abril de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; A santo que n\u00e3o conhe\u00e7o, n\u00e3o rezo nem ofere\u00e7o. No interior do Nordeste, a sabedoria acompanha a mem\u00f3ria do povo desde cedo; em qualquer lugar \u00e9 poss\u00edvel encontrar algu\u00e9m que, mesmo sem ter freq\u00fcentado escola por muito tempo, tem alguma coisa a ensinar, uma palavra sensata, frases que traduzem uma hist\u00f3ria inteira. 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