{"id":432,"date":"2018-07-04T09:09:24","date_gmt":"2018-07-04T12:09:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=432"},"modified":"2018-07-04T09:10:40","modified_gmt":"2018-07-04T12:10:40","slug":"prazeres-masculinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/prazeres-masculinos\/","title":{"rendered":"Prazeres masculinos"},"content":{"rendered":"<p>A mulherada acha que homem s\u00f3 pensa naquilo; que o prazer masculino se limita apenas a uma coisa, mais nada \u2013 isso mesmo que voc\u00ea est\u00e1 pensando. N\u00e3o \u00e9 verdade, mas n\u00e3o vamos aqui fazer uma lista dessas pequenas alegrias que ainda fazem valer a pena ter pelos espalhados pelo corpo. \u00c0 prop\u00f3sito, vamos nos limitar \u00e0 ida \u00e0 barbearia.<\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 v\u00e1rias barbearias que tentam sofisticar um ambiente que at\u00e9 pouco tempo era aromatizado pela mistura dos cheiros de Aqua Velva, talco e o eventual mau h\u00e1lito do sujeito da cadeira ao lado. Agora, h\u00e1 profissionais que parecem ter sa\u00eddo de uma escola de belas artes, que desenham barbas e debuxam cabelos em manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas ef\u00eameras como esculturas de gelo. Mas, tirante a cerveja, nada me atrai nesse ambiente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-434\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/barbeiro-282x300.gif\" alt=\"barbeiro\" width=\"282\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/barbeiro-282x300.gif 282w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/barbeiro-550x585.gif 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/barbeiro-230x245.gif 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 o que substitua a barbearia popular, principalmente se o barbeiro tiver mais de 60 anos de idade. H\u00e1 jovens bem formados, mas s\u00e3o os mais velhos que cultivam o rito que cerca um dos grandes prazeres masculinos, inalcan\u00e7\u00e1vel at\u00e9 pelas mais ferrenhas feministas: fazer a barba.<\/p>\n<p>As mulheres t\u00eam sal\u00f5es de beleza, ambientes sado-masoquistas, que misturam prazer e dor \u2013 n\u00e3o acredito na felicidade de arrancar uma cut\u00edcula ou de esquentar o cabelo na chapa como um hamb\u00farguer, mas sei que acaba em satisfa\u00e7\u00e3o. Isso para n\u00e3o falar em opera\u00e7\u00f5es ainda mais radicais e brutas como a depila\u00e7\u00e3o com cera, ritual primitivo, mas que gera enlevo nas mulheres e, pelo tato, nos homens.<\/p>\n<p>Sal\u00f5es femininos \u2013 mesmo aqueles que aceitam homens \u2013 s\u00e3o efervescentes. Dia desses, enquanto filava um jogo na TV do bar, foi imposs\u00edvel n\u00e3o observar o que acontecia no sal\u00e3o ao lado, aquele entra-e-sai, conversas paralelas entremeadas de gritinhos que fingiam espanto e uma mistura de cheiros que atrapalhava at\u00e9 o sabor da cerveja.<\/p>\n<p>A barbearia, ao contr\u00e1rio, \u00e9 local de contri\u00e7\u00e3o \u2013 talvez uma heran\u00e7a do tempo em que os barbeiros eram tamb\u00e9m cirurgi\u00f5es e dentistas. Com a mesma navalha que escanhoavam o rosto do fregu\u00eas, faziam sangrias; se bobeasse, arrancavam um dente. Da\u00ed veio aquele cilindro pintado com listas vermelhas e brancas \u2013 simbolizando curativo e sangue \u2013 instalados nas antigas barbearias (hoje resgatados pela moda retr\u00f4).<\/p>\n<p>Com a populariza\u00e7\u00e3o desses aparelhinhos de pl\u00e1stico, ningu\u00e9m mais precisa ir \u00e0 barbearia todo dia. At\u00e9 por isso, o barbear virou um momento ainda mais solene. Come\u00e7a com uma boa conversa, mesmo nesses tempos belicosos, enquanto o profissional apura o fio da navalha. Uma toalha \u00famida e quente \u00e9 aplicada sobre o rosto para abrir os poros, o pincel espalha o creme pela \u00e1rea cabeluda e a navalha entra em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00ed a conversa vira mon\u00f3logo. \u00c9 bom escolher um barbeiro bom de bico: s\u00f3 ele fala nessa hora; por mais confian\u00e7a que o profissional mere\u00e7a, nunca \u00e9 f\u00e1cil ter uma navalha t\u00e3o perto da jugular. H\u00e1 uma certa tens\u00e3o, mas que n\u00e3o impede o prazer. No final, outra toalha quente e a torcida para que a Aqua Velva n\u00e3o arda muito.<\/p>\n<p>Mas pensando bem, voc\u00ea tinha: raz\u00e3o: o outro prazer \u00e9 melhor.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 29 de junho de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mulherada acha que homem s\u00f3 pensa naquilo; que o prazer masculino se limita apenas a uma coisa, mais nada \u2013 isso mesmo que voc\u00ea est\u00e1 pensando. N\u00e3o \u00e9 verdade, mas n\u00e3o vamos aqui fazer uma lista dessas pequenas alegrias que ainda fazem valer a pena ter pelos espalhados pelo corpo. \u00c0 prop\u00f3sito, vamos nos limitar \u00e0 ida \u00e0 barbearia. 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