{"id":350,"date":"2018-05-05T12:21:04","date_gmt":"2018-05-05T15:21:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=350"},"modified":"2018-05-05T12:21:04","modified_gmt":"2018-05-05T15:21:04","slug":"como-era-doce-borracharia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/como-era-doce-borracharia\/","title":{"rendered":"Como era doce a borracharia"},"content":{"rendered":"<p>A tecnologia j\u00e1 resolveu um monte de problemas, mas alguns continuam a perturbar nosso ju\u00edzo. N\u00e3o \u00e9 um absurdo pneu furar? Ex-leitor dos quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rodgers (e s\u00f3 porque n\u00e3o publicam mais!), ex-telespectador de Os Jetsons, cheguei a sonhar que um dia viveria num mundo sem rodas. E, portanto, sem pneus furados.<\/p>\n<p>J\u00e1 tiraram a c\u00e2mara de ar, selando o pneum\u00e1tico diretamente no aro, mas a borracha ainda \u00e9 vulner\u00e1vel a um prego de 10 cent\u00edmetros que me obrigou a tirar o macaco e colocar m\u00e3os \u00e0 obra. E tamb\u00e9m \u00e9 impressionante como os macacos, desmentindo Darwin, n\u00e3o evolu\u00edram \u2013 ao contr\u00e1rio, s\u00e3o mais complicados de operar do que seus antecessores.<\/p>\n<p>Mas enquanto sujava as m\u00e3os e as cal\u00e7as num completo sem-jeito para colocar o estepe, uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de felicidade invadiu o c\u00e9rebro como se tivesse sido atingido por uma overdose de serotonina e dopamina. Voltei uns bons anos e me lembrei da primeira vez que, ainda menino de cal\u00e7a curta, fui a uma borracharia.<\/p>\n<p>Um espet\u00e1culo. N\u00e3o aquele bando de marmanjos sujos de graxa, mas as paredes, forradas de calend\u00e1rios de todos os jeitos, com mo\u00e7as lindas em poses que eu n\u00e3o entendia bem, mas certamente gostava.\u00a0 Quase todas estavam de biqu\u00edni, mostravam muito pouco al\u00e9m das curvas mais aparentes, mas que beleza&#8230;<\/p>\n<p>Entorpecido pelas imagens do passado, fiquei at\u00e9 feliz de trocar o pneu e ter que leva-lo \u00e0 borracharia. Como estariam as mo\u00e7as nos calend\u00e1rios atuais?<\/p>\n<p>N\u00e3o haviam de ser comportadas como as de antanho; como Rose di Primo, de biqu\u00edni, sentada numa motocicleta e provocando o voyeur \u2013 e quase me fazendo corar. S\u00e3o coisas que n\u00e3o cabem mais neste mundo expl\u00edcito. Haveria de ser diferente.<\/p>\n<p>A realidade, no entanto, era acachapante, irrefut\u00e1vel, cruel: os homens sujos de graxa continuavam ali, mas as paredes eram uma desola\u00e7\u00e3o completa. Tirante um p\u00f4ster do Vasco, desbotado pela escassez de vit\u00f3rias, s\u00f3 manchas e conversa fiada sobre a miss\u00e3o da empresa, quadrinhos com diplominhas e coisas sem import\u00e2ncia. Foto que \u00e9 bom nada. Mulher, s\u00f3 a mo\u00e7a do caixa.<\/p>\n<p>Assuntei. O rapaz fez uma cara de espanto como se eu estivesse falando de um tempo e de um lugar que nunca existiram, uma Atl\u00e2ntida submersa, uma Kandor engarrafada. Ele mal sabia o que era uma folhinha e a \u00faltima que tinha visto era de um pol\u00edtico.<\/p>\n<p>N\u00e3o sosseguei e fui atr\u00e1s. Melhor teria sido ficar quieto. Uma grande f\u00e1brica de pneus italiana ainda produz seus calend\u00e1rios anuais; mas quando desperd\u00edcio! O mais recente, 2013, foi criado por Steve McCurry, fot\u00f3grafo norte-americano especializado em guerra.<\/p>\n<p>O sujeito tinha Isabeli Fontana, Sonia Braga e Adriana Lima, entre outros espet\u00e1culos, diante da lente. Mas resolveu fazer arte. (Tem hora que a gente tem que odiar artista mesmo;\u00a0 isso \u00e9 hora de fazer arte?).<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que tive que ficar l\u00e1, esperar o sujeito mergulhar meu pneu no tanque, remendar, tirar o estepe e pagar. E sair na certeza que a minha inf\u00e2ncia era muito mais legal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tecnologia j\u00e1 resolveu um monte de problemas, mas alguns continuam a perturbar nosso ju\u00edzo. N\u00e3o \u00e9 um absurdo pneu furar? Ex-leitor dos quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rodgers (e s\u00f3 porque n\u00e3o publicam mais!), ex-telespectador de Os Jetsons, cheguei a sonhar que um dia viveria num mundo sem rodas. E, portanto, sem pneus furados. J\u00e1 tiraram a c\u00e2mara [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[215,217,25,216],"class_list":["post-350","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronica","tag-borracharia","tag-calendario","tag-cronica","tag-modelos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/350","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=350"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/350\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":351,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/350\/revisions\/351"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=350"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=350"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=350"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}