{"id":360,"date":"2018-05-25T11:34:58","date_gmt":"2018-05-25T14:34:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=360"},"modified":"2018-05-25T11:34:58","modified_gmt":"2018-05-25T14:34:58","slug":"onde-andam-os-tremocos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/onde-andam-os-tremocos\/","title":{"rendered":"Onde andam os tremo\u00e7os?"},"content":{"rendered":"<p>Ainda bem que tem essas lojas que alugam roupa. Da pr\u00f3xima vez que me convidarem para ir num boteco que n\u00e3o conhe\u00e7a, passo por uma delas antes para pegar uma casaca, cartola e, quem sabe, polainas. Ainda mais se for um desses estabelecimento que participam do tal concurso Comida di Buteco, que de simples s\u00f3 tem letra \u2018i\u2019 no lugar do \u2018e\u2019 original da preposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fui olhar o cat\u00e1logo desse ano e quase engasguei apenas lendo a descri\u00e7\u00e3o dos pratos. At\u00e9 o Amig\u00e3o, antes um copo-sujo de respeito, caiu na esparrela da cozinha chique e cheia de gueri-gueri do mundo de salamaleques politicamente corretos. L\u00e1 o sujeito pode pedir um bolinho de pernil envolvido numa crosta crocante de torresmo, acompanhado de an\u00e9is de cebola empanados na cerveja. Fiquei sem jeito de estar ali com camisa de meia e cal\u00e7a Lee.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave nos bares de gente que fala baixo e usa guardanapo de pano, caso do Victrola. L\u00e1, o petisco \u00e9 bisteca su\u00edna com cebola caramelizada e geleia de bacon, acompanhado de farofa e vinagrete. Eu n\u00e3o entendo nada de harmoniza\u00e7\u00e3o gourmet, mas tenho certeza que n\u00e3o d\u00e1 para tomar cerveja comendo caramelo.<\/p>\n<p>E este me parece ser o grande problema desses novos chefs de cozinha que invadiram os botequins: eles gostam de comer; a bebida \u00e9 um acess\u00f3rio, quase uma alegoria j\u00e1 que eles gostam de misturar as coisas e botar um chapeuzinho do copo.<\/p>\n<p>\u00c9 mais uma invers\u00e3o do mundo moderno, uma vez que o petisco nasceu como tira-gosto; ou seja, para disfar\u00e7ar o sabor das pingas, u\u00edsques e cervejas de m\u00e1 qualidade. Desde que tivesse sabor pronunciado, valia tudo: torresmo, lingui\u00e7a, queijo. At\u00e9 uma banda de lim\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-361\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/tremoco-300x151.jpg\" alt=\"tremoco\" width=\"300\" height=\"151\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/tremoco-300x151.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/tremoco-550x276.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/tremoco-230x115.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/tremoco.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>E assim os tremo\u00e7os sumiram dos bares, como as azeitoninhas, pepinos e outras conservas picantes. No mesmo f\u00e9retro, seguiram o tra\u00e7ado (pinga com vermute), o bombeirinho (pinga com groselha), o samba (pinga com refrigerante), a maria-mole (conhaque com vermute) e outros tradicionais drinques de botecos populares, fontes de coragem e vigor para tanta gente boa.<\/p>\n<p>A sorte \u00e9 que tudo passa. Daqui a pouco essa gera\u00e7\u00e3o que exibe o penteado \u00e0 Pr\u00edncipe Danilo, homenagem ao grande craque do Vasco, vai ter barriguinha de chope e descobrir que a maior qualidade de um boteco \u00e9 servir de ref\u00fagio e n\u00e3o de ponto de badala\u00e7\u00e3o. E vai saber que o bom acompanhamento para uma bebida (at\u00e9, ou principalmente) as de boa qualidade) \u00e9 uma conversa macia e um petisco picante.<\/p>\n<p>Por enquanto, a baixa gastronomia vive momentos de confus\u00e3o. Outro dia, num estabelecimento que tinha at\u00e9 mo\u00e7o para estacionar carro, a isca de peixe veio acompanhada de um recipiente com lavanda. Quem est\u00e1 acostumado com ambientes sofisticados sabe que \u00e9 para lavar a pontinha dos dedos, mas o nosso amigo, criado no botequim, bebeu de um gole s\u00f3. E reclamou: \u201co aperitivo est\u00e1 quente!\u201d<\/p>\n<p>Para nos redimir, o Pardim concorre nesse tal Comida di Boteco com um prosaico f\u00edgado com jil\u00f3; nem experimentei, mas j\u00e1 tem meu voto.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 18 de maio de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda bem que tem essas lojas que alugam roupa. Da pr\u00f3xima vez que me convidarem para ir num boteco que n\u00e3o conhe\u00e7a, passo por uma delas antes para pegar uma casaca, cartola e, quem sabe, polainas. 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