{"id":324,"date":"2018-04-16T10:04:00","date_gmt":"2018-04-16T13:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=324"},"modified":"2018-04-16T10:04:00","modified_gmt":"2018-04-16T13:04:00","slug":"nossos-olhos-azuis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/nossos-olhos-azuis\/","title":{"rendered":"Nossos olhos azuis"},"content":{"rendered":"<p>Por muitos anos, e gra\u00e7as \u00e0 pena de Nelson Rodrigues, acreditamos que um simples jogo de futebol havia nos livrado do complexo de vira-latas que pesava sobre os ombros brasileiros desde sempre. Ou pelo menos desde que o conde franc\u00eas Arthur de Gobineau desembarcou no Rio de Janeiro, em 1845, e chamou os cariocas de \u201cmacacos\u201d.<\/p>\n<p>O inapel\u00e1vel placar de 5 a 2 sobre a Su\u00e9cia faz 60 anos no pr\u00f3ximo dia 29 de junho; foi a primeira vez que o Brasil conquistou a derretida ta\u00e7a Jules Rimet e Nelson Rodrigues exultou: \u201cA partir da vit\u00f3ria, o brasileiro passa a acreditar em si mesmo e no Brasil.\u201d<\/p>\n<p>Durante algum tempo foi o que aconteceu: houve Bras\u00edlia, a bossa nova, a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds rural \u2013 o mundo parecia ter os olhos voltados para o sul. \u00c9ramos os maiorais, o pa\u00eds do futuro preconizado por Zweig.<\/p>\n<p>Mas antes da \u00e9pica conquista, intelectuais debatiam a suposta inferioridade nacional. Alguns chegaram a culpar o clima quente, que favoreceria a pregui\u00e7a.<\/p>\n<p>O escritor Monteiro Lobato, em sua cruzada sanitarista, acreditava que o problema eram as lombrigas e criou a hist\u00f3ria do Jeca Tatu, que s\u00f3 tinha \u00e2nimo para \u201cbeber pinga e espichar-se ao sol, no terreiro\u201d. E apresentou a cura: o Biot\u00f4nico Fontoura. Era merchandising.<\/p>\n<p>Mas a tese mais difundida para explicar o complexo nacional, incluindo Lobato e o psiquiatra (entre tantas coisas) Nina Rodrigues, era a miscigena\u00e7\u00e3o. A mistura de ra\u00e7as seria a culpada por nossos desacertos, j\u00e1 que a tese de embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o \u2013 do final de s\u00e9culo XIX \u2013 n\u00e3o tinha vingado.<\/p>\n<p>Esse pensamento est\u00e1 retratado no \u00f3leo <em>A Reden\u00e7\u00e3o de Cam<\/em>, de Modesto Brocos, exposto no Museu de Belas Artes do Rio e que mostra uma fam\u00edlia brasileira: av\u00f3 negra, filha mulata, marido branco e crian\u00e7a branca \u2013 a av\u00f3 aparece com bra\u00e7os levantados e olhando para o alto, como se agradecesse a gra\u00e7a de ter um neto branco.<\/p>\n<p>O poeta Olavo Bilac descreveu a cena: \u00a0&#8220;Vede a aurora-crian\u00e7a, como sorri e fulgura, no colo da mulata &#8211; aurora filha do dil\u00favio, neta da noite. Cam est\u00e1 redimido! Est\u00e1 gorada a praga de No\u00e9!&#8221;. Cam, ensina a B\u00edblia, \u00e9 o filho amaldi\u00e7oado de No\u00e9, que teria dado origem aos povos africanos de pele escura, herdeiros da puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mistura de ra\u00e7as \u2013 hoje um mito, gra\u00e7as \u00e0 ci\u00eancia sabemos que n\u00e3o h\u00e1 como separar humanos em grupos t\u00e3o distintos \u2013 foi incorporada \u00e0 cultura nacional. A m\u00fasica ajudou, \u00e0s vezes com preconceito (\u201cmas como a cor n\u00e3o pega, mulata eu quero o seu amor\u201d), outras exortando (\u201c\u00c9 sangue, e suor, religi\u00e3o, mistura de ra\u00e7as num s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o\u201d).<\/p>\n<p>Mas eis que ficamos sabendo que o complexo de vira-latas voltou. Estamos importando olhos azuis. O Washington Post publicou e a Anvisa confirma que a mulherada brasileira est\u00e1 encomendando s\u00eamens dos Estados Unidos e que trazem pele alva, cabelos louros e olhos claros no DNA. Parece que estamos com vergonha de parecer brasileiros.<\/p>\n<p>Que a sele\u00e7\u00e3o nos redima na R\u00fassia. Como gosta de repetir um amigo: \u00f4, ra\u00e7a!<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 15 de abril de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por muitos anos, e gra\u00e7as \u00e0 pena de Nelson Rodrigues, acreditamos que um simples jogo de futebol havia nos livrado do complexo de vira-latas que pesava sobre os ombros brasileiros desde sempre. Ou pelo menos desde que o conde franc\u00eas Arthur de Gobineau desembarcou no Rio de Janeiro, em 1845, e chamou os cariocas de \u201cmacacos\u201d. 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