{"id":322,"date":"2018-04-16T09:59:09","date_gmt":"2018-04-16T12:59:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=322"},"modified":"2018-04-16T09:59:09","modified_gmt":"2018-04-16T12:59:09","slug":"nao-quero-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/nao-quero-saber\/","title":{"rendered":"N\u00e3o quero saber"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje lamento o dia em que soube que torresmo faz mal \u00e0 sa\u00fade. Al\u00e9m de ajudar a entupir as coron\u00e1rias, agora sei que aquela del\u00edcia aumenta em 19% o risco de c\u00e2ncer no p\u00e2ncreas. E que o croquete velho de guerra prejudica o trabalho do intestino, engarrafando a sa\u00edda, al\u00e9m de maltratar o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 sei que a gente deve passar longe de batata frita, mesmo a servida no Silvio\u2019s (114 norte) e que est\u00e1 entre as sete maravilhas dos botecos da cidade. Fui saber porque \u2013 mesmo fazendo mal \u2013 a fritura atrai tanto: ela ressalta as propriedades organol\u00e9pticas, aquelas que s\u00e3o percebidas pelos sentidos. Literalmente, uma tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: viver bem faz mal \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Outro dia fiquei namorando a vitrine-estufa do Bar do Luis\u00e3o (no com\u00e9rcio do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar do Lago Norte) para ver se alguma coisa ali era recomend\u00e1vel para petiscar sem afrontar demais a complei\u00e7\u00e3o de carne, nervos e ossos que me carrega. Escolhi \u2013 e recomendo \u2013 o repolho recheado, digno de homenagens, mas logo me apareceu um estraga-prazeres dizendo para n\u00e3o exagerar.<\/p>\n<p>Pelo andar da carruagem vou ter que limitar a petiscagem \u2013 se \u00e9 que isso existe \u2013 ao talo de couve com azeite e (pouco) sal que \u00e9 bom mas, pelo que eu saiba, nunca ganhou pr\u00eamio nesses concursos de boteco.<\/p>\n<p>Sigo um conselho do meu av\u00f4 Jo\u00e3o: tem coisa que \u00e9 melhor n\u00e3o saber. \u00c9 o que dizia sempre que eu perguntava como era feita aquela lingui\u00e7a preta e de maus bofes, frita na hora, que ele saboreava com tanto gosto. Hoje eu sei como \u00e9 feito um chori\u00e7o, mas finjo que n\u00e3o sei e como com prazer.<\/p>\n<p>Agora mesmo ando temeroso com uma decis\u00e3o judicial que obriga as cervejarias a informar todos os ingredientes usados na fabrica\u00e7\u00e3o da bebida. N\u00e3o sei se quero saber tudo o que \u00e9 fervido no caldeir\u00e3o de onde sai a Serra Malte. Ali\u00e1s, se algu\u00e9m souber n\u00e3o me conte.<\/p>\n<p>Nos r\u00f3tulos de algumas cervejas vem escrito que na composi\u00e7\u00e3o da f\u00f3rmula entram cereais n\u00e3o maltados, mas o juiz acha que isso n\u00e3o basta, que \u00e9 preciso determinar quais s\u00e3o esses cereais.\u00a0 Milho? Arroz? Sorgo? Aveia?<\/p>\n<p>Acho que eu ia me sentir um nelore se soubesse que tem sorgo no meu copo \u2013 mal comparando, \u00e9 a mesma sensa\u00e7\u00e3o de quando cai uma mosca no copo. Aveia me lembra a inf\u00e2ncia e aquele sujeito de chap\u00e9u preto no r\u00f3tulo, mas cerveja n\u00e3o \u00e9 para menores; nem para quakers, que n\u00e3o bebem \u00e1lcool. N\u00e3o teria problema com milho e arroz.<\/p>\n<p>Na Alemanha \u2013 desde 1516, quando o duque Wilhelm IV teve uma ressaca monstruosa \u2013 vale a lei da pureza, que determina que a cerveja s\u00f3 pode ter tr\u00eas ingredientes: malte, l\u00fapulo e \u00e1gua. Mas a verdade \u00e9 que alguma das melhores cervejas do mundo s\u00e3o fabricadas com outros cereais, inclusive na Alemanha, onde se usa milho (que elimina o aspecto opaco do l\u00edquido) e trigo (presente tamb\u00e9m nas witbiers belgas).<\/p>\n<p>Seja como for, vou continuar sem ler os r\u00f3tulos.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 13 de abril de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje lamento o dia em que soube que torresmo faz mal \u00e0 sa\u00fade. Al\u00e9m de ajudar a entupir as coron\u00e1rias, agora sei que aquela del\u00edcia aumenta em 19% o risco de c\u00e2ncer no p\u00e2ncreas. E que o croquete velho de guerra prejudica o trabalho do intestino, engarrafando a sa\u00edda, al\u00e9m de maltratar o cora\u00e7\u00e3o. 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