{"id":427,"date":"2018-06-24T11:40:32","date_gmt":"2018-06-24T14:40:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=427"},"modified":"2018-06-24T11:40:32","modified_gmt":"2018-06-24T14:40:32","slug":"partilha-do-papagaio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/partilha-do-papagaio\/","title":{"rendered":"A partilha do papagaio"},"content":{"rendered":"<p>Toda noite quando chegava em casa ele era recebido pelo papagaio, aos brados:<\/p>\n<p>&#8211; Chegou o cachaceiro! Pingu\u00e7o!<\/p>\n<p>Se sentia um personagem de piada; e reclamava da hoje ex-mulher para os companheiros, que havia ensinado o p\u00e1ssaro a repetir sempre as mesmas frases, inclusive com o tom exclamativo, quando ele chegava \u00e0 noite. O pior \u00e9 que o papagaio estava certo; nosso amigo estava bebendo demais, a ponto de a dona do boteco tomar-lhe as chaves do carro.<\/p>\n<p>Conselhos dos amigos, todos apreciadores de umas doses \u2013 com modera\u00e7\u00e3o \u2013 de nada adiantavam. Ele n\u00e3o tinha nenhum problema que precisasse ser embebido em gim, nada para afogar e que alterasse a vida de aposentado com sal\u00e1rio integral da fun\u00e7\u00e3o que ocupou no banco. Nem os filhos davam trabalho. Bebia porque gostava. Mas gostava muito.<\/p>\n<p>A \u00fanica irrita\u00e7\u00e3o era o papagaio, sentimento que foi-se tornando incontrol\u00e1vel, at\u00e9 virar um \u00f3dio obsessivo \u2013 o bicho passou a ser considerado um inimigo. Ele tentava pequenas vingan\u00e7as, cometidas antes de sair de casa, quando esvaziava a tigela de sementes de girassol e secava o recipiente da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Ainda assim, a voz esgani\u00e7ada do papagaio o perseguia e ele lembrava da ave com olhos r\u00fatilos e esbugalhados e penas eri\u00e7adas:<\/p>\n<p>&#8211; Chegou o cachaceiro! Pingu\u00e7o!<\/p>\n<p>Os amigos faziam tro\u00e7a: \u201cO papagaio \u00e9 protegido por lei, igual \u00edndio. E fala. Vai voar at\u00e9 o Ibama e te denunciar\u201d. N\u00e3o gostava das brincadeiras; para ele era assunto s\u00e9rio. Mas n\u00e3o denunciava porque afinal a megera era a m\u00e3e dos filhos. E al\u00e9m de tudo fazia a comida dele, que confessava medo de ser envenenado.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o conversava mais. Parou de comentar as not\u00edcias do telejornal e deixou de olhar at\u00e9 para o futebol. S\u00f3 reagia \u00e0s piadas de papagaio, cada vez mais frequentes, como a do sujeito que trazia um papagaio no ombro, quando foi perguntado: \u201cO animal fala?\u201d. Quem respondeu foi o papagaio: \u201cFala. E eu tamb\u00e9m!\u201d. N\u00e3o ria e ainda reclamava.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lembrou a hist\u00f3ria do papagaio que xingava o dono todo dia; como vingan\u00e7a, foi jogado no freezer por alguns minutos e, quando libertado, assustado, pediu perd\u00e3o pelo linguajar, dizendo que nunca mais iria xingar. Antes mesmo de ocupar o lugar no poleiro, perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 por curiosidade, me diga: o que foi que o frango fez? \u2013 e ele ficava s\u00e9rio.<\/p>\n<p>O casamento fez \u00e1gua. Mais de 30 anos de conviv\u00eancia chegaram ao fim; a mulher alegou que n\u00e3o aguentava a bebedeira. Ele ainda tentou dar um jeito na situa\u00e7\u00e3o, mesmo porque n\u00e3o queria sair de perto dos companheiros. N\u00e3o estava preparado para deixar a casa pr\u00f3xima ao boteco que fiava e onde tinha carona.<\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o apenas estava irredut\u00edvel como endurecia na partilha dos bens. J\u00e1 passado dos 70, ele n\u00e3o se perturbava com o drama: \u201cJ\u00e1 encomendei um caix\u00e3o sem gavetas para n\u00e3o levar nada para o andar de baixo\u201d, dizia. N\u00e3o queria nada, mas recomendou ao advogado, nosso colega de mesa. \u201cS\u00f3 n\u00e3o abro m\u00e3o de ficar com o papagaio\u201d.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entendeu nada.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 22 de junho de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda noite quando chegava em casa ele era recebido pelo papagaio, aos brados: &#8211; Chegou o cachaceiro! Pingu\u00e7o! 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