{"id":363,"date":"2018-05-25T11:41:39","date_gmt":"2018-05-25T14:41:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=363"},"modified":"2018-05-25T11:41:39","modified_gmt":"2018-05-25T14:41:39","slug":"noite-fria-papo-quente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/noite-fria-papo-quente\/","title":{"rendered":"Noite fria, papo quente"},"content":{"rendered":"<p>Nada como um polemista da velha escola. Provocar ciz\u00e2nia nas redes sociais \u00e9 f\u00e1cil; basta cavoucar os instintos mais primitivos e, freudianamente, despejar aleatoriamente o subproduto que vier \u00e0 tona. E o fundamentalismo assume o comando, como vemos nessa insana disputa para decidir quem \u00e9 o menos canalha da vida brasileira.<\/p>\n<p>Diferente \u00e9 o polemista que desafina o coro dos contentes. Marreta anda sumido do bar; sinal dos tempos duros que v\u00eam com o avan\u00e7o da idade e que exigem per\u00edodos de absten\u00e7\u00e3o. Ainda assim, \u00e9 sempre lembrado, at\u00e9 porque virou verbo: quando algu\u00e9m faz alguma afirma\u00e7\u00e3o muito perempt\u00f3ria, entre n\u00f3s est\u00e1 a \u2018marretar\u2019.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-364\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/lua-coruja-300x200.jpg\" alt=\"lua-coruja\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/lua-coruja-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/lua-coruja-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/lua-coruja-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/lua-coruja-550x367.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/lua-coruja-230x153.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/lua-coruja.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Ele tem certeza, por exemplo, que o homem nunca foi \u00e0 lua. N\u00e3o chega a ser incomum encontrar algum c\u00e9tico que acha imposs\u00edvel que um foguete tenha lan\u00e7ado um sat\u00e9lite pequeno com tr\u00eas pessoas dentro, e que duas sa\u00edram para passear naquele poeir\u00e3o, fincaram uma bandeira e desalojaram S\u00e3o Jorge e o drag\u00e3o. Estranho \u00e9 que o Marreta \u00e9 engenheiro; est\u00e1 longe de ser um ignorante.<\/p>\n<p>Ano que vem a proeza faz 50 anos, mas ele insiste que \u00e9 tudo produ\u00e7\u00e3o de Hollywood. E desfia uma s\u00e9rie de argumentos que deve ter recolhido daqueles jornais com not\u00edcias falsas que circulavam anunciando mais uma apari\u00e7\u00e3o do chupa-cabra ou do Elvis. No bar, sabe-se, tudo vira assunto; e quando rende uma discuss\u00e3o, melhor ainda.<\/p>\n<p>Mas naquela noite, t\u00e3o fria que for\u00e7ou a substitui\u00e7\u00e3o da cerveja pelo conhaque de gengibre, apareceu um sujeito que poucos tinham visto por ali. Ele entabulava uma conversa em outra mesa, mas n\u00e3o houve como n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o pelo volume, pelo tema. Ali\u00e1s, \u00e9 preciso esclarecer que, na \u00e9tica do botequim, n\u00e3o \u00e9 feio prestar aten\u00e7\u00e3o na conversa alheia; ao contr\u00e1rio, \u00e9 imperativo participar de todo assunto.<\/p>\n<p>O rapaz era um terraplanista. Sab\u00edamos do movimento, mas \u00e9 estranhamente fascinante ver que realmente existe quem sustenta que o planeta \u00e9 plano, cercado por um muro de gelo e sob um domo que abrigaria o sol e a lua (n\u00e3o explicam os outros planetas). E derramava teorias que deixam os absurdos do Marreta no chinelo.<\/p>\n<p>Ainda citou terraplanistas famosos \u2013 como o jogador de basquete Shaquille O\u2019Neal, o que \u00e9 compreens\u00edvel, porque ele \u00e9 t\u00e3o alto que vive com a cabe\u00e7a nas nuvens. Em comum com o nosso Marreta, h\u00e1 a certeza de que o homem nunca foi \u00e0 lua.<\/p>\n<p>\u00c9 bom esclarecer que nossa mesa era formada apenas por globalistas, como s\u00e3o chamados os que sabem que a Terra \u00e9 redonda, at\u00e9 porque estudamos que o portugu\u00eas Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es levou quatro anos para navegar em volta do planeta \u2013 terminou a viagem em 1522. Ademais, s\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0 \u00fanica Lei respeitada em toda parte do mundo, a lei da gravidade.<\/p>\n<p>Mas o Faixa, que sempre chega depois, foi quem tirou o sujeito do s\u00e9rio quando disse que havia tomado vacina contra a gripe. Com o r\u00fatilo olhar da certeza, o rapaz disse: \u201cNunca mais fa\u00e7a isso. Vacinas matam!\u201d. A\u00ed a conversa esquentou a noite.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 25 de maio de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada como um polemista da velha escola. 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