{"id":344,"date":"2018-05-04T07:48:07","date_gmt":"2018-05-04T10:48:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=344"},"modified":"2018-05-04T07:49:43","modified_gmt":"2018-05-04T10:49:43","slug":"desgracas-musicais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/desgracas-musicais\/","title":{"rendered":"Desgra\u00e7as musicais"},"content":{"rendered":"<p>O r\u00e1dio do carro estava no modo aleat\u00f3rio (shuffle), procurando uma emissora, quando come\u00e7ou a tocar uma can\u00e7\u00e3o\u00a0sobre\u00a0uma menina de olhos tristes, presa a uma cadeira de rodas; um drama. A m\u00fasica \u00e9 de Fernando Mendes, especialista em trag\u00e9dias musicadas \u2013chegou a ser censurado em 1974 por <em>Meu Pequeno Amigo<\/em>, que tinha como tema o sequestro do menino Carlinhos, um ano antes, que nunca mais foi visto.<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 que, dias antes, convers\u00e1vamos \u2013 n\u00e3o me pergunte porque \u2013 sobre Amado Batista, quando um amigo, com voz solene, declamava os versos de <em>Amor Perfeito<\/em>. Primeiro sucesso do compositor goiano, descrevia a morte da mulher, durante o parto: \u201cseu sorriso aos poucos se desfazendo, ent\u00e3o vi voc\u00ea morrendo, sem pode me despedir\u201d.<\/p>\n<p>Dramalh\u00f5es s\u00e3o mat\u00e9ria prima de grande parte das m\u00fasicas populares, uma heran\u00e7a das \u00f3peras italianas. Nos tangos, boleros e sambas can\u00e7\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 lugar para uma nesga de alegria; entre os chamados bregas, a trag\u00e9dia chega \u00e0s raias do suic\u00eddio, como se m\u00fasica fosse feita para chorar e fazer sofrer.<\/p>\n<p>Num dos artigos de seu livro <em>Cantos e Encantos<\/em>, o pesquisador Renato Vivacqua, h\u00e1 anos radicado em Bras\u00edlia e que recentemente, e infelizmente, anunciou sua aposentadoria como pesquisador da m\u00fasica brasileira, faz uma colet\u00e2nea desses dramas sonoros. Come\u00e7a com Vicente Celestino, claro, deixando claro a veia oper\u00edstica da desgra\u00e7a.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vicente Celestino canta &quot;Cora\u00e7\u00e3o Materno&quot; (1951)\" width=\"1440\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/I_03HjYehYE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Come\u00e7a com <em>Cora\u00e7\u00e3o Materno<\/em> (1937), a absurda hist\u00f3ria de um campon\u00eas que, para provar seu amor, arranca o cora\u00e7\u00e3o do peito da pr\u00f3pria m\u00e3e para entreg\u00e1-lo \u00e0 amada. S\u00e3o imagens horripilantes: \u201cTira do peito sangrando, da velha m\u00e3ezinha o pobre cora\u00e7\u00e3o, e volta, a correr, proclamando, vit\u00f3ria! Vit\u00f3ria tem minha paix\u00e3o!\u201d. A situa\u00e7\u00e3o fica pior quando o homem cai, quebra a perna, o cora\u00e7\u00e3o vai ao ch\u00e3o e ele ouve: \u201cVem buscar-me, eu ainda sou seu\u201d.<\/p>\n<p>Ainda do repert\u00f3rio de Celestino, Vivacqua lembra <em>Calv\u00e1rio<\/em>, drama de um tuberculoso terminal que deseja beijar a m\u00e3e, mas teme transmitir a doen\u00e7a. As imagens s\u00e3o cru\u00e9is: \u201cSobre uma cama carcomida, parecia, com a tristeza das mais tristes pris\u00f5es, ele rolava o dia inteiro, prisioneiro, do mal terr\u00edvel que ro\u00eda os seus pulm\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Vivacqua faz um invent\u00e1rio das maiores trag\u00e9dias musicadas. Algumas s\u00e3o conhecidas, como <em>Cora\u00e7\u00e3o de Luto<\/em>, de Teixeirinha, maldosamente apelidada de churrasquinho de m\u00e3e, que narra um inc\u00eandio e a consequente morte da m\u00e3e. Outras, esquecidas, como <em>O Castigo da Cruz<\/em>, gravada por Pardinho e Pardal, hist\u00f3ria de um profanador que, no final, recebe um recado do finado pai: \u201cO vulto falou: meu filho, n\u00e3o pratiques isso mais, voc\u00ea tentou arrancar a cruz de seu pr\u00f3prio pai\u201d.<\/p>\n<p>Mas a lista \u00e9 intermin\u00e1vel, vai do <em>Chico Mineiro<\/em>, que s\u00f3 depois de morto \u00e9 reconhecido pelo irm\u00e3o, a <em>Pretinho Aleijado<\/em>, sobre um rapaz maneta que mesmo depois de morto tocava o sino da igreja. Mesmo estrelas de insuper\u00e1vel grandeza, como Francisco Alves, cantaram tr\u00e1g\u00e9dias, caso de Trahi\u00e7\u00e3o (1928), de Joubert de Carvalho: \u201cMulher perjura hei de esmagar-te, apunhalar-te o cora\u00e7\u00e3o, ensanguentaste a f\u00e9 mais pura, de uma candura, numa trai\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 uma catarse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O r\u00e1dio do carro estava no modo aleat\u00f3rio (shuffle), procurando uma emissora, quando come\u00e7ou a tocar uma can\u00e7\u00e3o\u00a0sobre\u00a0uma menina de olhos tristes, presa a uma cadeira de rodas; um drama. 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