{"id":354,"date":"2018-05-06T12:31:40","date_gmt":"2018-05-06T15:31:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=354"},"modified":"2018-05-06T12:31:40","modified_gmt":"2018-05-06T15:31:40","slug":"%ef%bb%bf-eu-leucocomo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/%ef%bb%bf-eu-leucocomo\/","title":{"rendered":"Velhas palavras novas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Prazer n\u00e3o se explica. O dicion\u00e1rio at\u00e9 define o que \u00e9; mas n\u00e3o explica. A embalagem pode ser uma garrafa de vinho, um corpo fornido, uma companhia ou at\u00e9 mesmo a solid\u00e3o. Alguns prazeres s\u00e3o t\u00e3o \u00edntimos que a gente nem confessa. De outros \u00e9 poss\u00edvel falar.<\/p>\n<p>Eu tenho um fraco por palavras novas. T\u00e1 certo, sei que \u00e9 uma coisa idiota, mas a descoberta de uma nova fus\u00e3o de s\u00edlabas \u2013 mais do que a uni\u00e3o de fonemas; a palavra falada afeta menos aos nervos \u2013 ainda \u00e9 capaz de me causar comich\u00f5es.<\/p>\n<p>Dia desses me deparei com uma palavra que eu nunca tinha visto e, com meus parcos conhecimentos do grego, n\u00e3o consegui desvendar os radicais: leuc\u00f3como. Busquei socorro no Houaiss para descobrir que trata-se uma pessoa que tem cabelos brancos.<\/p>\n<p>Quem diria, sou um leuc\u00f3como. Leuc\u00f3como pacas, ali\u00e1s.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m descobri que fun\u00e2mbulo \u00e9 um sujeito que muda de opini\u00e3o facilmente, mas que originalmente a palavra descrevia um equilibrista de arame \u2013 ou seja, uma evolu\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica. O contr\u00e1rio de famigerado, que na origem designava apenas um sujeito famoso, mas que agora praticamente exige que a fama venha de uma coisa muito ruim.<\/p>\n<p>H\u00e1 palavras que s\u00e3o t\u00e3o espec\u00edficas e restritas que parecem desperd\u00edcio, mas que oferecem defini\u00e7\u00f5es ricas. Par\u00e9lio \u00e9 uma delas: descreve um fen\u00f4meno atmosf\u00e9rico que n\u00e3o \u00e9 apenas a imagem do sol refletida numa nuvem, mas exige que ela apare\u00e7a intensamente em dois pontos, dando a impress\u00e3o de que h\u00e1 mais de um sol.<\/p>\n<p>Outra \u00e9 algor, defini\u00e7\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o do frio. Ant\u00f4nimo de calor.<\/p>\n<p>E h\u00e1 sin\u00f4nimos t\u00e3o fascinantes quanto a d\u00favida original. Far\u00e2ndula, por exemplo. \u00c9 o mesmo que uma cai\u00e7alha, uma r\u00e9cova; canzoada, s\u00facia, choldra. Todos coletivos de fac\u00ednoras.<\/p>\n<p>Sin\u00f4nimos s\u00e3o \u00f3timos para lustrar verdades hirsutas \u2013 cabeludas, diriam os parvos. Para que dizer safadeza se pode-se dizer salacidade? Mais chique e n\u00e3o diminui a sem-vergonhice alheia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 necessidade de chamar ningu\u00e9m de frouxo, tendo-se \u00e0 m\u00e3o adjetivos como fl\u00e9bil, ou t\u00edbio, que valorizam qualquer covarde. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso xingar o sujeito de imbecil. Basta nomin\u00e1-lo de pac\u00f3vio \u2013 no m\u00ednimo ele vai desistir da briga e ir ao dicion\u00e1rio para saber se, al\u00e9m de est\u00fapido, \u00e9 um ignorante.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria humana \u00e9 incapaz de guardar os 400 mil voc\u00e1bulos da l\u00edngua portuguesa \u2013 e isto sem contar os termos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos. Palavras que a gente aprende agora, por falta de uso, ser\u00e3o esquecidas ali mesmo na esquina, quando voc\u00ea tomar um caldo de cana.<\/p>\n<p>\u00c9 palavra demais. Raul Seixas cantava: \u201cao meu lado um dicion\u00e1rio, cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar\u201d. Mas \u00e9 por isso que o vocabul\u00e1rio se renova, encontra outros significados para velhas palavras.<\/p>\n<p>Um delicioso exemplo \u00e9 o voc\u00e1bulo sinistro, que fez uma viagem completa. L\u00e1 atr\u00e1s era apenas um sin\u00f4nimo de canhoto; depois passou a ser algo infausto, agourento e pernicioso. Virou bacana, descolado. N\u00e3o se sabe aonde pode chegar.<\/p>\n<p>Tanta palavra pode n\u00e3o adiantar muito, mas pelo menos serve para completar os quadrinhos das palavras cruzadas.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Prazer n\u00e3o se explica. 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