{"id":366,"date":"2018-05-25T11:50:33","date_gmt":"2018-05-25T14:50:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=366"},"modified":"2018-05-25T11:50:33","modified_gmt":"2018-05-25T14:50:33","slug":"capital-de-madeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/capital-de-madeira\/","title":{"rendered":"A capital de madeira"},"content":{"rendered":"<p>O mundo conhece Bras\u00edlia por causa do concreto mas, logo depois do ermo, o que deu forma \u00e0 cidade foi a madeira, que ergueu os pr\u00e9dios provis\u00f3rios e vilas inteira \u2013 como a Cidade Livre, hoje N\u00facleo Bandeirante, e at\u00e9 a Vila Amaury, que est\u00e1 no fundo do lago Parano\u00e1. E se o concreto j\u00e1 est\u00e1 rachando, imagine os peda\u00e7os de pau.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dessas constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias vem sendo preservada aos trancos e barrancos, e gra\u00e7as a a\u00e7\u00e3o de um grupo de pioneiros que n\u00e3o se conforma de ver a capital limitada \u00e0 paisagem dos grandes pal\u00e1cios e luta para manter a mem\u00f3ria dos barracos seminais. Para eles, a verdadeira alma da cidade est\u00e1 nos pr\u00e9dios que antecederam os pal\u00e1cios.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou com o Catetinho, primeira sede presidencial da nova capital. Certamente, n\u00e3o foi projetado por Niemeyer para durar tanto tempo; quase foi comido por uma esp\u00e9cie de cupim que adorou a arauc\u00e1ria paranaense trazida para a constru\u00e7\u00e3o. Foi necess\u00e1ria uma interven\u00e7\u00e3o radical para matar a bicharada.<\/p>\n<p>Hoje est\u00e1 inteiro, mas com outras madeiras, provavelmente menos saborosas, como angelim, jatob\u00e1, cedro e castanheira. Tamb\u00e9m foram recuperadas igrejas pioneiras como a Nossa senhora do Ros\u00e1rio de Pomp\u00e9ia, da Vila Planalto, que pegou fogo \u2013 h\u00e1 quem acredite que foi incendiada por um padre para for\u00e7ar uma reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-367\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/Grupo-Escolar-JULIA-KUBITSCHEK-300x224.jpg\" alt=\"Grupo Escolar JULIA KUBITSCHEK\" width=\"300\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/Grupo-Escolar-JULIA-KUBITSCHEK-300x224.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/Grupo-Escolar-JULIA-KUBITSCHEK-230x172.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/05\/Grupo-Escolar-JULIA-KUBITSCHEK.jpg 385w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A nova luta \u00e9 para reerguer a escola Julia Kubitschek, assim batizada em homenagem \u00e0 m\u00e3e do presidente JK, professora. Na verdade, a escola existe, mas hoje \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o moderna que est\u00e1 no mesmo local do projeto original, na Candangol\u00e2ndia.<\/p>\n<p>O objetivo dos amigos que lutam para preservar a mem\u00f3ria da cidade \u00e9 reconstruir o pr\u00e9dio, de madeira mesmo e preservando todas as caracter\u00edsticas, para abrigar um museu da educa\u00e7\u00e3o, que contaria a hist\u00f3ria das inova\u00e7\u00f5es que acompanharam a cria\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, desde An\u00edsio Teixeira at\u00e9 Darcy Ribeiro.<\/p>\n<p>O projeto da escola tamb\u00e9m \u00e9 de Oscar Niemeyer e foi inteiramente recuperado gra\u00e7as a dilig\u00eancia de Jarbas da Silva Marques, um mineiro-goiano que conheceu o ch\u00e3o brasiliense muito antes da constru\u00e7\u00e3o da capital virar realidade \u2013 crian\u00e7a, ele viajava na boleia do caminh\u00e3o do pai, que cruzava o sert\u00e3o entre a Bahia e Goi\u00e1s, levando e trazendo mercadorias.<\/p>\n<p>Marques n\u00e3o gostou de ver o projeto sendo esnobado por secret\u00e1rios de educa\u00e7\u00e3o e, na dire\u00e7\u00e3o do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico, arrumou um lugarzinho de honra para os desenhos, \u00e0 espera de um momento melhor para trabalhar pela reconstru\u00e7\u00e3o. O momento n\u00e3o chegou \u2013 nenhum governo se interessa pelo projeto \u2013, mas ele decidiu fazer a hora.<\/p>\n<p>Com a transforma\u00e7\u00e3o do et\u00e9reo Clube dos Pioneiros numa associa\u00e7\u00e3o capaz de levar projetos como este \u00e0 frente, os trabalhos come\u00e7am a andar e j\u00e1 existe at\u00e9 uma maquete em 3D. A arquitetura \u00e9 similar \u00e0 do Catetinho e originalmente tamb\u00e9m era de t\u00e1buas da arauc\u00e1ria trazida do Paran\u00e1; foi um modelo, ao oferecer educa\u00e7\u00e3o em tempo integral, com aulas de inicia\u00e7\u00e3o art\u00edstica e ensino pr\u00e1tico para completar o turno extra.<\/p>\n<p>Com JK, a escola foi erguida em 20 dias. Agora vai demorar mais.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 13 de maio de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo conhece Bras\u00edlia por causa do concreto mas, logo depois do ermo, o que deu forma \u00e0 cidade foi a madeira, que ergueu os pr\u00e9dios provis\u00f3rios e vilas inteira \u2013 como a Cidade Livre, hoje N\u00facleo Bandeirante, e at\u00e9 a Vila Amaury, que est\u00e1 no fundo do lago Parano\u00e1. 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