{"id":455,"date":"2018-09-29T16:19:12","date_gmt":"2018-09-29T19:19:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=455"},"modified":"2018-09-29T16:19:12","modified_gmt":"2018-09-29T19:19:12","slug":"o-preco-da-lagrima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-preco-da-lagrima\/","title":{"rendered":"O pre\u00e7o da l\u00e1grima"},"content":{"rendered":"<p>Evito cemit\u00e9rios. N\u00e3o chega a ser uma coimetrofobia como a de Jorge Amado, que nem depois de morto entrou em um deles, j\u00e1 que pediu para ser cremado. Mas h\u00e1 uma certa repulsa pelos chamados campos santos e compromissos f\u00fanebres.<\/p>\n<p>No campo da esperan\u00e7a \u00e9 ainda pior, porque \u00e9 preciso se desviar das covas que s\u00e3o marcadas apenas por uma plaquinha. N\u00e3o fica bem pisotear aquele ch\u00e3o, mesmo sabendo quer teve muito osso tirado dali, numa transa\u00e7\u00e3o das mais tenebrosas.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o h\u00e1 como fugir sempre. E foi assim que eu descobri que n\u00e3o h\u00e1 mais l\u00e1grimas nos vel\u00f3rios.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o aqui uma ressalva: n\u00e3o foram enterros de crian\u00e7as ou jovens, quando o luto se mistura \u00e0 revolta; eram todas pessoas mais velhas, mas dignos do respeito que normalmente \u00e9 traduzido pelo choro sentido das pessoas pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, deu para observar que as pessoas se cumprimentavam com certa alegria e efusividade, mesmo naquele ambiente contrito. No caso daqueles que n\u00e3o se viam h\u00e1 mais tempo havia abra\u00e7os e conversas animadas. Era quase uma festa para colocar assuntos em dia.<\/p>\n<p>De certo modo \u00e9 compreens\u00edvel. As pessoas t\u00eam o direito de celebrar a vida, ainda mais diante de um finado que, por mais pr\u00f3ximo e querido que seja, passou dessa para uma melhor \u2013 isso, conforme o eufemismo que, como carece de comprova\u00e7\u00e3o, me faz preferir o pior daqui mesmo.<\/p>\n<p>Mas senti falta das l\u00e1grimas. Havia rostos tristes, mas secos, \u00e1ridos. Havia alguma pung\u00eancia, mas ainda acredito que o desespero faz parte do momento solene final, talvez por lembrar de uma passagem da minha tenra puberdade.<\/p>\n<p>No interior de Pernambuco, fui levado ao vel\u00f3rio de algu\u00e9m importante. O caix\u00e3o com o corpo foi deixado no centro da sala cheia de gente que olhava respeitosamente, enquanto tr\u00eas senhorinhas vestidas de preto choravam copiosamente \u2013 chegavam a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>Assim como o riso, o choro \u00e9 contagioso. E todas as mulheres presentes vertiam l\u00e1grimas; os homens, n\u00e3o, porque naquele tempo homem n\u00e3o chorava, ainda mais no agreste pernambucano.<\/p>\n<p>As tr\u00eas carpideiras faziam um trabalho not\u00e1vel; n\u00e3o sei se chegaram a conhecer o homem estirado, mas se comportavam como inconsol\u00e1veis vi\u00favas, facilitando a vida de quem queria mostrar algum sentimento.<\/p>\n<p>\u00c9 uma profiss\u00e3o antiga, vem de antes de Cristo; h\u00e1 registros de profissionais do luto em Tebas (Egito), s\u00e3o personagens de Samuel e Jeremias, no Novo Testamento, e chegaram ao Brasil com os portugueses que, sabemos, adoram um vestidinho preto e uma can\u00e7\u00e3o triste.<\/p>\n<p>Eram presen\u00e7as do tempo em que o vel\u00f3rio durava toda a noite, num rito que durava at\u00e9 a hora do enterro. \u00c9 uma profiss\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o. Hoje as carpideiras resistem apenas como personagens de teatro e cordel do que na vida real.<\/p>\n<p>\u201cToda noite de lua cheia\/ Corria na cidadela\/ Que a coisa era muito feia\/ Quem via era presa dela\/Nunca dei pelo assunto\/ E quem chora por defunto\/ \u00c9 carpideira banguela\u201d, narra H\u00e9lio Pequeno, no Cordel Assombrado.<\/p>\n<p>Talvez a vida esteja t\u00e3o dura que ningu\u00e9m mais quer mais pagar por l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 28 de setembro de 2018<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evito cemit\u00e9rios. N\u00e3o chega a ser uma coimetrofobia como a de Jorge Amado, que nem depois de morto entrou em um deles, j\u00e1 que pediu para ser cremado. Mas h\u00e1 uma certa repulsa pelos chamados campos santos e compromissos f\u00fanebres. 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