{"id":436,"date":"2018-07-04T09:23:39","date_gmt":"2018-07-04T12:23:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=436"},"modified":"2018-07-04T09:23:39","modified_gmt":"2018-07-04T12:23:39","slug":"humor-sem-graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/humor-sem-graca\/","title":{"rendered":"Humor sem gra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica brasileira anda t\u00e3o sem gra\u00e7a que a libera\u00e7\u00e3o das s\u00e1tiras e piadas que t\u00eam suas excel\u00eancias como personagens, conforme decis\u00e3o do STF, pode entrar no rol daquelas leis que n\u00e3o pegam. Os humoristas t\u00eam se desdobrado para achar gra\u00e7a nas situa\u00e7\u00f5es nacionais, mas o que deveria ter como consequ\u00eancia o riso, frequentemente acaba em acessos de raiva.<\/p>\n<p>O humorismo cr\u00edtico \u00e9 coisa velha, mas a indigna\u00e7\u00e3o s\u00f3 serve para alimentar a intoler\u00e2ncia. Ningu\u00e9m quer rir de um fato que mostra, afinal, que todos estamos sendo feitos de bobos. \u00c9 um riso que d\u00f3i na alma, como as piores sensa\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>A todo momento a gente se depara com uma frase gaiata, um meme ou uma historinha nas redes sociais. H\u00e1 at\u00e9 quem ache gra\u00e7a, mas a maioria tende a acreditar que o palha\u00e7o est\u00e1 no a\u00e7o do espelho.<\/p>\n<p>O absurdo \u00e9 constante e renov\u00e1vel. O ex-presidente preso agora virou comentarista de futebol e manda considera\u00e7\u00f5es sobre a Copa do Mundo, que s\u00e3o lidas num programa de TV, como se fosse coisa normal. Dia desses o programa ia acabando e nada do coment\u00e1rio chegar mas, para al\u00edvio geral, chegou \u2013 n\u00e3o se sabe como \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o \u2013 sem precisar de prorroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o jeitinho em a\u00e7\u00e3o, primeiro caso de correspond\u00eancia esportiva no c\u00e1rcere. Ou seja: nada impede que Fernandinho Beira Mar escreva sobre culin\u00e1ria; ou que o ex-governador Azeredo comente os penteados do Neymar. Foi-se o tempo em que as pessoas eram presas para serem isoladas da sociedade. Ou seja: precisa fazer piada sobre isso?<\/p>\n<figure id=\"attachment_437\" aria-describedby=\"caption-attachment-437\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-437\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/elvis-300x225.jpg\" alt=\"Elvis Presley em O Prisioneiro do Rock\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/elvis-300x225.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/elvis.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/elvis-550x413.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/07\/elvis-230x173.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-437\" class=\"wp-caption-text\">Elvis Presley em O Prisioneiro do Rock<\/figcaption><\/figure>\n<p>O fato \u00e9 que pol\u00edtica e humor andam juntos desde os tempos dos bobos da corte, que tinham licen\u00e7a para fazer tro\u00e7a com os poderosos. Desde o come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, quando j\u00e1 n\u00e3o se cortavam tantas cabe\u00e7as por pouca coisa, as charges pol\u00edticas foram popularizadas na Europa \u2013 ali\u00e1s, pelo nome, charge (carga, em franc\u00eas) v\u00ea-se que n\u00e3o era para aliviar.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das charges no Brasil tem mais de dois s\u00e9culos, desde que o Jornal do Comm\u00e9rcio publicou a primeira. Mesmo durante as ditaduras continuaram sendo publicadas, ainda que os profissionais tivessem que driblar para escapar dos censores. Mas eis que, em plena democracia, tentaram proibir o humor com pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O jornalista Sebasti\u00e3o Nery reuniu 1950 hist\u00f3rias ver\u00eddicas \u2013 algumas engra\u00e7ad\u00edssimas, outras pitorescas \u2013 sobre pol\u00edticos em cinco livros; Cl\u00e1udio Humberto \u00e9 outro colecionador de hist\u00f3rias que beiram o rid\u00edculo e Stanislaw Ponte preta criou o Festival de Besteiras que Assola o Pa\u00eds para dar conta dos absurdos nacionais. N\u00e3o s\u00e3o piadas; s\u00e3o fatos que mostram que o mundo pol\u00edtico \u00e9 mais absurdo do que o teatro de Ionesco.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que as pessoas saibam rir de si mesmas, que o pa\u00eds possa gargalhar com suas falhas. Faz bem para baixar o ufanismo. Antes de tentar impedir o humor \u00e9 bom lembrar que nem os pol\u00edticos se levam a s\u00e9rio, como disse Ronald Reagan: \u201cEu achava que a pol\u00edtica era a segunda profiss\u00e3o mais antiga do mundo. Hoje vejo que se parece muito com a primeira\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 1\u00b0 de junho de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica brasileira anda t\u00e3o sem gra\u00e7a que a libera\u00e7\u00e3o das s\u00e1tiras e piadas que t\u00eam suas excel\u00eancias como personagens, conforme decis\u00e3o do STF, pode entrar no rol daquelas leis que n\u00e3o pegam. Os humoristas t\u00eam se desdobrado para achar gra\u00e7a nas situa\u00e7\u00f5es nacionais, mas o que deveria ter como consequ\u00eancia o riso, frequentemente acaba em acessos de raiva. 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