{"id":377,"date":"2018-06-04T09:08:50","date_gmt":"2018-06-04T12:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=377"},"modified":"2018-06-04T09:08:50","modified_gmt":"2018-06-04T12:08:50","slug":"rei-sem-sucessor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/rei-sem-sucessor\/","title":{"rendered":"Rei sem sucessor"},"content":{"rendered":"<p>Por 418 anos o Brasil admirou muitas pessoas, mas n\u00e3o havia \u00eddolos. Nem desses que duram quatro minutos e meio, muito menos os mais duradouros. Em 1918, o futebol era incipiente, assim como a m\u00fasica popular; o r\u00e1dio s\u00f3 apareceria cinco anos depois e televis\u00e3o n\u00e3o tinha nem em filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, embora esses existissem desde 1902, quando foi lan\u00e7ado <em>Viagem \u00e0 Lua<\/em>, de Georges M\u00e9li\u00e8s.<\/p>\n<p>Celebridade ent\u00e3o era Ruy Barbosa, autor de frases que fariam muito sucesso hoje, como aquela que diz: \u201cToda a capacidade dos nossos estadistas se esvai na intriga, na ast\u00facia, na cabala, na vingan\u00e7a, na inveja, na condescend\u00eancia com o abuso, na salva\u00e7\u00e3o das apar\u00eancias, no desleixo do futuro\u201d.\u00a0Embora celebridade, ningu\u00e9m nunca quis saber como ele perdeu a virgindade e nem se foi \u00e0 ilha de Caras.<\/p>\n<p>O primeiro \u00eddolo brasileiro surgiu na m\u00fasica popular, h\u00e1 100 anos, pouco depois do lan\u00e7amento dos primeiros discos e reinou sem contesta\u00e7\u00e3o por 34 anos. Foi o primeiro dos muitos soberanos da m\u00fasica brasileira, o rei da voz, Francisco Alves.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Francisco Alves - Serra da Boa Esperan\u00e7a (1952)\" width=\"1333\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JF0yS9_lH-M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O centen\u00e1rio est\u00e1 passando batido; mas foi entre abril e maio de 1918 que ele come\u00e7ou a cantar profissionalmente, numa companhia de entretenimento e no Circo Spinelli. Dois anos depois, seria contratado para fazer as primeiras grava\u00e7\u00f5es; at\u00e9 morrer, entraria nos est\u00fadios mais 1.376 vezes. Ningu\u00e9m gravou tanto.<\/p>\n<p>O Brasil de hoje n\u00e3o tem espa\u00e7o para Francisco Alves. Sua voz j\u00e1 est\u00e1 nos servi\u00e7os de streaming como o Spotify, onde \u00e9 seguida por m\u00edseros 7.379 ouvintes mensais. Mas faz parte de um Brasil que n\u00e3o quer mais se ouvir, que renega a pr\u00f3pria hist\u00f3ria e namora com amea\u00e7as, \u00e0 espera de um milagre que n\u00e3o vir\u00e1 sem esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Foi Francisco Alves quem fez a transi\u00e7\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas \u2013 que exigiam do cantor um f\u00f4lego de nadador e, dos m\u00fasicos, t\u00f4nus de halterofilista \u2013 para os registros el\u00e9tricos. E assim introduziu a sutileza na m\u00fasica brasileira, explorando registros t\u00e3o variados que ningu\u00e9m, 66 anos depois de sua tr\u00e1gica morte, se arvorou em substitu\u00ed-lo. E desmentiu o ditado: depois do rei morto, n\u00e3o houve rei posto.<\/p>\n<p>A vida do cantor seria um prato cheio para as revistas de fofoca de hoje. Era um contumaz comprador de sambas \u2013 algo normal naqueles tempos \u2013, tinha fama de unha-de-fome e tamb\u00e9m por ter sido casado com uma mo\u00e7a que trabalhava no baixo meretr\u00edcio e se recusou deixar o of\u00edcio, mesmo depois da boda, por gostar da \u201cvida alegre\u201d.<\/p>\n<p>Mas sua mais rica heran\u00e7a foram os sambas, marchas, foxes, valsas, maxixes e tangos para os quais emprestou a voz. Gravou sambas de Sinh\u00f4 \u2013 incluindo as inaugurais <em>O P\u00e9 de Anjo<\/em> e<em> Fala Meu Louro<\/em>, essa uma brincadeira algo indelicada com a derrota de Ruy Barbosa para Epit\u00e1cio Pessoa nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais \u2013 Ismael Silva, Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso.<\/p>\n<p>Ainda assim, est\u00e1 a um passo do esquecimento. Teremos mais uma chance. Para quem gosta de datas redonda, dia 19 de agosto podemos comemorar os 120 anos de nascimento do rei que n\u00e3o fez sucessor.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 3 de\u00a0 junho de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por 418 anos o Brasil admirou muitas pessoas, mas n\u00e3o havia \u00eddolos. Nem desses que duram quatro minutos e meio, muito menos os mais duradouros. Em 1918, o futebol era incipiente, assim como a m\u00fasica popular; o r\u00e1dio s\u00f3 apareceria cinco anos depois e televis\u00e3o n\u00e3o tinha nem em filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, embora esses existissem desde 1902, quando foi [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[239,25,238,240],"class_list":["post-377","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronica","tag-centenario","tag-cronica","tag-francisco-alves","tag-idolo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=377"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":378,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377\/revisions\/378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}